Ximango (política)

designação política
 Nota: Para outros significados de Ximango, veja Ximango (desambiguação).

Ximango ou Chimango[1] é o apelido pelo qual eram chamados uma das duas correntes inicialmente havidas no Brasil, durante o período regencial, e que apoiava o governo; formavam o Partido Moderado e sofria a oposição dos exaltados, também chamados jurujubas ou farroupilhas (lenço vermelho, que tinham sido pacificados por Luiz Alves de Lima e Silva, conhecido como "Caxias" pelas tropas e pelo Exército brasileiro), que procurava derrubá-los. Mais tarde tiveram a oposição também do Partido Restaurador, apelidado de Caramurus.[2]

Feijó, um dos expoentes dos ximangos no período regencial

Durante o período regencial os ximangos eram contrários à descentralização e às reformas, queriam a ordem, a continuação da monarquia e do voto censitário (baseado nos recursos econômicos), boas relações com a Inglaterra e a manutenção do Brasil como país agrícola e exportador. Enquanto que os exaltados eram favoráveis a reformas para melhorar a situação dos mais pobres e reinvidicavam: direito total de manifestação, regime republicano, voto para todos, independentemente de suas posses, independência da Inglaterra, industrialização e autonomia de províncias.[3]

Segundo Reinado

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Durante o Segundo Reinado no Brasil (1840-1889), o país estava dividido em dois principais partidos políticos: o Partido Liberal e o Partido Conservador. Essas divisões políticas refletiam diferentes visões sobre questões como o papel do Estado na economia, a descentralização do poder, as relações com a Igreja Católica e a escravidão. No Rio Grande do Sul, essa divisão partidária assumiu características específicas devido aos interesses econômicos, sociais e culturais da região. Os liberais, também chamados de ximangos, eram geralmente associados a setores da população urbana, comerciantes e pequenos proprietários rurais. Eles tendiam a apoiar medidas que promovessem o desenvolvimento econômico, a descentralização do poder e a modernização das estruturas políticas e sociais. [4]

Por outro lado, os conservadores representavam os interesses das elites rurais, dos grandes proprietários de terras e da aristocracia local. Eles defendiam uma postura mais centralizadora do Estado, conservadora nos costumes e na economia, além de serem, em grande parte, defensores da escravidão. Essa divisão política no Rio Grande do Sul se manifestou em diferentes momentos e contextos. Durante o Segundo Reinado, os ximangos eram os opositores dos conservadores, e ambos os grupos buscavam conquistar o poder político na região. Essa rivalidade entre os partidos frequentemente resultava em conflitos políticos, mobilizações populares e até mesmo em episódios de violência. [4]

No Rio Grande do Sul o termo foi usado em várias ocasiões: durante o segundo reinado, os partidários do Partido Liberal receberam a alcunha pejorativa de "ximangos", em alusão à ave de rapina, e faziam oposição ao Partido Conservador. Os ximangos representavam uma facção política que se opunha ao Partido Conservador, estabelecendo assim um cenário de polarização política na região sulista do Brasil. Assim, o termo "ximango" tornou-se uma alcunha pejorativa usada pelos conservadores para desacreditar os liberais, associando-os a uma ave de rapina, símbolo de predadores. Essa dinâmica política complexa influenciou significativamente a história política e social do Rio Grande do Sul durante o Segundo Reinado, deixando um legado que perdurou por décadas. [4]

Essa oposição entre ximangos e conservadores refletia as divergências ideológicas e de interesses entre as duas correntes políticas. Enquanto os conservadores defendiam uma postura mais tradicionalista e conservadora, os ximangos buscavam promover reformas e avanços políticos e sociais na região. Essa dinâmica contribuiu para a complexidade do cenário político do Rio Grande do Sul durante o Segundo Reinado, influenciando diretamente os rumos do estado e do país como um todo. [4]

Primeira República

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A Primeira República no Brasil refere-se ao período histórico que se estende de 1889 a 1930, iniciando-se com a Proclamação da República e encerrando-se com a Revolução de 1930, que culminou na ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Esse período é marcado por uma série de transformações políticas, sociais e econômicas significativas no país. A Proclamação da República ocorreu em 15 de novembro de 1889, quando um grupo de militares, liderados pelo Marechal Deodoro da Fonseca, depôs o imperador Dom Pedro II e instituiu uma forma republicana de governo no Brasil. Essa mudança de regime político refletia o descontentamento de diversos setores da sociedade com o sistema monárquico e seus problemas, como a centralização do poder, a crise econômica e a insatisfação de grupos militares. [5]

