Monumento Eldorado Memória

O Monumento Eldorado Memória foi um monumento projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer em alusão ao Massacre de Eldorado do Carajás, sendo inaugurado no dia 7 de setembro de 1996 em Marabá, no Sudeste do Pará.[1]

Reprodução do Monumento Eldorado Memória gravada numa parede da Unidade I do Campus Marabá da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, em 2016.

Niemeyer doou o projeto do monumento enquanto participava da VI Mostra Internacional de Arquitetura em São Paulo, em julho de 1996.[2]

O monumento foi rapidamente construído contando com recursos advindos do próprio Niemeyer e de movimentos de defesa dos direitos humanos. A prefeitura de Marabá e o governo federal brasileiro cederam o local e garantiram a possibilidade de instalação.[3]

O monumento, que imitava um ancinho com uma mão o segurando e dividido na horizontal por um par de olhos,[4] foi destruído 15 dias depois de inaugurado por latifundiários da região.[5]

Características do monumentoEditar

Segundo o professor Gil Vieira Costa (2018), da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Eldorado Memória "era um monumento retangular, com cerca de quatro metros de altura, feito em concreto".[3] Segundo Costa (2018), compunha-se da figura de "um ancinho ao centro, segurado por uma mão e posto a frente de dois olhos abertos". No monumento também havia a inscrição "a terra também é nossa", que era acompanhada das seguintes palavras:[3]

Seguia-se o nome dos trabalhadores rurais mortos e encerrava-se com o seguinte:[3]

Antecedentes e construçãoEditar

Clamando por mais ação do governo pela reforma agrária, 1.500 sem-terra que estavam acampados em Curionópolis (desde o ano anterior)[6] decidiram, em 19 de abril de 1996, fazer uma marcha em protesto na antiga rodovia PA-150 (atual BR-155), bloqueando a via nos dois sentidos na periferia da cidade de Eldorado do Carajás. A Polícia Militar do Pará foi encarregada de tirá-los do local. Poucas horas depois receberam ordens do governador Almir Gabriel de "usar força necessária e inclusive atirar". A ação policial matou 19 trabalhadores rurais.[5][7]

O clima na região estava muito tenso desde o massacre, quando Niemeyer resolveu, durante a VI Mostra Internacional de Arquitetura em São Paulo, em julho de 1996, doar um monumento a ser instalado para homenagear os trabalhadores mortos.[2]

O arquiteto dispôs parte dos seus recursos para erguer o monumento, encontrando apoio financeiro de organizações de direitos humanos e do campesinato. A prefeitura de Marabá, na figura do prefeito Geraldo Veloso, sugeriu que o monumento fosse erguido num local de grande fluxo, no entroncamento das rodovias BR-230 e BR-155 (antiga PA-150), local popularmente conhecido como "Rotatória do Km 06". O governo federal, por intermédio do DNIT, garantiu a cedência da área e a terraplanagem mínima da rotatória. A escolha de Marabá para a construção do monumento, vinha porque da cidade partiu a cobertura da imprensa, o velório dos trabalhadores mortos, e também sediou as instâncias judiciais e policiais responsáveis pela abertura dos processos criminais e investigativos contra os autores do massacre. O local também vinha a calhar porque simbolizava a rodovia do massacre (BR-155) e a rodovia de colonização da Amazônia (BR-230) — estrada esta que indiretamente gerou o massacre, por ser a porta de entrada de grande contingente populacional para a Amazônia oriental, fato que colaborou para a convulsão da massa camponesa que se instalou na região atraída pelo governo federal por promessas de terras de baixo custo e abundantes.[3]

O monumento ficou pronto no dia 8 de agosto de 1996, sendo entregue a integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Rio de Janeiro, pelo próprio Niemeyer. No dia da entrega houve um ato local. Em várias em cidades brasileiras, por onde a obra passou, houve programações em solidariedade às vítimas.[3]

Após chegar em Marabá, as obras de instalação começaram, sendo feitas na semana que antecedeu o feriado de 7 de setembro. Então, no dia 7 de setembro, vários movimentos sociais[8] fizeram marcha na cidade para lembrar o massacre. Ao final da marcha, os trabalhadores rurais, o prefeito e demais autoridades inauguraram o monumento.[6]

