Yuri (gênero)

gênero de mangá
(Redirecionado de Yuri (mangá))

Yuri (百合? lit. "lírio") também conhecido pelo wasei-eigo Girls' Love (ガールズラブ gāruzu rabu?) é um gênero de mídias japonesas focado em relações íntimas entre personagens femininas. Por mais que o lesbianismo é geralmente associado ao tema, o gênero também inclui obras retratando relações emocionais e espirituais entre mulheres que não são necessariamente de natureza romântica ou sexual. Yuri é comumente associado com anime e mangá, porém o termo também é usado para descrever jogos eletrônicos, light novels e literatura em geral.

Ilustração de duas garotas se abraçando.
Um exemplo de arte inspirada em yuri. Obras que retratam relações íntimas entre colegas de escola são comuns no gênero yuri

Temas associados com yuri originam da ficção lésbica japonesa do início do século XX, notavelmente os escritos de Nobuko Yoshiya e a literatura do gênero Classe S. Mangás retratando homoerotismo feminino começou a aparecer na década de 1970 em obras de artistas associados ao Grupo do Ano 24 [en], notavelmente Ryoko Yamagishi e Riyoko Ikeda. O gênero começou a ganhar popularidade iniciando nos anos de 1990; a fundação de Yuri Shimai em 2003 como a primeira revista de mangá voltada justamente a yuri, seguido pela sua sucessora Comic Yuri Hime em 2005, levou ao estabelecimento de yuri como um gênero editorial discreto e à criação de uma cultura de fãs de yuri.

Como um gênero, yuri não tem inerentemente um público alvo em específico, diferente de suas contrapartes homoeróticas masculinas yaoi (voltado ao público feminino) e mangá gay (voltado ao público masculino). Por mais que yuri tenha se originado como um gênero visando o público feminino, obras de yuri tem sido produzidas tendo em vista o público masculino, como na revista irmã da Comic Yuri Hime direcionado ao público masculino, Comic Yuri Hime S.

Terminologia e etimologia

editar
 
Um lírio-japonês, o símbolo do gênero yuri

A palavra yuri (百合?) traduz para literalmente "lírio" e é um nome japonês relativamente comum.[1] Lírios-japoneses são usados desde o romantismo da literatura japonesa para simbolizar beleza e pureza feminina, e são na prática um símbolo do gênero yuri.[2]

Em 1976, Ito Bungaku, editor de uma revista de homens gays Barazoku (薔薇族? lit. "Tribo da Rosa"), utilizou o termo yurizoku (百合族? lit. "tribo do lírio") em referência às leitoras da revista numa coluna de cartas intituladas Yurizoku no Heya (百合族の部屋? lit. "Sala da Tribo do Lírio").[3][4] Apesar de nem todas as mulheres cujas cartas apareceram nesta coluna fossem lésbicas, e não esteja claro se a coluna foi a primeira instância do termo yuri nesse contexto, uma associação de yuri com lesbianismo se desenvolveu posteriormente.[5] Por exemplo, revista de romance entre homens Allan começou a publicar o Yuri Tsūshin (百合通信? lit. "Comunicação do Lírio") em julho de 1983 como um coluna de anúncios pessoais para lésbicas se comunicarem.[6]

O termo passou a ser associado a mangás pornográficos lésbicos a partir da década de 1990, especialmente através da revista de mangá Lady's Comic Misuto (1996–1999), que apresentava fortemente flores de lírio como símbolo.[6] Quando o termo yuri começou a ser usado no Ocidente na década de 1990, foi usado quase exclusivamente para descrever mangás pornográficos voltados para leitores masculinos que apresentavam casais lésbicos.[4] Com o tempo, o termo se desvinculou dessa conotação pornográfica para descrever a representação de amor íntimo, sexo ou conexões emocionais entre mulheres,[7] e passou a ser amplamente reconhecido como um nome de gênero para obras que retratam intimidade entre mulheres a partir de meados dos anos 2000, após a fundação das revistas de mangá yuri especializadas Yuri Shimai e Comic Yuri hime.[6] O uso ocidental de yuri posteriormente se ampliou a partir dos anos 2000, adotando conotações do uso japonês.[7]

