Curculio (peça)

Curculio, ou O Gorgulho, é uma comédia latina da autoria de Titus Maccius Plautus, obra composta na fase intermédia da obra do autor. O autor e título do original grego são desconhecidos, bem como a data de composição da peça, que se supõe ser da primeira década do século II a.C. A acção decorre numa rua de Epidauro, composta por duas casas, um templo a Esculápio e um altar a Vénus.

Curculio occidentis

O Gorgulho é uma típica comédia de reconhecimento, como outras que existem na obra plautina (Cistellaria, Poenulus ou Epidicus). Contudo, um dos pontos mais relevantes desta obra prende-se com a galeria notável de personagens-tipo que se encontram numa só comédia, algo de original em Plauto e na própria comédia greco-latina. Encontram-se aqui o escravo engenhoso, o enamorado, a velha ávida de vinho, a jovem enamorada, o alcoviteiro, o cozinheiro, o parasita, o onzeneiro e o soldado fanfarrão, cada um deles com as suas características tradicionais das peças compostas pelos poetas neotéricos.

Resumo da PeçaEditar

Ato IEditar

Fédromo, jovem apaixonado por Planésio, sai de sua casa com Palinuro num cortejo paródico, decidido a encontrar-se com a sua amada, que se encontra na casa de Cápadox, um alcoviteiro sem escrúpulos. Fédromo quer comprar a jovem ao alcoviteiro, mas as suas posses não lhe permitem que possa desembolsar 30 minas e levar Planésio, que parece corresponder ao seu amor. Além do mais, Planésio, apesar de dominada por um alcoviteiro, é considerada como uma mulher pura. Fédromo leva consigo vinho, de modo a poder fazer sair de casa a velha Leena, escrava devota ao seu sabor, à qual foi confiada a guarda de Planésio. Ao entornar o vinho à frente da porta de Cápadox, a velha sai atraída pelo odor do néctar. Contente pelo vinho dado por Fédromo, a velha promete-lhe trazer a jovem à presença do amado. Assim que Leena reentra em casa de Cápadox, Fédromo faz uma serenata aos ferrolhos da porta, pedindo-lhes que lhe tragam a amada. Leena traz-lhe finalmente Planésio. O encontro "romântico" acaba por despoletar uma discussão acerca da compra de Planésio. Fédromo informa a sua amada de que o seu parasita, Gorgulho, virá naquele dia da Cária com o dinheiro pretendido pelo alcoviteiro. A amada acaba por entrar na casa de Cápadox dizendo ao desolado Fédromo que a voltará a ver apenas quando este pagar o seu valor ao alcoviteiro. Jovem e servo saem de cena.

Ato IIEditar

O alcoviteiro Cápadox sai de casa em direcção ao templo de Esculápio, lamentando a sua sorte. Cápadox está convencido de que a sua saúde piora a olhos vistos, o que não passa de mera hipocondria. Será este o tema de conversa com Palinuro, o escravo que entretanto saiu de casa de Fédromo. Supersticioso, Cápadox deseja também que Palinuro interprete um sonho seu que tivera durante a noite. É nesta altura que entra em cena o Cozinheiro, que fica com o papel de intérprete. Perante o sonho de Cápadox, o Cozinheiro aconselha-o que vá tentar apaziguar Esculápio no seu templo. Este fá-lo imediatamente. O cozinheiro chama o seu amo Fédromo para fora de casa. O Gorgulho está a chegar apressadamente. Fá-lo irrompendo em cena numa corrida enérgica, fingindo dar encontrões contra a população, num alarido e aparato enormes; ao chegar ao pé do patrão arfa exageradamente - esta cena é típica dos mensageiros cómicos de Plauto, especialmente os escravos, motivo pelo qual personagens com este tipo de entrada são denominadas servus currens (escravo em corrida). Extraordinariamente, a entrada de servus currens é protagonizada pelo parasita. Fingindo estar a desfalecer, o Gorgulho só dará notícias quando tiver a garantia que o estômago será devidamente satisfeito. O empréstimo, não o conseguira; mas conseguira falar com um soldado que lhe dera uma notícia interessante: comprara a própria Planésio a Cápadox e dera a Licão, um banqueiro de Epidauro, a soma de trinta minas para consumar o negócio. Em embebedando o soldado, o Gorgulho roubara-lhe um anel de herança que lhe permitiria provar a identidade ao banqueiro Licão e fugira até Fédromo.

Ato IIIEditar

O Gorgulho encontra-se com o avarento Licão e dá-lhe umas tabuinhas e o anel do soldado, fingindo-se criado dele. Querendo ter a certeza de que o Gorgulho é, de facto, seu escravo, Licão faz algumas perguntas que ridicularizam a figura do soldado Terapontígono Platagidoro. Vendo que Cápadox sai do templo de Esculápio, Licão, o Gorgulho e o alcoviteiro entram na casa deste de modo a consumar o negócio de Planésio.

Ato IVEditar

Após uma quebra da ilusão cénica protagonizada pelo Guarda-Roupa da peça, parábase romana onde se relata a vita urbana da cidade de Roma, cujas palavras denunciam os lugares do Foro onde se podem encontrar os homens de bem e as gentes de má rês, aparecem, vindos da casa de Cápadox, o próprio alcoviteiro, Licão, o Gorgulho e Planésio, com o negócio concluído. O Gorgulho aproveita para criticar, perante o público, os alcoviteiros e os onzeneiros, pondo-os na mesma galeria de personagens malfazejas. Capádox vai para o templo agradecer o negócio feito. É então que aparece Terapontígono, o soldado fanfarrão, pedindo a Licão as trinta minas que lhe mandara guardar. Licão, com o negócio feito, acaba por mofar de Terapontígono, sem qualquer medo das ameaças vazias do soldado. De seguida, o soldado vira-se para Capádox, que reage exactamente da mesma forma que Licão, dizendo-lhe que já fez negócio com ele e lhe deu a jovem. Terapontígono desconfia então do Gorgulho, que lhe roubara o anel. Quanto às ameaças a Cápadox, Terapontígono não obteve sucesso, e alcoviteiro e soldado saem de cena, cada um para seu lado.

Ato VEditar

Planésio reconhece o anel que o Gorgulho roubou ao soldado. Diz que este faz parte da sua família, já que ela nasceu livre. Quando Terapontígono aborda o Gorgulho de modo a garantir a rapariga que perdera, a conversa toma o rumo inevitável do anel: Terapontígono conta os pormenores familiares e Planésio reconhece-se como irmã dele, dando-lhe a observar um outro anel que a própria jovem traz consigo e que o irmão reconhece como sendo o anel que este lhe deu como prenda de aniversário. Terapontígono promete a mão de Planésio a Fédromo e Cápadox vê-se obrigado a restituir as trinta minas que ganhara por uma jovem que, afinal, era liberta. O soldado é convidado a entrar na casa de Fédromo e o casamento será naquele mesmo dia.