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Centro Espírita Beneficente União do Vegetal

(Redirecionado de União do Vegetal)

O Centro Espírita Beneficente União do Vegetal é uma sociedade religiosa fundada a 22 de Julho de 1961 por José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel, com o objetivo de promover a paz e “trabalhar pela evolução do ser humano no sentido do seu desenvolvimento espiritual”, conforme consta em seu regimento interno. O Centro conta hoje com mais de 20 mil sócios, distribuídos em 160 unidades, no Brasil e no exterior.

Em suas sessões, os associados bebem o chá Hoasca, ou ayahuasca, como também é conhecido, para efeito de concentração mental. O uso da Hoasca em rituais religiosos foi regulamentado em 25 de janeiro de 2010 pelo CONAD, o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, do Governo Federal. Essa regulamentação estabelece normas legais para as instituições religiosas que fazem uso responsável do chá.

Além da atividade religosa, a UDV desenvolve também um trabalho de beneficência social. O Governo Federal concedeu ao Centro Espírita Beneficente União do Vegetal o título de Entidade de Utilidade Pública, no Diário Oficial da União nº 139, do dia 22 de julho de 1999.

Fundamentos e administraçãoEditar

A União do Vegetal tem como Sede Geral a cidade de Brasília, Distrito Federal, e está presente em todos os Estados, em mais de cem municípios. No Exterior, o Centro está também em países como Estados Unidos, Canadá, Espanha, Inglaterra, Suíça, Portugal, Austrália e Peru. Seus sócios são oriundos de todas as classes sociais.

O Centro Espírita Beneficente União do Vegetal é dividido em Núcleos e DAV (Distribuição Autorizada de Vegetal), sendo comandados pelo mestre em representação, e constituem-se de número ilimitado de sócios. Os mesmos têm direito de comparecer às sessões de sua escala nas datas determinadas por seu regimento interno.

Os ensinamentos da União do Vegetal baseiam-se no princípio da reencarnação evolucionista, preceito milenar adotado tanto pelo espiritualismo do Oriente como pelos primeiros cristãos, até o século V da nossa Era.

De acordo com a doutrina da UDV, Jesus Cristo é o Filho de Deus. Os ensinamentos são orientados pelo princípio cristão segundo o qual "o discípulo deve amar ao próximo como a si mesmo para ser merecedor do símbolo da União: Luz, Paz e Amor" – conforme estabelecido no conjunto de documentos que regem a instituição.

A doutrina da UDV é oral, transmitida exclusivamente em seus rituais religiosos. Nas sessões, o Mestre dirigente dos trabalhos distribui o chá Hoasca, também denominado Vegetal. Segundo os adeptos da religião, o Vegetal proporciona maior concentração mental, um estado equilibrado de percepção e ampliação da consciência.

HistóriaEditar

A União do Vegetal nasceu nos seringais da Amazônia, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia. A religião foi fundada por José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel, como é chamado pelos discípulos. Ele conheceu o chá Hoasca em 1959 através de um senhor chamado Chico Lourenço, que o distribuía entre os seringueiros.

Segundo a doutrina da UDV, o Mestre Gabriel reconheceu sua missão espiritual na primeira vez que bebeu o chá. Ainda em 1959, ele próprio começou a distribuir o Vegetal, nome com o qual o chá Hoasca passou a ser denonimado.

Dois anos depois, em 22 de julho de 1961, Mestre Gabriel declarou a criação da sociedade religiosa União do Vegetal. A data passou a ser comemorada pela instituição como o aniversário de sua fundação.

No dia 31 de dezembro de 1964, Mestre Gabriel viajou com a família para Porto Velho, capital do Território do Guaporé, hoje Estado de Rondônia. Lá, iniciou os trabalhos de consolidação da sociedade que havia criado.

No início das atividades, a UDV não tinha registro oficial. A polícia chegou inclusive a prender indevidamente o Mestre Gabriel, o que ocasionou o registro da Associação Beneficente União do Vegetal, além da publicação no Jornal Alto Madeira de um artigo intitulado “Convicção do Mestre”, uma defesa pública dos princípios e objetivos da UDV.

Em 29 de julho de 1967, o Mestre Gabriel autorizou o discípulo Florêncio Siqueira de Carvalho a iniciar os trabalhos da União do Vegetal em Manaus, primeiro passo para a expansão da UDV pelo País.

No início dos anos 70, a União do Vegetal teve as suas sessões em Porto Velho temporariamente suspensas pela Divisão de Segurança e Guarda do Território Nacional. A instituição entrou com um mandado de segurança para retomar suas atividades, e passou a adotar o nome de Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

Mestre Gabriel morreu no dia 24 de setembro de 1971, na cidade de Brasília. Tem início o processo de expansão da União do Vegetal, e a instituição começa a chegar a outras capitais do país.

Em 1º de Novembro de 1982, formalizou-se a transferência da Sede Geral, de Porto Velho para Brasília, com o objetivo de atender às necessidades de desenvolvimento institucional do Centro.