Na Coreia e na China, "lírio" é usado como um empréstimo semântico do uso japonês para descrever mídias de romance entre personagens femininas, onde cada um dos países utiliza uma tradução direta do termo — baekhap (백합) na Coréia e bǎihé (百合) na China.[8]

Girls' love

editar

O wasei-eigo "girls' love" (ガールズラブ gāruzu rabu?) e sua abreviação "GL" foram adotados pelas editoras japonesas na década de 2000, provavelmente como um antônimo do gênero de romance entre homens boys' love (BL).[4][9] Enquanto o termo e geralmente considerado sinônimo de yuri, em raros casos é usado para denotar mídias que são sexualmente explícitas, seguindo a publicação de antologia de mangá erótico yuri Girls Love pela Ichijinsha em 2011. Porém, esta distinção é infrequentemente feita, e yuri e girls' love são quase que sempre usadas intercambiavelmente.[10]

Shōjo-ai

editar

Nos anos de 1990, fãs ocidentais começaram a utilizar o termo shōjo-ai (少女愛? lit. "amor de menina") para descrever obras de yuri que não tinham sexo explicito. seu uso foi modelado após a apropriação ocidental do termo shōnen-ai (少年愛? lit. "boy love") para descrever obas de yaoi sem conteúdo sexualmente explícito.[4] No japão, o termo Shōjo-ai não é utilizado com este sentido,[4] em vez disso, denota relacionamentos pedófilos entre homens adultos e meninas.[11][12]

História

editar

Antes de 1970: literatura da Classe S

editar
 
A escritora Nobuko Yoshiya, que trabalhou em obras do gênero Classe S que significativamente influenciou yuri

Entre os primeiros autores japoneses a produzir obras sobre amor entre mulheres estava Nobuko Yoshiya,[13] uma romancista ativa nos períodos Taishō e Shōwa.[14] Yoshiya foi uma pioneira na literatura lésbica japonesa, incluindo o início do gênero Classe S no início do século XX.[15] Suas obras popularizaram diversas das ideias e tropos que levaram gênero yuri nos anos seguintes.[16] As histórias da Classe S retratavam relações lésbicas como emocionalmente intensos mas platônicos, sendo restritos até a graduação na escola, casamento, ou à morte.[14] As raizes deste gênero é, em partes, a crença da época de que o amor entre pessoas do mesmo sexo era algo temporário e normal do desenvolvimento feminino, que posteriormente seria substituído pela heterossexualidade e à maternidade.[17] A Classe S se desenvolveu na década de 1930 por meio de revistas femininas japonesas, mas declinou como resultado da censura estatal trazida pela Segunda Guerra Sino-Japonesa em 1937.[18] Apesa de ressurgir como uma temática de mangás shōjo comum devido a homossocialidade entre garotas após a guerra, a Classe S gradualmente declinou em popularidade em favor de obras focadas em romances entre homens e mulheres.[19]

Tradicionalmente, as histórias da Classe S se concentram em fortes laços emocionais entre veterana e caloura,[15] ou, mais raramente, entre uma aluna e sua professora.[20] As escolas particulares só para meninas são um cenário comum para as histórias da Classe S, que são retratadas como um mundo homossexual idílico reservado às mulheres. As obras do gênero se concentram muito na beleza e na inocência de suas protagonistas, um tema que se repetiria no yuri.[21] Os críticos têm considerado alternadamente a Classe S como um gênero distinto do yuri,[22] como um "proto-yuri",[23] e um componente do yuri.[22]

Conceitos e temas

editar

Intimidade entre mulheres

editar

Yuri como gênero retrata relacionamentos íntimos entre mulheres, um escopo que é amplamente definido para incluir amor romântico, amizades intensas, amor espiritual e rivalidade.[24] Embora o lesbianismo seja um tema comumente associado ao yuri, nem todas as personagens na mídia yuri são necessariamente não-heterossexuais; Welker afirma que a questão de se os personagens yuri são lésbicas é uma "questão muito complicada".[25] Personagens em obras yuri frequentemente não definem sua orientação sexual em termos explícitos, e a questão é deixada para a interpretação do leitor.[26]

