Centro Cívico Palmares

O Centro Cívico Palmares foi uma associação negra brasileira e uma das maiores em seu gênero do estado de São Paulo no início do século XX.[1]

Fundado na capital paulista em 28 de dezembro de 1926 sob a liderança do ativista negro Antônio Carlos, a ideia inicial era fundar apenas uma biblioteca, mas acabou se desenvolvendo como um espaço onde se pudesse promover discussões sobre vários temas relevantes para os negros, ao contrário dos clubes e associações que então existiam, que se preocupavam principalmente com atividades recreativas e socializantes. Em seus estatutos ficavam declarados os seus objetivos de promover os interesses da população negra, melhorar sua instrução moral e intelectual, e desenvolver atividades esportivas,[2] dando continuidade à "obra inacabada" da Abolição.[3]

O Palmares criou efetivamente uma biblioteca, fundou escolas e um curso secundário, contando com um corpo docente bem preparado,[4] além de organizar palestras, cursos, conferências, saraus de teatro, literatura e poesia, sempre com uma orientação voltada para aprimorar a educação e fortalecer em seus membros a conscientização social e política para a conquista de uma plena cidadania.[5] Em 1928 pleiteou com sucesso a derrubada de um decreto que proibia os negros de ingressarem na Guarda Civil paulista.[6]

Teve como colaboradores Arlindo Veiga dos Santos, Isaltino Veiga dos Santos, Gervásio de Moraes, José Correia Leite, Argentino Wanderley, Manoel Antônio dos Santos, Roque dos Santos,[2] Ignácio Amorim, Nestor de Macedo, Raul Joviano do Amaral e Vicente Ferreira, entre outros. Muitos deles se tornariam importantes lideranças no movimento negro,[3] e muitos eram ativos na imprensa negra paulista.[7]

Em 1929, quando o inglês Joe Foyes-Gittens assumiu a presidência, a associação foi reestruturada, mas a atuação do presidente passou a ser criticada alegadamente por fazer mau uso dos fundos da entidade e manter uma postura autoritária. Vários membros a abandonaram, entrou em decadência e encerrou suas atividades no mesmo ano.[2]

Apesar da sua breve existência, o Centro Cívico Palmares contribuiu, como disse Abdias do Nascimento, para "forjar um novo tipo de afro-brasileiro, menos acomodado diante de manifestações racistas e mais competitivo no mercado de trabalho".[8] É lembrado hoje como uma das associações negras mais reputadas do período,[3] a primeira com uma plataforma política claramente delineada,[1][5] um marco na mobilização política dos negros de São Paulo,[6][9] e um dos principais responsáveis pela mudança na estratégia dos movimentos reivindicatórios da população negra.[2] O Palmares é considerado o precursor da Frente Negra Brasileira.[1][6]

Ver também editar

Referências

  1. a b c Domingues, Petrônio. "Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos". In: Tempo, 2007; 12 (23)
  2. a b c d Carvalho, Gilmar Luiz de. A imprensa negra paulista entre 1915 e 1937: características, mudanças e permanências. Mestrado. Universidade de São Paulo, 2009, pp. 158-161
  3. a b c Domingues, Petrônio. "Lino Guedes: de filho de ex-escravos à elite de cor". In: Afro-Ásia, 2010 (41): 133-166
  4. Cruz, Leonardo Borges da. "Movimento Negro em Movimento". In: IV Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros. Salvador, 2006
  5. a b Ferreira, Maria Cláudia Cardoso. "As Trajetórias de Veiga dos Santos e Correia Leite: Dissensos e Convergências na Militância Negra dos anos 1930". In: XXIX Encontro Anual da ANPOCS, 2005
  6. a b c Pereira, Amilcar Araujo. "Por uma autêntica democracia racial!: os movimentos negros nas escolas e nos currículos de história". In: Revista História Hoje, 2012; 1 (1): 111-128
  7. Sales, Ricardo Ramos. A imprensa negra paulista e a educação: um movimento de resistência?. Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2014, p. 54
  8. Nascimento, Abdias do. "Frente Negra Brasileira". In: Revista Thoth, 1997 (3): 53-56
  9. Correia, Rosa Lucia Lima da Silva. Como os nêgos dos Palmares: uma nova história de resistência na Serra da Barriga-AL. Doutorado. Universidade Federal do Pará, 2016, p. 124