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Como ler uma infocaixa de taxonomiaMyxomycota
Tubifera ferruginosa (Batsch) J.F. Gmel. 1791
Tubifera ferruginosa (Batsch) J.F. Gmel. 1791
Classificação científica
Reino: Protista
Filo: Amoebozoa
Subfilo: Conosa
Infrafilo: Myxomycota (atualmente denominado Mycetozoa)
Classes e Ordens

Myxomycota é a antiga denominação para o infrafilo Mycetozoa. Os mixomicotas são seres cosmopolitas e microbívoros (alimentam-se de bactérias, leveduras e outros microrganismos) encontrados em todas as latitudes do globo terrestre, onde tenha depósito de substratos orgânicos em decomposição.[1] Seu corpo de frutificação se assemelha ao dos fungos [2] e são visíveis na natureza em forma de esporocarpos ou plasmódios - uma massa de protoplasma multinucleada e sem paredes celulares.[3]

Características gerais do grupoEditar

Os mixomicetos possuem como principais características as formas que assume nas fases de seu ciclo de vida. O seu ciclo de vida pode ser dividido em duas fases: a assimilativa e a reprodutiva. Em sua fase assimilativa, o organismo organiza-se em plasmódio de vida livre. Quando chega à maturidade, varia de uma forma pequena, multinucleada, ameboide de pouca motilidade ou então em forma de um grande protoplasma altamente móvel com uma rede de veias (Imagem 1) e uma margem protoplásmica que avança continuamente.[4] Desenvolvem estruturas de frutificação denominadas esporocarpos, que podem ser classificados de acordo com o formato em esporângio sécil, esporângio pedicelado ( quando separados) ou pseudoetálio, plasmodiocarpos ou etálios (quando unidos).[4]

Na fase assimilativa (ou vegetativa), não há presença de parede celular; as células ameboides estão sempre presentes (formando o plasmódio) e alguns grupos podem possuir células flageladas, sendo esses flagelos apenas do tipo chicote, localizados predominantemente na porção anterior da célula.[5]

 
Imagem 1: Plasmódio com sua rede de veias

Grau de conhecimento do grupoEditar

Algumas espécies são conhecidas há quase 300 anos, como por exemplo a espécie atualmente conhecida como Lycogala epidendrum (Imagem 2), descrita em 1657.[6]

Rossman apresentou uma expectativa para a diversidade mundial de 1500 espécies, só para a classe Myxogastria (a maior classe do grupo), dita como moderadamente conhecida (Rossman 1994 apud Hawkswoth 2001[7]).

 
Imagem 2: Lycogala epidendrum (J.C. Buxb. ex L.) Fr. 1829

Número de espécies conhecidasEditar

Atualmente, são conhecidas cerca de 1000 espécies descritas de mixomicetos no mundo.[8] No web site Discover Life [9] são reconhecidas aproximadamente 1000 espécies. Segundo De Bary,[10] o infrafilo Myxomycota (quando ainda incluía Acrasieae, que hoje possui seu próprio filo) possuía 300 espécies conhecidas. Esse dado mostra como vem crescendo o conhecimento do grupo, desde os primeiros estudos do mesmo. No Brasil, 216 espécies são descritas para os diferentes biomas brasileiros, com exceção do Pantanal e Pampas[11]. Em Pernambuco, onde as primeiras pesquisas sobre estes organismos datam de 1974[12] até os dias atuais, é registado o maior número de espécies (162) e em São Paulo, onde as pesquisas têm sido reforçadas, ocorrem 124 espécies.[13]