Rica Takashima observa que fãs ocidentais e japoneses frequentemente têm expectativas diferentes em relação ao nível de intimidade retratado no yuri, o que ela atribui às diferenças culturais entre os grupos.[27] Ela observa que obras de yuri que gozam de popularidade internacional tendem a ser explícitas e focadas em "garotas fofas se beijando", enquanto os fãs japoneses "têm uma propensão para ler entre as linhas, captar sugestões sutis e usar suas próprias imaginações para tecer ricos tapetes de significado a partir de pequenos fios".[27]

Falta de exclusividade de gênero e demográfica

editar

Embora yuri tenha sido historica e tematicamente ligado ao mangá shōjo desde o seu surgimento na década de 1970, obras de yuri são publicadas em todos os grupos demográficos para mangá — não apenas shōjo (meninas), mas também josei (mulheres adultas), shōnen (meninos) e seinen (homens adultos). As obras de yuri shōjo tendem a focar em narrativas fantasiosas e inspiradas em contos de fadas que idolatram personagens "príncipes garotas" inspirados no Takarazuka Revue, enquanto obras de yuri para o público josei tendem a retratar casais de mulheres com um grau maior de realismo. Mangás shōnen e seinen, por outro lado, tendem a usar o yuri para retratar relacionamentos entre "garotas inocentes da escola" e "lésbicas predatórias". Revistas de mangá dedicadas exclusivamente ao yuri tendem a não se restringir a um público demográfico específico, e assim são inclusivas de conteúdo que varia de romances escolares a conteúdo explicitamente sexual.[28]

Frequêntemente, obras que são percebidas e categorizadas como yuri no Japão não são consideradas como tal pelo público internacional. Por exemplo, enquanto no Ocidente Sailor Moon é considerado uma série de mahō shōjo com alguns elementos yuri, no Japão a série é considerada por revistas yuri como uma "obra monumental" do gênero.[29] O exemplo de Sailor Moon ilustra ainda mais como os fãs, em vez de editores ou criadores, frequentemente determinam se uma obra é yuri; Sailor Moon não foi concebida como um mangá ou anime yuri, mas "se tornou yuri"[30] com base na interpretação e consumo da obra pelos fãs de yuri.[31][28]

Conteúdo sexual nominal

editar

Obras de yuri geralmente não retratam cenas de sexo explícito. Ao contrário do yaoi, onde representações explícitas de atos sexuais são comuns e as histórias culminam geralmente com o casal central se envolvendo sexo anal, os atos sexuais em yuri raramente são mais explícitos do que beijos e carícias nos seios.[32] Kazumi Nagaike da Universidade de Oita argumenta que essa evitação geral de sexo "não significa que o desejo sexual feminino seja apagado" em yuri, mas sim que a ausência de sexo "claramente deriva da importância atribuída ao vínculo espiritual entre mulheres".[32]

A garota séria e a ingênua

editar

A maioria das histórias de yuri publicadas nas décadas de 1970 e 1980 eram tragédias, focadas em relacionamentos condenados que terminavam em separação ou morte.[33] Yukari Fujimoto, uma estudiosa de mangá da Universidade de Meiji, observa que o enredo trágico de Shiroi Heya no Futari se tornou um arquétipo comum de história de yuri. Essas histórias retratam uma personagem fisicamente menor, com cabelos mais claros e uma personalidade ingênua, que admira uma garota que é geralmente mais alta, com cabelos escuros longos e uma postura séria.[33] As personagens se unem por uma infelicidade comum, geralmente originada de suas respectivas vidas domésticas.[34] O seu vínculo se torna objeto de rumores ou até mesmo chantagem, mesmo quando elas reconhecem que seu relacionamento se tornou romântico. A história termina com a personagem séria morrendo para proteger a ingênua de um escândalo.[33] Enquanto as fórmulas de histórias trágicas em yuri declinaram em popularidade na década de 1990, estes arquétipos continuam a influenciar histórias de yuri contemporâneas, especialmente aquelas que retratam relacionamentos de senpai e kōhai, como Bloom Into You.[34]

Tachi e neko

editar

Na cultura lésbica japonesa, os participantes de um relacionamento lésbico são ocasionalmente referidos como tachi (タチ? derivado de tachiyaku, o papel masculino no kabuki), que designa o participante ativo, e neko (ネコ? lit. "gato"), que designa o participante passivo.[35] Essa distinção é comparável à distinção de seme e uke no yaoi, ou à distinção de butch e femme na cultura lésbica mais ampla.[36] Personagens no yuri contemporâneo raramente se conformam a essas dicotomias,[32] embora a dinâmica de um parceiro ativo e um passivo que a distinção de tachi e neko representa recorra no gênero.[36]

