Bumba meu boi do Maranhão

Apresentação do Boi de Axixá (sotaque de orquestra) em São Luís

A festa do Bumba-meu-boi é uma tradição que se mantém desde o século XVIII, que arrasta maranhenses e visitantes por todos os cantos de São Luís, nos meses de junho e julho.

O bumba-meu-boi é uma festa popular para crianças, adultos e idosos, onde os grupos se espalham desde as periferias até os arraiais do centro e dos shoppings da ilha. Na parte nova ou antiga da cidade, grupos de todo o estado se reúnem em diversos arraiais para brincar até a madrugada.

Em dezembro de 2019, o bumba-meu-boi do Maranhão foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. [1]

HistóriaEditar

 
"Miolo" do boi: integrante responsável pelo movimento do boi
 
Pandeirões sendo aquecidos

O enredo da festa do Bumba-meu-boi resgata uma história típica das relações sociais e econômicas da região durante o período colonial, marcadas pela monocultura, criação extensiva de gado e escravidão, mesclando a cultura europeia, africana e indígena.

Numa fazenda de gado, o escravo Pai Francisco mata um boi de estimação de seu senhor para satisfazer o desejo de sua esposa grávida, Mãe Catarina, que quer comer a língua do boi. Quando descobre o sumiço do animal, o senhor fica furioso e, após investigar entre seus escravos e índios, descobre o autor do crime e obriga Pai Francisco a trazer o boi de volta.

Coquitéis e curandeiros (pajés) são convocados para salvar o boi e, quando o boi ressuscita urrando, todos participam de uma enorme festa para comemorar o milagre.

O atual modelo de apresentação dos bois não narra mais toda a história do 'auto', que deu lugar à chamada 'meia-lua', de enredos simplificados.

Brincadeira democrática que incorpora quem passa pelo caminho, o Bumba-meu-boi já foi alvo de perseguições da polícia e das elites por ser uma festa mantida pela população negra da cidade, chegando a ser proibida entre 1861 e 1868.

Considerado a mais importante manifestação da cultura popular do estado, tem seu ciclo festivo dividido em quatro etapas: os ensaios, o batismo, as apresentações públicas ou brincadas, e a morte.[2]

O bumba-meu-boi envolve a devoção aos santos juninos São João, São Pedro e São Marçal, que mobilizam promessas e marcam algumas datas comemorativas.[2][3]

O Festejo de São Pedro e de São Marçal marca o fim das festividades juninas. Na festa de São Pedro, diversos grupos de boi vão à Capela de São Pedro para agradecer pela temporada junina e pedir bençãos. Na festa de São Marçal, há um grande encontro de batalhões de boi de matraca no bairro do João Paulo.

SotaquesEditar

Atualmente, existem quase cem grupos de bumba-meu-boi no Estado do Maranhão subdivididos em diversos sotaques. Cada sotaque tem características próprias que se manifestam nas roupas, na escolha dos instrumentos, no tipo de cadência da música e nas coreografias.

Sotaque de matraca - é o mais popular e com maior numero de grupos no Estado, tendo surgido em São Luís e tem influência indígena. O instrumento que dá nome ao sotaque é composto por dois pequenos pedaços de madeira, o que motiva os fãs de cada boi a engrossarem a massa sonora de cada "Batalhão". Além das matracas, são usados pandeirões e tambores-onça (uma espécie de cuíca com som mais grave). Na frente do grupo, fica o cordão de rajados, cablocos de fitas, índias, vaqueiros e caboclos de pena. Os principais grupos de boi de matraca são: Boi de Maracanã, Boi da Maioba e Boi da Pindoba.

Sotaque de Zabumba - Ritmo original do Bumba-meu-boi, este sotaque marca a forte presença africana na festa, com cadência mais lenta. Originário do município de Guimarães e região. Pandeirinhos, maracás e tantãs, além das zabumbas (grandes tambores), dão ritmo para os brincantes. Os principais grupos são: Boi de Leonardo, Boi de Vila Passos, Boi da Fé em Deus, Boi Unidos Venceremos e Boi de Guimarães.

No vestuário destacam-se golas e saiotas de veludo preto bordado e chapéus com fitas coloridas. O sotaque de zabumba passa por grande crise nos últimos anos, devido à falta de novos brincantes interessados em manter as tradições do mais antigo estilo de boi.

Sotaque de Orquestra - Ao incorporar outras influências musicais, o Bumba-meu-boi ganha neste sotaque o acompanhamento de diversos instrumentos de sopro e cordas, como o saxofone, clarinete e banjo. Peitilhos (coletes) e saiotes de veludo com miçangas e canutilhos são alguns dos detalhes nas roupas do brincantes. É um sotaque que se originou na região do Rio Munim, e os grupos que se destacam no estado são os: Boi de Nina Rodrigues, Boi de Axixá, Boi de Morros, Boi de Rosário, Boi Brilho da Ilha e Boi Novilho Branco, Boi Mocidade Axixaense e finalmente o Boi do Una, originário da cidade de Morros, cujo sotaque e originalidade das toadas e bailado dos vaqueiros, ainda são autênticos.