Classificação mais aceitaEditar

Segundo Dugan,[14] que por sua vez se baseia na classificação proposta por Martin & Alexopoulos,[4] Myxomycota consiste em três classes: Myxomycetes, Dictiosteliomycetes e Protosteliomycetes. Essa segunda classe pertencia anteriormente a Acrasiomycetes (que por sua vez não faz mais parte de Myxomycota) e ainda não é tão aceito nessa classificação.[15] Porém, trabalhos atuais[16] já fazem uso da mesma classificação apresentada nessa revisão, indicando que vem sendo levada em consideração. Com isso, abaixo estão listadas os táxons pertencentes ao filo Myxomycota, baseando-se em Dugan[17] e em Martin et al.[18]:

Relação com outros grupos de fungosEditar

Segundo a publicação de Martin et al.,[19] os biólogos mais modernos têm defendido que o filo Myxomycota é mais relacionado aos protistas do que aos fungos; porém, esse grupo tem sido por anos classificado e nomeado segundo as regras da taxonomia botânica. Entretanto, pode-se classificar o filo em questão, que se encontra no reino Protista (ou Protoctista), como Gymnomycota, subfilo Mycetozoa, classe Eumycetozoa e finalmente em duas subclasses, Protostelia e Myxogastria (Olive 1975 apud Martin et al.[20]). Essa classificação é usada no site Discover Life [21], já mencionado anteriormente, pelo site Eumycetozoa [22] e pelo Encyclopedia of Life[23].

Contudo, mesmo que o filo Myxomycota tenha sido transferido para o reino Protoctista, o Código de Nomenclatura Botânica, Divisão I, Princípio I diz que esse código atua sobre nomes atualmente considerados botânicos e também sobre os que já foram considerados botânicos.[24] Com isso, não se torna incorreto o uso da nomenclatura anteriormente proposta por micólogos como Alexopoulos, Martin, Hawksworth entre outros.

Metodologia de estudo do grupoEditar

Os Myxomycota podem ser encontrados em ambientes já conhecidos para os fungos: em locais sombreados e úmidos com temperaturas mais amenas, sobre troncos na mata, folhas mortas, beirada de brejos e até montes de lixo – além de poderem crescer sobre folhas vivas.[25] Para o cultivo em meio artificial, o material deve ser coletado e colocado em um placa de Petri (com 9 cm de diâmetro) com um papel filtro autoclavado ou esterilizado em seu fundo, umedecido com água destilada. O material deve ser analisado sob estereomicroscópio e um fato importante é isso ser feito ao menos um dia após estar úmido.[4] Com isso, deve-se encubar a 20-25°C pelo tempo necessário para o desenvolvimento e amadurecimento do esporângio.[26] Em outros tipos de coleta, o espécime deve ser colocado em uma caixa com tampa para que não seja danificado; os esporângios desenvolvidos devem ser secos e guardados em um herbário – após ser devidamente catalogados. O máximo de material não pertencente ao mixomiceto deve ser retirado, e o restante deve ser colado à caixa rotulada com as informações do espécime.[4][27]

Já para o exame minucioso do material, montam-se lâminas, seguindo o protocolo proposto em Teixeira[28]: colocar o material sobre a lâmina, em uma gota de álcool (98% ou absoluto) por 1 minuto; colocar 1 gota de solução de KOH a 2% por um minuto; colocar à lamínula de forma que não fique bolhas de ar. Assim a lâmina está pronta para ser examinada. Não aconselha-se a análise muito tempo após sua montagem pois os esporos podem inflar, perdendo sua característica diagnóstica. E ainda, se as lâminas precisarem ficar armazenadas por mais tempo, colocar glicerina a 8%, tirando o KOH com um papel-filtro pela lateral. E para lâminas permanentes, colocar glicerina várias vezes após a secagem da mesma. Após isso, deixar em glicerina pura por 2 dias, retirar o excesso e colocar solução lutante diluída por 24 horas e depois a concentrada por mais 48 horas.[29]

Importância do grupoEditar

Além de fazer parte da biodiversidade do planeta, os mixomicetos possuem importância como elemento de pesquisa científica. A partir desses organismos, é possível estudar a dinâmica de sua célula, o mecanismo do movimento plasmodial e também a fisiologia do seu desenvolvimento.[30][4] Desde 1969, muitos estudos sobre a citologia, a genética e a fisiologia são tópicos abordados em relação os Myxomycetes [31]