Mídia

editar

Em meados da década de 1990 até o início de 2000, algumas revistas japonesas de estilo de vida lésbicas, introduzindo as revistas agora extintas Anise (1996–97, 2001–03) e Phryné (1995).[37] Carmilla, uma publicação erótica lésbica,[37] lançou uma antologia de mangás lésbicos chamada Girl's Only.[38] Adicionalmente, Mist (1996–99), uma revista de mangá josei, continha mangás contendo temas lésbicos sexualmente explicitos como parte de uma parte da seção dedicada para interessados em tópicos lésbicos.[37]

A primeira publicação comercializada exclusivamente como yuri foi a revista de antologia de mangá da Sun Yuri Shimai, que foi lançada entre junho de 2003 e novembro de 2004 trimestralmente, terminando com apenas cinco edições.[39] Após a descontinuação da revista, Comic Yuri Hime foi lançada pela Ichijinsha em julho de 2005 como uma revitalização da revista,[40] contendo vários mangás de autores que já tinham obras serializadas na Yuri Shimai.[41] Assim como seu antecessor, a Comic Yuri Hime também era publicada trimestralmente, porém começou a ser lançada bimestralmente em janeiro de 2011 a dezembro de 2016, quando se tornou mensal.[41][42][43] Uma revista irmã da Comic Yuri Hime, chamada Comic Yuri Hime S, foi lançada em junho de 2007 como uma publicação trimestral pela Ichijinsha.[44] Diferente da Yuri Shimai e da Comic Yuri Hime, Comic Yuri Hime S era voltada ao público masculino.[45] No entanto, em 2010, ela foi fundida com a Comic Yuri Hime.[46] A Ichijinsha começou a publicar em julho de 2008 adaptações de light novel das obras da Comic Yuri Hime e romances yuri originais sob sua linha de light novel shōjo Ichijinsha Bunko Iris.[47]

Uma vez que a Comic Yuri Hime estabeleceu o mercado, diversas outras antologias de yuri foram lançadas, como Yuri Koi Girls Love Story, Mabae,[48] Yuri Drill,[49] Yuri + Kanojo,[50] e Eclair.[51] A Houbunsha e a Shinshokan também publicaram as suas próprias revistas yuri, respectivamente Tsubomi e Hirari, com a Tsubomi sendo publicada de fevereiro de 2009 a dezembro de 2012, totalizando 21 edições,[52][53] e Hirari de abril de 2010 a julho de 2014, totalizando 14 edições.[54][55] Após uma campanha de financiamento bem sucedida, a revista independente de antologia yuri Galette foi lançada em 2017.[56][57]

Análises

editar

Demografia

editar

Por mais que yuri se originou com obras para o público alvo feminino (shōjo, josei), o gênero evoluiu com o tempo para também ter a audiência masculina como público alvo. Diversos estudos foram feitos para examinar a demografia da subcultura yuri.[58]

Estudos das editoras

editar

A primeira revista a estudar a demografia dos seus leitores foi a Yuri Shimai (2003–2004), que estimou que a proporção de mulheres era de quase 70%, e que a maioria delas eram adolescentes ou mulheres na casa dos 30 anos que já possuíam interesses em mangás shōjo e yaoi.[59] Em 2008, a Ichijinsha fez um estudo demográfico para as suas duas revistas, Comic Yuri Hime e Comic Yuri Hime S, sendo a primeira direcionada ao público feminino e a segunda ao masculino. O estudo revelou que as mulheres correspondiam a 73% dos leitores da Comic Yuri Hime, enquanto na Comic Yuri Hime S, os homens contabilizavam 62%. No entanto, a revista observou que os leitores da segunda revista também tendiam a ler a primeira, o que resultou na sua fusão em 2010.[46] A respeito da idade das leitoras mulheres de Comic Yuri Hime, 27% eram menores de 20 anos, 27% estavam entre 20 e 24 anos, 23% entre 25 e 29 anos, e 23% tinham mais de 30 anos.[59] Em 2017, a razão entre homens e mulheres era dito ter alterado para 3:2, em partes devido à fusão de Comic Yuri Hime S e ao público predominantemente masculino que YuruYuri trouxe consigo.[60]