Após a Proclamação da República, e por ocasião da Revolução de 1923, os federalistas apelidaram os governistas de ximangos. Identificavam-se por lenço branco envolvendo o pescoço; seus antagonistas regionais eram os maragatos, de lenço vermelho. Caracterizavam-se politicamente pela tendência governista (perpetuar-se no poder), enquanto os maragatos costumavam adotar posição oposicionista, a nível estadual. [5]

Durante a Primeira República, o Rio Grande do Sul foi palco de intensos conflitos políticos e sociais, que refletiam as divisões ideológicas e econômicas presentes no país. Dois grupos principais se destacaram nesse cenário: os Ximangos e os Maragatos. Os Ximangos eram ligados ao Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), que representava os interesses das elites rurais e urbanas, principalmente ligadas à produção de charque. Eles eram associados ao Partido Republicano Federal (PRF), que apoiava o governo federal e defendia a centralização do poder. Provinham da corrente fortemente positivista, que dominava o Partido Republicano Rio-Grandense, o PRR, desde Júlio de Castilhos. [6]

Os Maragatos eram liderados principalmente por membros do Partido Federalista, uma facção política do Rio Grande do Sul que se opunha ao governo central e à hegemonia política dos Ximangos. Eles eram compostos por camponeses, pequenos proprietários rurais e descontentes com o governo central. Os conflitos entre Ximangos e Maragatos eram alimentados por uma série de questões, incluindo disputas políticas, econômicas e regionais. Os Maragatos se opunham ao controle político exercido pelos Ximangos e buscavam uma maior autonomia regional, além de representação política para as camadas populares. Esses conflitos culminaram em uma série de revoltas e guerras civis conhecidas como "Revolução Federalista" (1893-1895) e "Revolução de 1923". Durante esses períodos de conflito, as forças Maragatas lutaram contra as forças Ximangas pelo controle político do Rio Grande do Sul e pela implementação de reformas sociais e políticas. [5]

As batalhas travadas entre Ximangos e Maragatos foram marcadas por intensos combates e episódios de violência, resultando em perdas humanas e danos materiais significativos. Esses conflitos deixaram um legado duradouro na história do Rio Grande do Sul, influenciando a política regional e as relações sociais por muitos anos após a Primeira República. As disputas políticas entre Ximangos e Maragatos no Rio Grande do Sul durante a Primeira República estavam intrinsecamente ligadas às grandes tendências políticas que caracterizaram esse período no Brasil. Durante a Primeira República, o Brasil era dominado por oligarquias regionais que exerciam controle sobre o sistema político. No Rio Grande do Sul, as facções dos Ximangos e Maragatos representavam interesses de diferentes oligarquias, com os Ximangos geralmente associados aos grandes produtores rurais e urbanos, enquanto os Maragatos representavam camadas populares e setores desfavorecidos. [6]

Tanto os Ximangos quanto os Maragatos estavam envolvidos em uma luta pelo controle do poder político, refletindo a tendência centralizadora do governo federal durante a Primeira República. Os Ximangos geralmente buscavam fortalecer o poder central e manter o controle sobre o Rio Grande do Sul, enquanto os Maragatos muitas vezes resistiam a essa centralização e defendiam uma maior autonomia regional.s conflitos entre Ximangos e Maragatos no Rio Grande do Sul refletiam as tensões sociais e políticas mais amplas que existiam em todo o Brasil durante a Primeira República. Esses conflitos eram alimentados por questões como distribuição de terras, direitos trabalhistas, representação política e descentralização do poder. [6]

Os Maragatos, em particular, representavam um movimento de resistência contra o governo central e as oligarquias dominantes, refletindo uma tendência mais ampla de mobilização popular e protesto social que caracterizou a Primeira República. Esses movimentos frequentemente se manifestavam em revoltas armadas e guerras civis, como as Revoluções Federalistas. Portanto, as disputas políticas entre Ximangos e Maragatos no Rio Grande do Sul durante a Primeira República estavam intimamente ligadas às grandes tendências políticas que definiram esse período no Brasil, incluindo a dominação das oligarquias regionais, a centralização do poder, os conflitos sociais e os movimentos de resistência. Essas disputas não só influenciaram a política gaúcha, mas também contribuíram para moldar o cenário político nacional da época. [6]

Lideranças

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No contexto da Primeira República, os principais nomes relacionados à política gaúcha e às facções dos Ximangos e Maragatos foram Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e Getúlio Vargas. Júlio de Castilhos foi uma figura proeminente na política gaúcha durante a Primeira República. Ele foi um líder Ximango, associado ao Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Castilhos exerceu grande influência como presidente do estado do Rio Grande do Sul por três mandatos não consecutivos (1893-1898, 1900-1904, 1908-1910). Ele foi um defensor do centralismo político e da modernização do estado, promovendo reformas administrativas, educacionais e sociais. [7]

