Discussão:Antropologia das emoções

Gostaria de ressaltar que este artigo está assumindo uma linha de pensamento muito particular, característica de uma etnopsicologia preocupada em relacionar a emoção, enquanto fenômeno primariamente psicológico, com seus aspectos fisiológicos e sociais em termos de suas características funcionais.

Em primeiro lugar, gostaria de atentar para o fato de que nem todas as sociedades apresentam um termo específico para designar "emoção" em seu sistema classificatório, o que já nos remete ao problema da interpretação das filosofias e do discurso nativo nos termos classificatórios do próprio pesquisador (tudo bem, não existe meio de nos livrarmos de nossas próprias categorias, mas atentar para seu conteúdo moral - valorativo - é bastante importante [pelo menos penso assim], e o termo "emoção" realmente é carregado de implicações, de avaliações do tipo: "tristeza ou ciúme - emoção negativa, passiva" desintegradora da sociedade, pulsão egoísta [vejam como Freud descreve os impulsos egoístas no homem], "amor ou alegria - emoção positiva, ativa", necessária para a integração da sociedade [Ver Benedict 1934 e Manson 1986 sobre a compreensão do homem nos termos de suas "frustrações" - típicos de um Social Engineering], necessidade primária [Ver Linton em "The cultural background of personality" 1945: "Bebês que não são amados não vivem!"], etc.

Em segundo lugar, sabemos que no texto "a expressão obrigatória dos sentimentos" Mauss demonstra como a emoção, se assim podemos chamá-la, é simultâneamente biológica, psicológica e social, remetendo-se, em última instância ao seu aspecto "comunicativo". Uma emoção é sempre para outrem, ela comunica, é uma simbólica, isto é, uma linguagem, um índice de relações propriamente sociológicas.

A questão aqui não é saber se emoção é social ou psicológica (Ver o debate entre etnólogos e psicanalistas descrito por Lévi-Strauss na introdução a Mauss), como "continuam" os antropólogos americanos da Antropologia do Self and Feeling, mas demonstrar que existem perspectivas totalmente distintas do que uma emoção "potencialmente" poderia ser. Há, por exemplo, trabalhos que insistem nos "universais postulados" (ver capítulo 2 do Interpretação das culturas) e outros que não procuram se apoiar em tais hipóteses.

Obviamente cada perspectiva dá conta de elementos distintos, se por um lado Catherine Lutz está interessada em descrever as relações entre indivíduo e sociedade em termos emocionais (como diz a autora, os Ifaluk agem de forma social - racional, estrutural e TAMBÉM EMOCIONAL - revelando uma espécie de psicologismo e cartesianismo arraigado na linguagem antropológica - Ver Geertz 2001, Nova Luz para Antropologia: capítulo "cérebro, mente e cultura" - por outro lado os estudos sobre a Pessoa demonstram como "emoção" comunica um certo conjunto de relações pelas quais a sociedade pensa a si mesma e aos outros.

Enfim, haveriam outros pontos a serem questionados, mas a minha preocupação maior é a de tentar desessencializar a categoria emoção, até a própria Catherine Lutz no Unnatural Emotions demonstra os riscos do uso da categoria sem um movimento reflexivo anterior - Ver Emotion as value, as danger, as female, as subjectivity, as estrangement, opposed to thought etc.

Enfim, o artigo começa falando sobre relações de Intersubjetividade, mas eu não sei até que ponto a "emoção" faz referência a "intersubjetividades", "subjetividades", "interioridades", "mente" e outros conceitos característicos de uma perspectiva estratigráfica e [por que não] Ocidental do homem.

Por outro lado as metaforas falam, comunicam a emoção?, ou são as emoções que são apenas metáforas?

Há tantas perguntas que eu nem sei por onde começar...desculpa aí se estou sendo chato gente, mas é que acabei de concluir um trabalho sobre o assunto que até estranhei a ausência de alguns detalhes.

Há por exemplo os estudos de expressões faciais, ver Ekman, Darwin etc. (parece-me que o artigo reforça essa idéia, muito mais do que apresenta os contrapontos, divergências e lacunas do modelo) mas há uma série de pesquisas que seguem na direção contraria...é um campo bastante conturbado e intensamente produtivo.

Outra coisa - Por qual razão só são citados Darwin e Freud? Se estamos apontando para fundadores, podemos falar de Lineu, dos fragmentos hipocráticos de "áres, águas e lugares", ou das discussões de platão acerca da Paixão.

Fico feliz de saber que o interesse pelo tema só tenha crescido dentro das ciências sociais e humanidades em geral.

=)

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