Estudos acadêmicos

editar

Verena Maser conduziu um estudo sobre a demografia do fandom japonês de yuri entre setembro e outubro de 2011. Este estudo, primariamente orientado à comunidade de Yuri Komyu! e a rede social Mixi, recebeu um total de 1 352 respostas válidas. O estudo encontrou que 52,4% dos entrevistados eram mulheres, 46,1% homens e 1,6% não se identificava com nenhum dos gêneros.[61] A sexualidade dos participantes também foi pedida, separadas em duas categorias: heterossexual" e "não heterossexual". Os resultados foram que 39,5% eram homens heterossexuais, 30% eram mulheres não heterossexuais, 15,2% eram mulheres heterossexuais, 4,7% eram homens não heterossexuais, e 1,2% se identificaram como "outros".[61] Quanto à idade, 69% dos entrevistados tinham entre 16 e 25 anos. O estudo de Maser reforçou a noção de que o fandom de yuri está dividido igualmente entre homens e mulheres, além de destacar as diferentes sexualidades dentro dele.[62]

Relação com o lesbianismo

editar

Relação semântica

editar

A relação entre yuri e lesbianismo é tênue no japão. Apesar de yuri ter sido fortemente associado ao lesbianismo no Japão entre as décadas de 1970 e 1980, a correlação entre os termos foi se enfraquecendo com o tempo.[63] Embora fãs, jornalistas e editoras japonesas reconheçam que yuri e lesbianismo compartilham características em comum, eles podem especificamente segregar os termos como conceitos, como o editor da Comic Yuri Hime Seitarō Nakamura afirmando que "de forma geral, [yuri] não [é sobre] lésbicas [rezubian] com uma relação carnal."[63] Revistas lésbicas e queer japonesas da década de 1990 muitas vezes se opôs à fusão de yuri com lesbianismo, provavelmente devido à sua conotação anterior com pornografia para o público masculino.[63]

Erin Subramian da Yuricon explica que a maioria dos japoneses vê o termo "lésbica" como descrevendo "pessoas anormais na pornografia ou pessoas estranhas dos outros países".[64] Maser concorda que yuri é um gênero focado primariamente nos ideais da beleza, pureza, inocência e espiritualidade, antes da identidade sexual; o foco é posicionado na "conexão entre corações" em vez de "conexão entre corpos".[65] Nagaike nota em sua análise de cartas publicadas na Comic Yuri Hime que muitas leitoras da revista se identificavam como heterossexuais; ela argumenta, portanto, que yuri está mais alinhado com a homossocialidade do que com a homossexualidade, embora os dois conceitos não sejam mutuamente exclusivos.[66] Maser analisa fontes contraditórias e conclui que a "linha entre yuri e 'lésbica'/'homossexualidade' é [...] tênue". Ela observa que em suas fontes, "o termo rezubian [lésbica] é usado em muitos casos, mas que raramente fica claro a que exatamente se refere".[67]

Relação sociopolítica

editar

Nagaike argumenta que yuri é um subproduto da shōjo kyōdōtai (少女 共同体? lit. "comunidade de garotas"), que foram formadas nas escolas femininas antes da guerra no Japão. Isoladas da influência patriarcal, as garotas adolescentes criaram uma "cultura shōjo" que utilizam a literatura da Classe S para disseminar e compartilhar códigos culturais homossociais. Embora essa cultura tenha sido importante para informar as atitudes das garotas sobre feminilidade e independência, ela foi efêmera; ao deixar o ambiente escolar de sexo único, elas ficaram sujeitas às expectativas patriarcais de casamento e família.[68]

Como a educação mista se tornou mais comum no período pós-guerra e a literatura da Classe S diminuiu como meio de disseminar os laços homossociais, o cross-dressing e o yaoi surgiram como os principais modos na literatura para as mulheres criticarem e resistirem ao patriarcado.[69][70] O surgimento do yuri permitiu um retorno à homossocialidade no estilo da Classe S, da qual a homossexualidade é um componente.[71] Deste modo, Nagaike afirma que yuri não está consoante a visão política do lesbianismo adotada por filósofas como Monique Wittig, que vê o lesbianismo como uma derrubada da "interpretação política e sociológica da identidade feminina"; em vez disso, o yuri está mais próximo da visão de Adrienne Rich de um "continuum lésbico" que visa derrubar a heterossexualidade compulsória.[69]