Esses organismos além de ser encontrados sobre folhas e madeiras mortas em áreas de floresta, podem ser vistos sobre folhas de plantas vivas, o que pode causar algum dano, sendo que esse dano é meramente incidental, já que isso não sugere um parasitismo verdadeiro.[32][33] A espécie mais comum desse plasmódio vivendo em canteiros e plantas ornamentais é Physarum cinereum [34] (Imagem 3).

 
Imagem 3: Physarum cinereum esporulando sobre folhas

Contudo, Martin et al.[35] fazem menção ao trabalho de Harado em 1977, onde os mixomicetos acabam por causar danos em cogumelos comerciais. Outro trabalho realizado [36] mostra a ocorrência de mixomicetos em cultura hidropônicas, sendo que sua presença influencia na qualidade das hortaliças de modo ainda não compreendido.

CuriosidadesEditar

Os Myxomycota não se restringem apenas à florestas e matéria orgânica. No estudo de Lindley et al.,[37] espécies de Myxomycetes e também de Protosteliomycetes foram isoladas de água coletada em lagos em cidades dos Estados Unidos. Tais espécies foram identificadas graças a análises moleculares.

Referências

  1. MILANEZ, A.I. 1999. Biodiversidade do Estado de São Paulo, Brasil: síntese do conhecimento ao final do século XX. São Paulo: BIOTA FAPESP.
  2. MACBRIDE, T.H.; MARTIN, G.W. 1934. The Myxomycetes. A descriptive list of the known species with special reference to those occurring in North America. New York: The MacMillan Company.
  3. MILANEZ, A.I. 1999. Biodiversidade do Estado de São Paulo, Brasil: síntese do conhecimento ao final do século XX. São Paulo: BIOTA FAPESP.
  4. a b c d e f MARTIN, G.W.; ALEXOPOULOS, C.J. 1969 The Myxomycetes. Iowa: University of Iowa Press.
  5. TEIXEIRA, A.R. Gêneros de Myxomycetes. Rickia Arquivos de Botânica do Estado de São Paulo – Série Criptogâmica. Supl. 4. São Paulo: Instituto de Botânica, 1971.
  6. MACBRIDE, T.H.; MARTIN, G.W. 1934. The Myxomycetes. A descriptive list of the known species with special reference to those occurring in North America. New York: The MacMillan Company.
  7. HAWKSWORTH, D.L. The magnitude of fungal diversity: the 1.5 million species estimate revisited. Mycol. Res., United Kindon, v. 105, n. 12, p. 1422-1432, dez. 2001.
  8. Lado, C. (2005-2014). An on line nomenclatural information system of Eumycetozoa. http://www.nomen.eumycetozoa.com (28/04/2014).
  9. STEPHENSON, S. Eumycetozoa. Última atualização: 29 Junho de 2011. Acessado em: 29 de Junho de 2011. <http://www.discoverlife.org/20/q?search=Eumycetozoa >.
  10. DE BARY, A. Comparative Morphology and Biology of The Fungi Mycetozoa and Bacteria. Oxford: The Clarendon Press, 1887.
  11. Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/>. Acesso em: 27 Abr. 2014
  12. Cavalcanti, L. H. 1974b. O gênero Perichaena Fries em Pernambuco. Rickia 6: 98-117.
  13. MILANEZ, A.I. 1999. Biodiversidade do Estado de São Paulo, Brasil: síntese do conhecimento ao final do século XX. São Paulo: BIOTA FAPESP.
  14. DUGAN, F.M. 2006. The Identification of Fungi: An Illustrated Introdution with Keys, Glossary, and Guide to Literature. Minnesota: APS Press.