Sotaque da Baixada - Embalado por matracas e pandeiros pequenos, um dos destaques deste sotaque é o personagem Cazumbá, uma mistura de homem e bicho que, vestido com uma bata comprida, máscara de madeira e de chocalho na mão, diverte os brincantes e o público. Outros usam um chapéu de vaqueiro com penas de ema. Apresenta um toque mais lento e suave, embalado por matracas, tambores-onça e pandeiros pequenos. Seus principais grupos são: Boi da Floresta de Apolônio, Boi Oriente, Boi União da Baixada, Boi de Pindaré, Boi Unidos de Santa Fé e Boi Penalva do Bairro de Fátima.

Sotaque Costa de Mão - Típico da região de Cururupu, ganhou este nome devido a uns pequenos pandeiros tocados com as costas da mão. Sua origem estaria ligada à vida dos negros que eram castigados nas mãos pelos seus senhores, tocando os pandeiros com as costas das mãos por estas estarem feridas e não perdessem a festa de São João. Caixas, tambores-onça e maracás de metal completam o conjunto percussivo. Além de roupa em veludo bordado, os brincantes usam chapéus em forma de cogumelo, com fitas coloridas e grinaldas de flores. Os grupos mais conhecidos são: Rama Santa, Brilho da Sociedade, Soledade e Brilho da Areia Branca.[4]

PersonagensEditar

 
Índia do bumba-meu-boi

Dono da Fazenda - é o senhor da fazenda. Usa a roupa mais rica e um apito para coordenar a festa. É o responsável pela organização do Batalhão e, em alguns casos, é também o cantador.

Pai Francisco - vaqueiro, veste-se com roupas mais simples. Seu papel durante a brincadeira é provocar risos na plateia. Cada boi pode ter vários deste personagem.

Mãe Catirina - mulher de Pai Francisco. Normalmente representada por um homem vestido de mulher.

Índio - Homem com pouca roupa, mais muito rica em detalhes.

Índias - mulheres cobertas por penas no peito, mãos e pernas.

Miolo - brincante responsável pelas evoluções e coreografias do boi.

Vaqueiros - empregados da fazenda. Usam roupas de veludo e chapéus de pena com longas fitas coloridas.

Mutuca - para não deixarem os brincantes dormirem durante as maratonas de apresentação do bois, os mutucas são responsáveis pela distribuição de cachaça a todos.

Caboclo de fita - brincantes enfeitados com chapéus de fita coloridos e que se misturam aos vaqueiros durante a festa.

Caboclo de pena - homens cobertos por penas e com um grande chapéu ou cocá que também é feito de penas, representando os homens da tribo nos rituais.

Principais arraiais em que os bumba-meu-bois se apresentamEditar

 
Boi Mimoso, da Baixada Maranhense
  • Parque Folclórico da Vila Palmeira
  • Arraial do Projeto Reviver
  • Arraial do CEPRAMA (onde também é realizada uma feira permanente de artesanato maranhense)
  • Arraial da Lagoa
  • Arraial do Ipem
  • Arraial do Renascença
  • Arraial do Viva Anjo da Guarda
  • Arraial do Viva Vila Embratel
  • Arraial do Viva Bairro de Fátima
  • Arraial do Viva Liberdade
  • Arraial do Viva Maiobão
  • Capela de São Pedro na Madre Deus
  • Praça da Saudade na Madre Deus
  • Arraial do Viva João Paulo
  • Arraial do Cohatrac
  • Praça Rui Fernandes Costa - Nina Rodrigues
  • Parque Folclórico Terezinha Jansen - São José de Ribamar
  • Arraial Viva Vilas - São José de Ribamar
  • Arraial da Parque Vitória - São José de Ribamar
  • Arraial da praça Maria Aragão

Em diversos museus e espaços culturais, também é possível visualizar vestimentas, adereços e objetos do bumba-meu-boi, tais como: a Casa do Maranhão, o Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, o Ceprama, o Museu Casa de Nhozinho, dentre outros.

Ver tambémEditar

Cacuriá

Cacuriá de Dona Teté

Tambor de Crioula

Festejo do Divino Espírito Santo no Maranhão

Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão (Ceprama)

ReferênciasEditar

  1. «Bumba Meu Boi do Maranhão agora é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade». UNESCO. 11 de dezembro de 2019. Consultado em 16 de dezembro de 2019 
  2. a b «Página - IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional». portal.iphan.gov.br. Consultado em 30 de junho de 2018 
  3. «Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão Dossiê do registro» (PDF). 2011 
  4. «Bumba meu boi». Fundação Cultural Palmares