Ver também

editar
 Ver também a categoria: Yuri

Referências

  1. Charlton, Sabdha. «Yuri Fandom on the Internet». Yuricon (em inglês). Consultado em 12 de janeiro de 2008. Cópia arquivada em 22 de setembro de 2017 
  2. Maser 2013, pp. 3–4.
  3. «Yurizoku no Heya». Barazoku (em japonês): 66–70. Novembro de 1976 
  4. a b c d e «What Is Yuri?» (em inglês). Yuricon. 28 de março de 2011. Consultado em 11 de janeiro de 2021. Cópia arquivada em 11 de novembro de 2020 
  5. Welker, James (2008). «Lilies of the Margin: Beautiful Boys and Queer Female Identities in Japan». In: Fran Martin; Peter Jackson; Audrey Yue. AsiaPacifQueer: Rethinking Genders and Sexualities (em inglês). Champaign, Illinois, EUA: University of Illinois Press. pp. 46–66. ISBN 978-0-252-07507-0 
  6. a b c Maser 2013, p. 16.
  7. a b Aoki, Deb (11 de março de 2008). «Interview: Erica Friedman». About.com (em inglês). Consultado em 11 de janeiro de 2021 
  8. 這畫面太美我不敢看!女女戀不是禁忌,日本「百合展」呈現女孩間的真實愛戀! [Esta tela é tão bonita que não consigo olhar! O amor entre mulheres não é tabu, a "Yuri-ten" no Japão mostra o amor verdadeiro entre garotas!] (em japonês). 8 de abril de 2019 
  9. Maser 2013, p. 17.
  10. Maser 2013, p. 16–17.
  11. Miyajima, Kagami (4 de abril de 2005). Shōjo-ai (em japonês). [S.l.]: Sakuhinsha. ISBN 4-86182-031-6 
  12. Maser 2013, p. 18.
  13. Tsuchiya, Hiromi (9–12 de março de 2000). «Yoshiya Nobuko's Yaneura no nishojo (Two Virgins in the Attic): Female-Female Desire and Feminism». Homosexual/Homosocial Subtexts in Early 20th-Century Japanese Culture (em inglês). San Diego, CA: Abstracts of the 2000 AAS Annual Meeting. Consultado em 24 de fevereiro de 2008. Arquivado do original em 21 de fevereiro de 2001 
  14. a b Suzuki, Michiko (agosto de 2006). «Writing Same-Sex Love: Sexology and Literary Representation in Yoshiya Nobuko's Early Fiction». The Journal of Asian Studies (em inglês). 65 (3): 575. doi:10.1017/S0021911806001148 
  15. a b Robertson, Jennifer (agosto de 1992). «The Politics of Androgyny in Japan: Sexuality and Subversion in the Theater and Beyond» (PDF) 3 ed. American Ethnologist (em inglês). 19 (3): 427. JSTOR 645194. doi:10.1525/ae.1992.19.3.02a00010. hdl:2027.42/136411 . Consultado em 2 de setembro de 2019 
  16. Valens, Ana (6 de outubro de 2016). «Rethinking Yuri: How Lesbian Mangaka Return the Genre to Its Roots». The Mary Sue. Consultado em 28 de março de 2020. Arquivado do original em 7 de novembro de 2019 
  17. Dollase, Hiromi (2003). «Early Twentieth Century Japanese Girls' Magazine Stories: Examining Shōjo Voice in Hanamonogatari (Flower Tales)». The Journal of Popular Culture (em inglês). 36 (4): 724–755. ISSN 0022-3840. OCLC 1754751. doi:10.1111/1540-5931.00043 
  18. Shamoon 2008, p. 56.
  19. Maser 2013, p. 46.
  20. Maser 2013, p. 35.
  21. Maser 2013, p. 32, 36.
  22. a b Maser 2013, p. 36.
  23. Friedman, Erica (2 de março de 2014). «Proto-Yuri Novel: Otome no Minato (乙女の港) – Part 1, Introduction and Synopsis». Okazu (em inglês). Consultado em 11 de janeiro de 2021. Cópia arquivada em 10 de novembro de 2020 
  24. Maser 2013, pp. 2-3.
  25. Welker 2014, p. 154.
  26. Maser 2013, p. 67.