 
Borges de Medeiros, liderança assoaciada aos ximangos

Borges de Medeiros também foi uma figura proeminente na política gaúcha durante a Primeira República. Ele era um líder Ximango e membro do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Medeiros serviu como presidente do estado do Rio Grande do Sul por cinco mandatos não consecutivos (1898-1900, 1904-1908, 1910-1914, 1917-1920, 1928-1930). Assim como Castilhos, ele defendia a centralização política e era conhecido por sua habilidade política e por implementar medidas progressistas no estado. [7]

Embora Getúlio Vargas seja mais conhecido por seu papel posterior na história do Brasil, durante a Primeira República ele também teve participação na política gaúcha. Vargas inicialmente foi um oficial do Exército e participou da Revolta da Armada em 1893, ao lado dos Maragatos, contra o governo federal. No entanto, posteriormente, ele se alinhou com as forças Ximangas e ocupou cargos políticos no Rio Grande do Sul, antes de ascender ao cenário nacional. [7]

A relação entre a política gaúcha e a política nacional brasileira durante a Primeira República era complexa e multifacetada. O Rio Grande do Sul era uma das principais unidades federativas do país e desempenhava um papel importante no cenário político nacional. As disputas políticas entre Ximangos e Maragatos no estado muitas vezes refletiam as divisões políticas mais amplas que existiam em todo o Brasil, especialmente entre os partidos republicanos e as facções políticas em nível federal. [7]

Além disso, o positivismo exerceu uma influência significativa no contexto político da Primeira República no Brasil, incluindo no Rio Grande do Sul. A ideologia positivista, com sua ênfase na ordem, progresso e centralização do poder, foi adotada por muitos líderes políticos da época, incluindo Castilhos e Borges de Medeiros. Essa influência ideológica contribuiu para a adoção de políticas centralizadoras e reformistas no estado, bem como para a promoção de valores como disciplina, trabalho e patriotismo. [7]

Revolução Federalista

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A Revolução Federalista foi um dos conflitos mais significativos que ocorreram durante a Primeira República no Brasil e teve um impacto profundo no Rio Grande do Sul. Ela ocorreu entre 1893 e 1895 e foi uma guerra civil que opôs as forças republicanas centralizadoras, representadas pelos Ximangos, liderados por Júlio de Castilhos, e as forças federalistas descentralizadoras, os Maragatos, liderados por Gumercindo Saraiva. O conflito teve suas raízes nas disputas políticas e econômicas que caracterizavam o Rio Grande do Sul na época. As principais questões em jogo incluíam a centralização do poder pelo governo federal e pelos Ximangos, a questão da autonomia regional e a luta pelo controle político e econômico do estado. [8]

 
Inicío da Revolução deu-se pelo assassinato do governador Gaspar Silveira Martins

O estopim da Revolução Federalista foi o assassinato do líder federalista e ex-governador do estado, Gaspar Silveira Martins, em 1893, que gerou uma revolta em diversas regiões do Rio Grande do Sul. Os federalistas, liderados por Gumercindo Saraiva, logo organizaram uma rebelião armada contra o governo central e os Ximangos. A guerra civil que se seguiu foi caracterizada por uma série de batalhas e confrontos violentos em todo o estado. Os federalistas conseguiram controlar grande parte do território gaúcho durante a maior parte do conflito, enquanto os Ximangos mantiveram o controle das principais cidades e fortalezas. [8]

As lideranças principais dos Ximangos incluíam Júlio de Castilhos, presidente do estado do Rio Grande do Sul na época, e Borges de Medeiros, seu sucessor. Ambos eram defensores do governo central e da centralização do poder, e mobilizaram as forças Ximangas para combater os federalistas. Por outro lado, os federalistas eram liderados por Gumercindo Saraiva, um carismático líder militar e político, e também contavam com o apoio de outras figuras importantes, como o general Antônio de Sampaio, conhecido como "O Barão de Caçapava". [9]

A guerra só chegou ao fim em 1895, quando as forças federais, apoiadas pelo governo central, conseguiram derrotar os federalistas em uma série de batalhas decisivas, como a Batalha de Cerro Corá.[necessário esclarecer] Gumercindo Saraiva foi morto em combate, e a Revolução Federalista chegou ao seu fim, embora suas consequências políticas e sociais continuassem a reverberar no Rio Grande do Sul e no Brasil por muitos anos. Na Revolução Federalista, as forças Ximangas, lideradas por Júlio de Castilhos e apoiadas pelo governo central, conseguiram prevalecer sobre os federalistas liderados por Gumercindo Saraiva. Assim, pode-se dizer que os Ximangas foram os vencedores do conflito. [10]

