Frederico Cunha

Frederico Cunha, de seu nome completo Frederico Marques Cunha (nascido em 12 de abril de 1950 em Natal, Brasil), habitualmente citado nos midia como "padre Frederico" é um padre católico condenado em Portugal por homicídio e abuso sexual de crianças e adolescentes. Fugiu à justiça em 1998.[1]


Frederico Cunha
Nome Frederico Marques Cunha
Data de nascimento 12 de abril de 1950 (71 anos)
Local de nascimento Natal, Rio Grande do Norte,  Brasil
Nacionalidade(s) Brasileiro
Apelido(s) Padre Frederico
Religião Católico Apostólico Romano
Crime(s) Assassinato (Homicídio)
Pena
  • 13 anos de prisão
  • Expulsão de território de Portugal
Situação Solto
Motivo(s) Pedofilia
Fuga Copacabana, Rio de Janeiro,  Brasil, 1998
Assassinatos
Vítimas Luís Miguel (15 anos)
Data 2 de maio de 1992 (29 anos)
Apreendido em 25 de maio de 1992
Preso em Portugal Portugal (1993)

Chegada na MadeiraEditar

Manuel Catarino diz que Frederico Cunha, antes de chegar para a Madeira em 1983, vivia em Itália, inserido na ordem religiosa dos Cônegos Regulares da Santa Cruz (os Crúzios), a ordem que dirige o movimento da Obra dos Anjos, chamada em latim Opus Angelorum, "uma congregação ultraconservadora, de práticas esotéricas nem sempre aplaudidas pela Cúria de Roma".[2] (A Santa Sé declara que "a Obra dos Santos Anjos, a qual, assim como se apresenta hoje, é uma associação pública da Igreja em conformidade com a doutrina tradicional e as directivas da Suprema Autoridade; difunde entre os fiéis a devoção aos Santos Anjos, exorta à oração pelos sacerdotes, promove o amor a Jesus Cristo na Sua paixão e a união à mesma".)[3] Também o periódico austríaco de protesto[4] Kirche In afirma que ele foi então membro da Obra dos Anjos.[5] De acordo com declarações do próprio padre e da diocese de Funchal, é sacerdote daquela diocese, não duma ordem religiosa.[6]

D. Teodoro de Faria, o bispo do Funchal, madeirense, que conhecera Frederico Cunha em Roma, fez dele seu secretário particular. Catarino diz que o comportamento bizarro do padre Frederico atraía as atenções. Tinha um gosto especial por caveiras, que usava no casaco ou penduradas no cinto. A partir de certa altura, D. Teodoro de Faria prescindiu dos serviços do secretário. O padre Frederico passou a andar de paróquia em paróquia. Os fiéis da ilha queixavam-se. E o bispo mudava-o de paróquia. Onde esteve mais tempo, como pastor, foi em São Jorge, no Norte da ilha, de 1987 Aqui esteve como pastor de 1987 a 1990. Conheceu então Miguel Noite, filho de uma família pobre, que se tornou seu amante.[2]

Outras fontes, ao falar de eventos similares mais recentes na Madeira, descrevem Frederico Cunha com menos detalhes lúgubres.[7][8]

 
Ponta de São Lourenço, Madeira

Crime, prisão e processoEditar

Segundo a acusação do Ministério Público , Frederico Cunha, em 1 de Maio de 1992, encontrou Luís Miguel, um rapaz de 15 anos de idade, a pé pela estrada do Caniçal e ofereceu-lhe boleia no seu Volkswagen preto. O seu cadáver foi encontrado no fundo da falésia do Caniçal, na Ponta de São Lourenço, no extremo oriental da ilha da Madeira, com sinais de agressões. O crime, segundo a acusação, deu-se no miradouro, sem testemunhas. O padre nunca negou a presença no Caniçal: esteve lá, mas na companhia de Miguel Noite – que afirmava ter lá estado com o amante. Seis testemunhas afirmaram que viram o padre com um rapaz loiro no carro.[2]

O cadáver da vítima, Luís Miguel Escórcio Correia, foi encontrado na manhã de 2 de maio de 1992, na praia abaixo dos penhascos do Caniçal, onde a Opus Angelorum mantinha a sua subsidiária Casa do Caniçal. A polícia inicialmente pensou tratar-se de um acidente . Mas quando o cadáver foi autopsiado, o médico-legista Emanuel Pita descobriu que várias lesões, incluindo um traumatismo craniano fatal, não poderiam resultar de sua queda do penhasco. Com base nos resultados da autópsia, foi iniciada uma investigação criminal.[2][9]

Uma testemunha anónima relatou á Polícia por telefone que havia visto o carro de Cunha no local do crime.[10] Durante uma busca em casa de Cunha, a polícia encontrou uma série de fotos pornográficas de crianças e adolescentes tiradas pelo padre às suas vítimas. Em 25 de maio de 1992 , Frederico Cunha foi preso e colocado em prisão preventiva na cidade de Funchal.[11]