Relações com a sociedadeEditar

Entre as religiões hoasqueiras, a União do Vegetal é uma das mais organizadas institucionalmente, tornando-se uma das principais interlocutoras das autoridades brasileiras nos assuntos relacionados ao uso do chá Hoasca.

Notadamente a partir da década de 80, a UDV vem buscando o diálogo com as autoridades, de forma a normatizar o uso do chá Hoasca pelos seus associados no contexto religioso. Pesquisas médico-científicas, realizadas por universidades do Brasil e do exterior, e o estudo de uma comissão multidisciplinar de trabalho do Governo Federal resultaram na resolução do CONAD, de 25 de janeiro de 2010, que assegurou o uso do chá pelas religiões hoasqueiras, estabelecendo as normas para essa utilização.

Em 11 de julho de 2011, a Câmara dos Deputados, em Brasília, realizou uma sessão solene em homenagem aos 50 anos do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. Outras sessões com o mesmo caráter também foram realizadas em Câmeras de Vereadores e Assembleias Legislativas de diversos estados, entre eles Bahia, Ceará, Acre e Amazonas. A instituição publicou em seu blog uma relação de todas as sessões solenes realizadas por ocasião dos seus 50 anos.

Segundo o site oficial da instituição, a UDV segue princípios que garantem a utilização segura do chá. Entre eles, destacam-se o uso exclusivamente em rituais religiosos, a não comercialização do Vegetal, e a proibição do uso de substâncias proscritas associado à comunhão do chá.

Ainda segundo o site, a instituição também não ministra o chá a pessoas que não apresentem um adequado quadro emocional, e nem faz publicidade em busca de adeptos.

Ciência e SaúdeEditar

Em 1986, foi instituído na União do Vegetal o Departamento Médico-científico (Demec), criado para atuar como canal de relacionamento da UDV com a comunidade acadêmica.

Em junho de 1991, a instituição realizou, em São Paulo, o I Congresso em Saúde, com o objetivo de atualizar os participantes a respeito do conhecimento acadêmico disponível sobre o chá Hoasca. Participaram autoridades jurídicas, filiados do Centro e pesquisadores nacionais e internacionais, a exemplo de Dennis McKenna (EUA) e Luís Eduardo Luna (Colômbia).

Um dos principais resultados desse congresso foi a proposta feita ao etnofarmacologista Dennis McKenna para a realização de uma pesquisa a respeito do uso do chá Hoasca no âmbito da União do Vegetal. A idéia resultou no projeto Farmacologia Humana da Hoasca.

Nove centros universitários e instituições de pesquisa do Brasil, Estados Unidos e Finlândia participaram desse projeto, que envolveu mais de trinta pesquisadores. Os resultados definitivos foram apresentados em 1995, na I Conferência Internacional dos Estudos da Hoasca, no Rio de Janeiro.

Depois desses estudos, outras pesquisas foram iniciadas. E muitas ainda encontram-se em andamento em centros universitários do País.

O trabalho de beneficênciaEditar

A União do Vegetal desenvolve também atividades de beneficência em suas unidades. A instituição recebeu do Governo Federal o título de Entidade de Utilidade Pública, no dia 22 de julho de 1999, publicado no Diário Oficial da União nº 139. Além do título federal, renovado todos os anos, a UDV possui os títulos de utilidade pública estadual e municipal em diversos estados do País.

Parte das práticas sociais adotadas pela UDV são realizadas em parceria com o Poder Público. Outras, associadas a organizações da sociedade civil e entidades representativas da iniciativa privada. Todas as atividades são feitas a partir do trabalho voluntário dos sócios.

No calendário oficial da instituição constam eventos como o do Dia do Bem, realizado no dia 26 de março. Nesse dia, núcleos do Brasil e do exterior promovem um mutirão de ações sociais para as comunidades.

Outro projeto, o Luz do Saber, aplica um modelo de ensino que usa a tecnologia digital para alfabetizar jovens e adultos. Segundo dados da UDV, cerca de 4 mil pessoas já foram alfabetizadas pelo projeto em todo o País nos últimos oito anos.

A UDV e o Meio ambienteEditar

Em 1990, foi criada a Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico, uma entidade ligada à União do Vegetal que tem como objetivo trabalhar pela defesa e a preservação do meio ambiente.

A Associação Novo Encanto é responsável pela preservação de uma área de 8.125 hectares de floresta nativa, no município de Lábrea, no Estado do Amazonas, fronteira com o Acre. A área tem uma grande importância ambiental devido à sua biodiversidade e ao seu sistema hídrico, composto por um rio, doze igarapés e seis lagoas.

A entidade realiza diversas ações para preservar esta porção de floresta contra invasões, extração de madeira e devastação do ecossistema. Parte das ações é focada em atividades de ecoturismo e atividades econômicas sustentáveis, como a produção de castanhas e couro vegetal.

BibliografiaEditar

  • Santana de Rose, Isabel (2018). «União do Vegetal». In: Henri Gooren (ed.). Encyclopedia of Latin American Religions. Cham: Springer International Publishing. pp. 1–4. ISBN 978-3-319-08956-0. Consultado em 22 de outubro de 2018 

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar