Zud

termo mongol para um inverno rigoroso em que muitos animais morrem

O zud ou dzud (mongol: зуд) é um termo mongol para um inverno rigoroso em que um grande número de animais morre, principalmente devido à inanição por não poder pastar, em outros casos diretamente por causa do frio. Existem vários tipos de zud, incluindo o zud branco, que é um inverno extremamente nevado em que o gado não consegue encontrar alimento nutritivo sob a neve e morre de fome.

Cabras que morreram como resultado de um zud "preto". Deserto de Gobi, março de 2010.

Um terço da população da Mongólia depende inteiramente da agricultura pastoral para sua subsistência, e as zuds intensos podem causar crises econômicas e problemas de segurança alimentar no país.[1] Este desastre natural ocorre unicamente na Mongólia.[2][3]

Descrição e mitigaçãoEditar

Existem diferentes tipos de zud:

  • Tsagaan zud (branco): resulta da alta queda de neve que impede que o gado alcance a grama.[4] É um desastre frequente e grave que causa um grande número de mortes.[5]
  • Khar zud (preto): resulta da falta de neve nas áreas de pastagem, levando os animais e os seres humanos a sofrerem com a falta de água. Esse tipo de zud não é tão frequente, nem afeta grandes áreas, ocorrendo principalmente na região do Deserto de Gobi.[4]
  • Tumer zud (ferro): resulta de um veranico no inverno, seguido por um retorno a temperaturas abaixo de zero. A neve derrete e depois congela novamente, criando uma cobertura de gelo impenetrável que impede o gado de pastar.[4]
  • Khuiten zud (frio): ocorre quando a temperatura cai bastante por vários dias. A temperatura fria e os ventos fortes impedem o gado de pastar; os animais precisam usar a maior parte de sua energia para se aquecerem.[4]
  • Khavsarsan zud (combinado): é uma combinação de pelo menos dois dos tipos acima de zud.[4]

Alguns métodos tradicionais para proteger o gado de tais condições climáticas adversas incluem secar e armazenar grama cortada durante os meses de verão, e recolher esterco de ovelha e cabra para construir blocos inflamáveis ​​secos chamados "khurjun" ou kizyak. A grama seca pode ser alimentada aos animais para evitar a morte por inanição. O "khurjun" é empilhado para criar uma parede que protege os animais do vento e mantê-los aquecidos o suficiente para aguentar as condições adversas. Esses blocos também podem ser queimados como combustível durante o inverno. Estes métodos ainda são praticados hoje nas partes mais ocidentais da Mongólia, e áreas anteriormente parte da nação Zungária.

Também por causa da estrutura semipermanente do abrigo de inverno para o gado e o frio, a maioria, se não todos os nômades, se envolvem em transumância (migração sazonal). Eles costumam passar o vale em vales protegidos por montanhas, enquanto no verão eles se movem para um espaço mais aberto.

Fatores humanosEditar

A influência humana piora a situação durante os invernos rigorosos. Sob o regime comunista, o Estado regulamentou o tamanho dos rebanhos para evitar o sobrepastoreio. Na década de 1990 houve uma desregulamentação da economia nacional, ao mesmo tempo em que houve um crescimento na demanda mundial por lã de caxemira, feita a partir de pelos de cabra. Como resultado, o rebanho de cabras na Mongólia cresceu acentuadamente. Ao contrário das ovelhas, as cabras tendem a danificar a grama mordiscando suas raízes; seus cascos afiados também danificam a camada superior do pasto, que é subsequentemente varrida pelo vento, levando à desertificação.[1]

Extensão e históriaEditar

Não é incomum que os zuds matem mais de 1 milhão de cabeças de gado em um inverno. O recorde de quase 7 milhões de cabeças de gado perdidas em 1944 foi superado no século XXI.[6] A oscilação ártica que ocorreu entre 1944-45 e novamente em 2010 entrou muito mais profundamente na Ásia Central, provocando um clima frio extremo e prolongado. Em 1999–2000, 2000–2001 e 2001–2002, a Mongólia foi atingida por três zuds consecutivos, nos quais um total de 11 milhões de animais morreram.[7]

No inverno de 2009-2010, 80% do território do país foi coberto com uma manta de neve de 200-600mm.[8] No aimag de Uvs, o frio extremo (temperatura noturna de -48 ºC) permaneceu por quase 50 dias.[9] 9.000 famílias perderam seus rebanhos inteiros, enquanto outras 33.000 perderam 50%.[10] O Ministério da Indústria Alimentar, Agrícola e Luminosa informou que 2.127.393 cabeças de gado foram perdidas em 9 de fevereiro de 2010 (188.270 equinos, bovinos, camelos e 1.939.123 cabras e ovelhas).[8] O Ministério da Agricultura previu que as perdas de gado poderiam chegar a 4 milhões antes do final do inverno.[11] Mas em maio de 2010, as Nações Unidas informaram que oito milhões, ou cerca de 17% da pecuária inteira do país, haviam morrido.[1]

No inverno de 2015–2016, temperaturas extremas foram novamente registradas e a seca do verão anterior levou a reservas insuficientes de forragem de feno para muitos pastores, o que está criando outra perda contínua de gado.[12]

Consequências sociaisEditar

Alguns pastores que perdem todos os seus animais precisam buscar uma nova vida nas cidades. A capital da Mongólia, Ulaanbaatar, é cercada por aglomerados de casas de madeira sem vias asfaltadas, água ou sistemas de esgoto. Sem a educação e habilidades para sobreviver em um ambiente urbano, muitos pastores deslocados não conseguem encontrar trabalho e acabam na extrema pobreza, alcoolismo e criminalidade. Outros arriscam suas vidas em trabalhos perigosos de mineração ilegal.[12]

ReferênciasEditar

  1. a b c Jacobs, Andrew (19 de maio de 2010). «Winter Leaves Mongolians a Harvest of Carcasses». The New York Times (em inglês) 
  2. «Mongolia: Harsh Winter Wiping Out Livestock, Stoking Economic Crisis for Nomads | Eurasianet». www.eurasianet.org (em inglês). Consultado em 15 de novembro de 2018 
  3. «The slow and deadly dzud in Mongolia». BBC News (em inglês). 14 de maio de 2016 
  4. a b c d e Leary, Neil; Conde, Cecilia; Kulkarni, Jyoti; Nyong, Anthony; Pulhin, Juan (2012). Climate Change and Vulnerability (em inglês). [S.l.]: Earthscan. ISBN 9781849770804 
  5. Suttie,J.M.; Reynolds, Stephen G.; Batello, Caterina (2005). Grasslands of the World. Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. p. 293.
  6. «BBC News | ASIA-PACIFIC | Mongolia faces calamity». news.bbc.co.uk. Consultado em 15 de novembro de 2018 
  7. Bank, Asian Development (11 de abril de 2016). «ADB Approves $2 Million for Herders Hit By Mongolian Climate Disaster». Asian Development Bank (em inglês) 
  8. a b «Harsh Mongolian winter kills 700,000 head of livestock». The Irish Times (em inglês) 
  9. «Үндэсний Мэдээллийн МОНЦАМЭ Агентлаг». 2 de outubro de 2011. Consultado em 15 de novembro de 2018 
  10. Branigan, Tania (20 de julho de 2010). «Mongolia: How the winter of 'white death' devastated nomads' way of life». the Guardian (em inglês). Consultado em 15 de novembro de 2018 
  11. «The UB Post | Mongolia's leading English language news». ubpost.mongolnews.mn (em inglês). Consultado em 15 de novembro de 2018 
  12. a b «Mongolia's dzud disaster». New Internationalist (em inglês). 10 de maio de 2016