Vedānta (em devanāgarī: वेदान्त, Vedānta), também denominado Uttāra Mīmāṁsā, é uma tradição espiritual explicada nas Upaniṣads, que tem o foco no autoconhecimento, através da qual se pode compreender a real natureza da Realidade Ilimitada (Brahman). O Vedānta aponta para Brahman, o Ilimitado, com o termo tríplice saccidānanda: realidade (sat), consciência (cit) e plenitude (ānanda).[1]

Ramanujacharya retratado com Vaishnava Tilaka e a estátua de Vishnu.

O Vedānta contém muitas tradições diferentes, baseadas em interpretações diferentes das Upaniṣads, do Brahmasūtra e da Bhagavadgītā. Todas essas tradições têm o mesmo foco mas diferem em quanto à visão ontológica, soteriológica e epistemológica. Ela são as seguintes:

  1. Bhedabheda (diferença e não-diferença), datado do século VII (ou possivelmente do século iV dC). Alguns eruditos são inclinados a pensar no Bhedabheda mais como uma tradição do que como uma escola de Vedānta.
  2. Advaita (não-dualidade), cujos mais relevantes expoentes são os mestres Gaudapāda (~século V dC) e Ādi Śaṅkarācārya (século VIII dC)
  3. Viśiṣṭadvaita (não-dualidade qualificada), representada pelos sábios Nāthamuni, Yāmuṇa e Rāmanuja (1017–1137 dC)
  4. Dvaita (dualismo), fundada pelo mestre Madhavācārya (1199–1278 dC)
  5. Suddhadvaita (non-dualismo puro), fundada pelo sábio Vallabha (1479–1531 dC)

Os desenvolvimentos contemporâneos do Vedānta incluem o Neo-Vedānta e o crescimento do Sampradāya de Swāminarayaṇ, no Gujarat. Todas essas escolas, com exceção do Advaita Vedānta e do Neo-Vedānta, estão vinculadas com o vaiṣṇavismo e enfatizam a devoção a Viṣṇu, frequentemente na forma de Śrī Kṛṣṇa ou manifestações correlatas. Enquanto o Advaita Vedanta atraiu desde o século XVIII considerável atenção no Ocidente devido à influencia de modernistas hindus como Swāmi Viviekānanda, a maioria das demais tradições vedantinas são vistas como discursos da teologia vaiṣṇava.

FundamentosEditar

O Vedānta não se restringe ou está confinado a um único texto ou fonte. Baseia-se nas leis espirituais imutáveis que são comuns às tradições religiosas e espirituais ao redor do mundo, onde o "meta do conhecimento" se referiria a um estado de realização ou de consciência cósmica. Historicamente, o Vedānta tem sido compreendido como um estado de transcendência, e não como um conceito que pode ser compreendido apenas pelo intelecto. O Vedānta não é, contudo, nem uma filosofia e tampouco uma religião e sim um ensinamento metafísico.

A palavra Vedānta é um composto sânscrito que pode ser interpretado como:

  • veda = "conhecimento" + anta = "fim, conclusão": "o ápice do conhecimento" ou "adendo aos Vedas"
  • veda = "conhecimento" + anta = "essência", "centro", ou "dentro": "a essência dos Vedas".[2]

O Vedānta representa o Eu como o supremo regente de todos os centos de atividades fenomênicas e também como uma testemunha indiferente a tudo que ocorre. No Vedānta, esse Eu participa das ações, contudo não se envolve diretamente nos os processos e em suas consequências, sendo ele uma perfeita correspondência do ser supremo das mitologias populares indianas e esse criador. Desse Ser divino surgem todas as transfigurações na esfera do devir. Esse Uno, como o Senhor da Mãyã, modifica ininterruptamente uma diminuta partícula de sua própria incomensurabilidade nas multidões de seres que entram e saem uns dos outros. Sendo assim, o Brahman continua impassível.[3]

O Eu da tradição védica é o Ser Universal e reside o indivíduo, sendo também o que lhe fornece vida. Ele transcende tanto o organismo físico quanto a sutileza da psiquê, embora careça ele mesmo de órgãos sensoriais próprios. Esta interação paradoxal entre criatura fenomênica e seu núcleo imperecível impassível, oculto pelos envoltórios perecíveis é expressa em estrofes vedantinas:[4]

O cego encontrou a joia;
O sem dedos a pegou;
O sem pescoço a vestiu;
E o mundo a elogiou.

O adhikãrin (pupilo) ao começar seu estudo de Vedānta deve ter uma postura não de crítica ou de curiosidade, mas de absoluta confiança na ideia que ele poderá descobrir a verdade por meio das fórmulas do Vedānta. Além disso, cabe ao adhikãrin possuir um grande desejo de libertar-se da vida mundana, uma aspiração firme e sincera de livrar-se da servidão de sua existência de indivíduo preso ao vórtice da ignorância. Essa atitude é denominada mumukṣutva (o desejo de libertação).[5]

O Advaita Vedānta revela que a Consciência Ilimitada está em tudo, em todos os objetos inanimados e em todos os seres vivos. Essa presença invariável é aludida através de palavras especiais chamadas lakṣaṇas ou apontadores, dentre as quais destaca-se o Oṅkāra (mantra Oṁ):

ॐ इत्येतदक्षरमिदं सर्वं तस्योपव्याख्यानं

भूतं भवद् भविष्यदिति सर्वमोङ्कार एव

यच्चान्यत् त्रिकालातीतं तदप्योङ्कार एव ॥ १ ॥

oṁ ityetadakṣaramidaṁ sarvaṁ tasyopavyākhyānaṁ

bhūtaṁ bhavad bhaviṣyaditi sarvamoṅkāra eva

yaccānyat trikālātītaṁ tadapyoṅāra eva || 1 ||

O Oṅkāra é tudo o que está aqui. Aqui [inicia] a clara exposição:

tudo o que foi, o que é e o que será, é de fato Oṁ.

Tudo o que há além dos três períodos do tempo é também, de fato, Oṁ. || 1 ||

सर्वं ह्येतद् ब्रह्मायमात्मा ब्रह्म

सोऽयमात्मा चतुष्पात् ॥ २ ॥

sarvaṁ hyetad brahmāyamātmā brahma

so’yamātmā catuṣpāt || 2 ||

Tudo é certamente Brahman. Este Ser é Brahman.

O Ser, tal como é, consiste em quatro quartos. || 2 ||[6]

Ver tambémEditar

Referências

  1. BIANCHINI, Flávia. Brahman é Ānanda. Pp. 101-125, in: GNERRE, Maria Lúcia Abaurre; POSSEBON, Fabrício (orgs.). Cultura oriental: língua, filosofia e crença. Vol. 2. João Pessoa: Editora da UFPB, 2012.
  2. Sharma, Subhash C. Vedanta Sutra and the Vedanta Arquivado em 7 de abril de 2005, no Wayback Machine.
  3. Zimmer, Heinrich. Filosofias da Índia. [S.l.]: Palas Athena. p. 292, 293. ISBN 9788572420020 
  4. Taiitirya-Aranyaka 1.11.5.
  5. Vedantasara, 24
  6. Dayānanda, Swāmi (1 de janeiro de 2017). «Māṇḍukyopaniṣad». www.yoga.pro.br. Consultado em 25 de janeiro de 2021 

Ligações externasEditar

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