O bispo Teodoro de Faria protestou contra a prisão de F.Cunha e descreveu-o como "inocente como Jesus Cristo" também ele atacado injustamente pelos judeus.[12] Muitos católicos ficaram "surpresos, chocados e envergonhados" por essa comparação.[11] O próprio padre Frederico, no Jornal da Madeira, se comparou a Jesus Cristo, dizando que tal como o filho de Deus, era "vítima da injustiça e do absurdo". Destacadas figuras da Igreja foram testemunhas abonatórias. O Presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, acusou "certa comunicação social do Continente" de utilizar o caso "para denegrir a imagem da Madeira".[11] Em 2010, em entrevista ao jornal Público, o procurador João Freitas, ele mesmo católico praticante, declarou publicamente ter sido pressionado no âmbito do processo penal, várias vezes, para forçar a absolvição do acusado. J. Freitas disse que a pressão não foi exercida unicamente pela igreja; veio também de outros quadrantes.[13] A diocese do Funchal nunca abriu qualquer processo canónico ao padre F.Cunha, nem mesmo depois de a Justiça o ter condenado, ou seja, nunca promoveu os necessários procedimentos para que ele fosse impedido de exercer.[14]

O julgamento decorreu em 10 de Março de 1993, um ano após o crime. Frederico Cunha foi condenado a 13 anos pelo homicídio de Luís Miguel, com subsequente pena de expulsão de Portugal.[15] Cunha também foi condenado a pagar aos familiares da vítima do homicídio a soma de 1.600.000 escudos como compensação, a qual nunca foi paga. O afilhado, Miguel Noite, apanhou 15 meses de cadeia, com pena suspensa, por encobrimento e falsas declarações.[2] Durante o julgamento, quatro testemunhas, já adultos, contaram em tribunal como tinham sido abusadas sexualmente pelo padre.[8] Frederico veio a cumprir pena em Vale de Judeus, Alcoentre.[2][12][14]

Ainda não tinha cumprido metade da pena, em Vale de Judeus, o padre foi autorizado pela juíza de execução de penas, Margarida Vieira de Almeida, a passar oito dias com a mãe, em Lisboa: os dois, em 10 de Abril de 1998, fugiram de carro para Madrid, e apanharam o primeiro avião para Copacabana,no Brasil, onde ainda residem.[1][2] O padre usou uma segunda via do passaporte, fornecido pela própria Embaixada do Brasil, o que motivou um pedido de explicações do Governo português.[16]

Vida no BrasilEditar

Actualmente, o padre Frederico vive com a mãe num prédio entre Copacabana e Ipanema, num dos locais mais luxuosos da cidade do Rio de Janeiro. Quando em 2015 o jornal português Sol o entrevistou, ele afirmou que continua a celebrar missas, embora não em locais convencionais: " É numa pastoral que rezo missa " . Dedica-se á fotografia abstracta.Continua a afirmar a sua inocência e considera que a sua condenação em Portugal foi típica de um regime nazi.[14]

A execução do mandato de detenção internacional e do resto da sentença expiraram em 8 de abril de 2018.[17]

Referências

  1. a b «Padre brasileiro foge de prisão em Lisboa». Diário de Pernambuco. 10 de Abril de 1998 
  2. a b c d e f g Catarino, Manuel (12 de Dezembro de 2013). «Os pecados mortais do padre Frederico (Arq. em WayBack Machine)». Correio da Manhã 
  3. Artigo ilustrativo sobre a Carta Circular sobre a Associação do Opus Sanctorum Angelorum (L’Osservatore Romano, edição semanal em português, número 12, 19 de Março de 2011, página 6-7).
  4. Über Kirche In
  5. Walter Axtmann: Engelwerk: Mord auf Madeira. Em Kirche intern, maio 1995, páginas 41 e 42.
  6. Carlos Diogo Santos, "A nova vida do padre Frederico" em Sol, 24 de julho de 2015
  7. Reis, Bárbara (9 de Dezembro de 2012). «Padre Frederico, outro país». Público 
  8. a b Soares, Ricardo (9 de Abril de 2014). «Padre Frederico tornou-se mediático». Tribuna da Madeira (Arquivado em WayBack Machine) 
  9. Fontes, Ivo (Janeiro de 2006). «Abuso sexual de menores» (PDF). Universidade de Coimbra -Faculdade de Economia 
  10. Rattner, Jair (6 de Abril de 1995). «Preso brasileiro faz 'teste da verdade' na TV». Folha de S.Paulo 
  11. a b c Cardoso, Ribeiro (2011). Jardim, a Grande Fraude. [S.l.]: Caminho. 544 páginas 
  12. a b Martins, Rosário (25 de Maio de 2015). «O escândalo que abalou a Igreja na Madeira». Funchal Notícias 
  13. Oliveira, Mariana (21 de Março de 2010). «Procurador recorda pressões no caso do padre Frederico». Público 
  14. a b c Santos, Carlos Diogo (31 de Julho de 2015). «A nova vida do padre Frederico». Sol 
  15. Rádio e Televisão de Portugal: Depois do Crime. Episódio 1, Episódio 2. (21 e 22 de Setembro de 2020)
  16. «Portugal pede satisfações ao Brasil». Folha de S.Paulo. 18 de Abril de 1998 
  17. Luís, Miguel Fernandes (e outro) (26 de março de 2018). «Dez mandados de detenção activos na Comarca da Madeira - LISTA NÃO INCLUI PADRE FREDERICO, CUJOS CRIMES ESTÃO A PRESCREVER». Diário de Notícias Madeira