Apesar de os federalistas terem controlado grande parte do território gaúcho durante a maior parte do conflito e terem infligido sérias derrotas às forças Ximangas em várias ocasiões, as forças governamentais e Ximangas conseguiram reverter a situação ao longo do tempo. A vitória dos Ximangas foi selada com a morte de Gumercindo Saraiva em 1895, durante a Batalha de Cerro Corá. Com a morte de Saraiva e o enfraquecimento das forças federalistas, as forças Ximangas conseguiram consolidar seu controle sobre o estado do Rio Grande do Sul e pôr fim à rebelião federalista. [10]

Revolução de 1923

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Na Revolução de 1923, no Rio Grande do Sul, os ximangos eram os adeptos de Borges de Medeiros, que tentava a reeleição permanente aos governos do estado, com o "apoio do governo central (uma vez que este não tinha conhecimento da "política estadual")", enquanto os maragatos apoiavam Assis Brasil. Borges de Medeiros foi chamado satiricamente de Antônio Chimango, em obra literária atribuída a Ramiro Barcelos publicada sob a pseudo-autoria de Amaro Juvenal. A Revolução de 1923 foi outro conflito significativo que ocorreu no Rio Grande do Sul durante a Primeira República brasileira. Este conflito teve suas raízes nas tensões políticas e econômicas que caracterizavam o estado na época, incluindo a insatisfação com o governo central e as demandas por reformas políticas e sociais. [11]

O estopim da Revolução de 1923 foi a insatisfação com o governo estadual liderado por Borges de Medeiros, que estava no poder desde 1910. Borges de Medeiros, um líder Ximango, foi acusado de autoritarismo e corrupção, e sua administração enfrentava crescente oposição de diversos setores da sociedade gaúcha. Os líderes da revolta incluíam políticos dissidentes, militares descontentes e grupos da sociedade civil organizada. Entre os principais líderes da revolta estava Joaquim Francisco de Assis Brasil, que era um importante líder político e figura proeminente no movimento tenentista.[11]

A Revolução de 1923 foi marcada por uma série de confrontos armados e batalhas em todo o estado, envolvendo as forças rebeldes e as tropas do governo. As forças rebeldes conseguiram tomar o controle de várias cidades e regiões do Rio Grande do Sul, desafiando o domínio das forças do governo central.[11]

A Revolução de 1923 chegou ao fim com a derrota das forças rebeldes e a restauração do controle do governo central sobre o Rio Grande do Sul. Vários líderes da revolta foram presos, e muitos outros foram exilados ou forçados a fugir do país. Embora a revolta tenha sido sufocada, suas consequências políticas foram significativas. Ela contribuiu para a erosão do poder político de Borges de Medeiros e do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), abrindo caminho para mudanças políticas e sociais no estado e no país.[11]

Ver também

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Referências

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  1. A grafia ''Chimango'' é usual, mormente em obras mais antigas. Em vez disto, sendo um termo de origem indígena, grafa-se com ''x''.
  2. Joaquim Silva; J. B. Damasco Penna (1967). História do Brasil. [S.l.]: Cia. Editora Nacional, São Paulo. 234 páginas 
  3. Arruda, José Jobson de A.; Piletti, Nelson TODA A HISTÓRIA: História Geral e História do Brasil 5ª edição 1996, ISBN 8508052022
  4. a b c d Picollo, Helga. A política rio-grandense no II Império (1868-1882). Porto Alegre: UFRGS, 1974.
  5. a b c Gutfreind, Ieda. Historiografia Rio-Grandense. Porto Alegre: UFRGS, 1992.
  6. a b c d Ferreira Filho, Arthur. História Geral do Rio Grande do Sul: 1503-1974. Porto Alegre: Globo, 1974.
  7. a b c d e URBIM, Carlos. Rio Grande do Sul, um século de História. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999.
  8. a b MOCELLIN, Renato. Federalista: a revolução da degola. São Paulo: Do Brasil S/A, 1989.
  9. VILLA-LOBOS, Raúl. A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul: documentos e comentários. Rio de Janeiro: Laemmert, 1897.
  10. a b VILLA-LOBOS, Raúl. A Revolução Federalista no Rio Grande do Sul: documentos e comentários. Rio de Janeiro: Laemmert, 1897.
  11. a b c d FLORES, Moacyr. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1996; PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982
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