  27. a b Takashima 2014, p. 117–121.
  28. a b Friedman, Erica (27 de novembro de 2014). Traduzido por Shiina, Yukari. «Yuri: A Genre Without Borders». Seidosha. Eureka (em inglês) (Current State of Yuri Culture): 143–147. Consultado em 19 de janeiro de 2021. Cópia arquivada em 15 de janeiro de 2021 
  29. Maser 2013, p. 38.
  30. Maser 2013, pp. 73–75.
  31. Maser 2013, pp. 2–3.
  32. a b c Nagaike 2010.
  33. a b c Welker, James (2006). «Drawing Out Lesbians: Blurred Representations of Lesbian Desire in Shōjo Manga». Lesbian Voices: Canada and the World: Theory, Literature, Cinema (em inglês). [S.l.]: Allied Publishers. pp. 156–184. ISBN 81-8424-075-9 
  34. a b Bauman, Nicki (23 de setembro de 2020). «How Bloom Into You Defies and Reinforces Yuri Tropes». Anime News Network (em inglês). Consultado em 3 de janeiro de 2022 
  35. Chalmers, Sharon (12 de agosto de 2014). Emerging Lesbian Voices from Japan (em inglês). [S.l.]: Routledge. pp. 27–29. ISBN 978-0-7007-1702-6 
  36. a b Wellington, Sarah Thea Arruda (2015). Finding the power of the erotic in Japanese yuri manga (Tese) (em inglês). Library and Archives Canada. pp. 41–42 
  37. a b c Welker, James; Suganuma, Katsuhiko (janeiro de 2006). «Celebrating Lesbian Sexuality: An Interview with Inoue Meimy, Editor of Japanese Lesbian Erotic Lifestyle Magazine Carmilla». Intersections: Gender, History and Culture in the Asian Context (em inglês) (12). Consultado em 1 de janeiro de 2008. Cópia arquivada em 24 de abril de 2008 
  38. まんがカーミラ GIRL'S ONLY Comic [Mangá Carmilla Girl's Only] (em japonês). [S.l.: s.n.] 20 de outubro de 2007. ASIN 4780801079 
  39. «Yuri Shimai» (em inglês). ComiPedia. Consultado em 19 de janeiro de 2008. Cópia arquivada em 22 de julho de 2011 
  40. 女性同士のLOVEを描いた、男子禁制の“百合ブーム”がやってくる!? [Será que está chegando um "Boom Yuri" de desenhos representando amor entre mulheres proibido para os garotos?!] (em japonês). Cyzo. 29 de fevereiro de 2008. Consultado em 21 de março de 2008. Cópia arquivada em 14 de maio de 2012 
  41. a b «Comic Yuri Hime» (em inglês). ComiPedia. Consultado em 4 de abril de 2015. Cópia arquivada em 23 de janeiro de 2008 
  42. 中村成太郎 [@r_yurihime] (20 de agosto de 2015). それらの結果を受けて、このたび「コミック百合姫」を月刊刊行する決意を固めました。 (Tweet) (em japonês). Consultado em 10 de maio de 2024. Cópia arquivada em 20 de agosto de 2015 – via Twitter 
  43. «コミック百合姫2017年2月号» (em japonês). Amazon. Consultado em 21 de novembro de 2016. Cópia arquivada em 20 de junho de 2020 
  44. «Comic Yuri Hime S» (em inglês). ComiPedia. Consultado em 4 de abril de 2015. Cópia arquivada em 27 de março de 2008 
  45. «Ichijinsha's info about Comic Yuri Hime S» (em japonês). Ichijinsha. Consultado em 3 de janeiro de 2008. Cópia arquivada em 29 de abril de 2012 
  46. a b «Comic Bunch, Comic Yuri Hime S Mags to End Publication». Anime News Network (em inglês). 18 de junho de 2010. Consultado em 8 de novembro de 2010. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2010 
  47. «Ichijinsha Bunko Iris» (em japonês). Ichijinsha. Consultado em 26 de fevereiro de 2008. Cópia arquivada em 23 de junho de 2008 
  48. Friedman, Erica. «Yuri Manga: Mebae, Volume 1». Okazu (em inglês). Consultado em 3 de março de 2019. Cópia arquivada em 2 de março de 2019 