  15. WEBSTER, J. 1980. Introduction to fungi. 2. ed. Great Britain: Cambridge University Press.
  16. SESLI, E & DENCHEV, C.M. 2008. Checklists of the myxomycetes, larger ascomycetes, and larger basidiomycetes in Turkey. Mycotaxon, v. 106, p. 65-68.
  17. DUGAN, F.M. 2006. The Identification of Fungi: An Illustrated Introdution with Keys, Glossary, and Guide to Literature. Minnesota: APS Press.
  18. MARTIN, G.W., ALEXOPOULOS, C.J.; FARR, M.L. 1983. The Genera of Myxomycetes. Iowa City: University of Iowa Press.
  19. MARTIN, G.W., ALEXOPOULOS, C.J.; FARR, M.L. 1983. The Genera of Myxomycetes. Iowa City: University of Iowa Press.
  20. MARTIN, G.W., ALEXOPOULOS, C.J.; FARR, M.L. 1983. The Genera of Myxomycetes. Iowa City: University of Iowa Press.
  21. STEPHENSON, S. Eumycetozoa. Última atualização: 29 Junho de 2011. Acessado em: 29 de Junho de 2011. <http://www.discoverlife.org/20/q?search=Eumycetozoa >.
  22. HERNÁNDEZ-CRESPO, J.C. nomen.eumycetozoa.com. An online nomenclatural information system of Eumycetozoa. Madrid: Real Jardín Botánico, CSIC. Ministerio de Ciencia e Innovación of Spain, 2010. Acessado em: 29 de Junho de 2011. <http://eumycetozoa.com/data/index.php>.
  23. ENCYCLOPEDIA OF LIFE. Myxomycetes. Última atualização: Maio de 2011. <http://www.eol.org/pages/5742>. Acessado em: 29 Junho de 2011.
  24. MCNEILL, C.J.; BARRIE, F. R.;BURDET, H. M.; DEMOULIN,V; HAWKSWORTH,D.L.; MARHOLD,K.; NICOLSON,D.H.; PRADO,J.; SILVA,P.C.; SKOG,J.E.; WIERSEMA,J.H.; TURLAND, N.J. 2006. International Code of Botanical Nomenclature (VIENNA CODE). Eletronic Version. Vienna: Seventeenth International Botanical Congress.
  25. TEIXEIRA, A.R. Gêneros de Myxomycetes. Rickia Arquivos de Botânica do Estado de São Paulo – Série Criptogâmica. Supl. 4. São Paulo: Instituto de Botânica, 1971.
  26. TEIXEIRA, A.R. Gêneros de Myxomycetes. Rickia Arquivos de Botânica do Estado de São Paulo – Série Criptogâmica. Supl. 4. São Paulo: Instituto de Botânica, 1971.
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  30. TEIXEIRA, A.R. Gêneros de Myxomycetes. Rickia Arquivos de Botânica do Estado de São Paulo – Série Criptogâmica. Supl. 4. São Paulo: Instituto de Botânica, 1971.
  31. MARTIN, G.W., ALEXOPOULOS, C.J.; FARR, M.L. 1983. The Genera of Myxomycetes. Iowa City: University of Iowa Press.
  32. MARTIN, G.W., ALEXOPOULOS, C.J.; FARR, M.L. 1983. The Genera of Myxomycetes. Iowa City: University of Iowa Press.
  33. ALEXOPOULOS, C.J.; MIMS, C.W.;BLACKWELL, M. 1996. Introdutry Mycology. 4. ed. New York: John Wiley & Sons, Inc.
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  35. MARTIN, G.W., ALEXOPOULOS, C.J.; FARR, M.L. 1983. The Genera of Myxomycetes. Iowa City: University of Iowa Press.
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  37. LINDLEY, L.A.; STEPHENSON,S.L. & SPIEGEL, F.W. 2007. Protostelids and myxomycetes isolated from aquatic habitats. Mycologia, v. 99, n. 4, p. 504-509.

Veja tambémEditar