DestruiçãoEditar

Após a inauguração, os proprietários latifundiários[6] e os setores ultraconservadores[6] da região começaram a proferir ameaças de que destruiriam o monumento e também contra as entidades que o patrocinaram.[3]

Na madrugada de 22 de setembro de 1996 um grupo de pessoas reuniu-se ao redor do monumento com picaretas e marretas e destruíram o monumento. Não houve nenhuma ação da polícia (o quartel do 4º batalhão da Polícia Militar fica a cerca de 2 km do local) para conter os vândalos e a depredação do Monumento Eldorado Memória.[9][10] O monumento foi a única obra arquitetônica de Niemeyer no interior da Amazônia.[11]

O ocorrido gerou temor e terror na população, visto que a ação foi muito truculenta e cercada de ameaças.

Perguntado sobre o ocorrido, Niemeyer respondeu o seguinte:[12]

A prefeitura de Marabá ou qualquer outra entidade governamental (inclusive o governo do Pará, que deu ordem ao massacre) nunca se dispuseram a reerguer o monumento.[13]

Monumento das Castanheiras MortasEditar

 Ver artigo principal: Monumento das Castanheiras Mortas

O Monumento das Castanheiras Mortas é um monumento em Eldorado do Carajás, que foi inaugurado em 17 de abril de 1999.[6] Em sua inauguração, compunha-se de 19 castanheiras queimadas e mortas que foram erguidas na curva do S da BR-155, local onde ocorreu o massacre, em homenagem tanto aos trabalhadores mortos,[14] quanto ao monumento de Niemeyer derrubado em 1996.[15]

Referências

  1. Campanha de Solidariedade - MST
  2. a b A vida e a obra de Oscar Niemeyer: Conheça os momentos marcantes de um dos arquitetos mais renomados do mundo - Revista Época, 2012
  3. a b c d e f g Costa, Gil Vieira. (2018). «Fabricar a memória da violência: imagens do massacre de eldorado dos carajás na arte contemporânea.». Belém: Universidade Federal do Pará. Arteriais. 4 (7) 
  4. Rascunho original do Monumento Eldorado Memória - Fundação Niemeyer
  5. a b Duarte, M. M.. (2005). Entre enigmas, rupturas e identidades. Tese de doutorado em Ciências Sociais. São Paulo: PUC-SP 
  6. a b c d e Sampaio, Fernando Gurjão. (17 de abril de 2021). «Era março de 1996 quando 3.500 famílias de sem-terra ocuparam a fazenda Macaxeira, completamente improdutiva, perto de Curionópolis, interior do Pará.». Microblog @tantotupiassu 
  7. Bortolozzi Junior, Flávio. A Criminalização dos Movimentos Sociais como Obstáculo à Consolidação dos Direitos Fundamentais. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2008.
  8. Rolim, Marcos; Genro, Luciana. Relatório Azul 1996 - Porto Alegre: Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, 1997.
  9. Chomsky, N.; Achcar, G. (et. all.) MARX 2000: La Hegemonia Norteamericana - América Latina: Los Nuevos Sujetos Sociales - Vol. III. Buenos Aires: Kohen & Asociados Internacional, 2000.
  10. Magalhães, Leandro Henrique; Castelo Branco, Patrícia Martins.. Patrimônio, Memória e Turismo Arquivado em 18 de junho de 2018, no Wayback Machine.. Rev. Perspec. Contemp. Campo Mourão, v.1, n.1, jan./jul., 2006
  11. Otranto, Patrícia. 104 anos (parte 2). Blog Nossa Arquitetura, 2013.
  12. «Um exercício do olhar». Revista Grupo Integrado. Consultado em 14 de outubro de 2016. Arquivado do original em 3 de outubro de 2009 
  13. «Destruir monumentos nunca foi um problema no Brasil». Diário do Centro do Mundo. 26 de julho de 2021 
  14. Ato lembra morte de 19 sem-terra - Agência Folha, 1999
  15. FIA CINEFRONT: "Será um grande festival educativo por meio do cinema", diz Evandro Medeiros Portal UNIFESSPA, 2015

Ligações externasEditar