  49. Friedman, Erica. «Yuri Manga: Yuri Drill Anthology». Okazu (em inglês). Consultado em 3 de março de 2019. Cópia arquivada em 6 de março de 2019 
  50. Friedman, Erica. «Yuri Anthology: Yuri + Kanojo». Okazu (em inglês). Consultado em 3 de março de 2019. Cópia arquivada em 6 de março de 2019 
  51. Friedman, Erica. «Yuri Manga: Éclair Bleue: Anata ni Hibiku Yuri Anthology». Okazu (em inglês). Consultado em 3 de março de 2019. Cópia arquivada em 6 de março de 2019 
  52. «Tsubomi Yuri Manga Magazine Ends Publication». Anime News Network (em inglês). 14 de dezembro de 2012. Consultado em 11 de abril de 2015. Cópia arquivada em 24 de setembro de 2015 
  53. «Houbunsha to Launch Tsubomi Yuri Manga Anthology». Anime News Network (em inglês). 5 de janeiro de 2009. Consultado em 11 de abril de 2015. Cópia arquivada em 24 de setembro de 2015 
  54. «Shinshokan's Yuri Manga Magazine Hirari Ends Publication». Anime News Network (em inglês). 30 de julho de 2014. Consultado em 16 de julho de 2023 
  55. «Hirari, 2014 SPRING Vol. 13» (em japonês). Shinshokan. Consultado em 3 de março de 2019. Cópia arquivada em 29 de novembro de 2018 
  56. «Site oficial» (em japonês). Galette Works. Consultado em 3 de março de 2019. Cópia arquivada em 5 de março de 2019 
  57. ガレット創刊号 (em japonês). [S.l.]: Amazon.co.jp. 19 de fevereiro de 2017. ISBN 978-4-909068-01-9. Consultado em 28 de fevereiro de 2019. Cópia arquivada em 20 de junho de 2020 
  58. Bauman, Nicki (12 de fevereiro de 2020). «Yuri is for Everyone: An analysis of yuri demographics and readership». Anime Feminist (em inglês). Consultado em 9 de maio de 2020. Cópia arquivada em 6 de maio de 2020. In reality, yuri has no homologous audience, and is not made primarily by or for men, women, straight people, queer people, or any other demographic. Throughout its 100-year history, the genre has uniquely evolved in and moved about multiple markets, often existing in many simultaneously. It is by and for a variety of people: men, women, heterosexuals, queer people, everyone! 
  59. a b Maser, Verena (31 de agosto de 2015). Beautiful and Innocent: Female Same-Sex Intimacy in the Japanese Yuri Genre (PhD) (em inglês). University of Trier. doi:10.25353/ubtr-xxxx-db7c-6ffc. Consultado em 4 de março de 2019. Cópia arquivada em 2 de novembro de 2018 
  60. «きっかけは『ゆるゆり』! ブレイクする「百合」の魅力を専門誌編集長に聞いてみた。» (em japonês). Kadokawa Corporation. 6 de dezembro de 2017. Consultado em 4 de março de 2019. Cópia arquivada em 6 de março de 2019 
  61. a b Maser 2013, pp. 143.
  62. Maser 2013, pp. 144.
  63. a b c Maser 2013, pp. 20.
  64. Subramain, Erin (28 de março de 2011). «Women-Loving Women in Modern Japan». Yuricon (em inglês). Consultado em 12 de junho de 2024. Cópia arquivada em 26 de janeiro de 2023 
  65. Maser 2013, pp. 23.
  66. Nagaike 2010, cap. 2.
  67. Maser 2013, pp. 21.
  68. Nagaike 2010, cap. 3.
  69. a b Nagaike 2010, cap. 5.
  70. Monden, Masafumi (março de 2015). «Shōjo Manga Research: The Legacy of Women Critics and Their Gender-Based Approach». Manga Studies (em inglês) 
  71. Nagaike 2010, cap. 4.

Bibliografia

editar