Nova Floresta (livro)

obra de Manuel Bernardes

Nova Floresta (1706) é uma obra de autoria do Padre Manuel Bernardes.

Como era corrente na literatura do período Barroco, o título completo da obra é bem mais longo que o título hoje conhecido: Nova Floresta, ou silva de vários apophtegmas e ditos sentenciosos, espirituais e morais, com reflexões em que o útil da doutrina se acompanha com o vário da erudição, assim divina como humana. O que explica logo o conteúdo do livro é uma série de apólogos morais, cada um deles constituído de duas partes: na primeira, o escritor narra um "caso", uma história de fundo moral ou exemplar, e na segunda, comenta-a extraindo-lhe a mensagem edificante. Veja-se como exemplo o seguinte apólogo, "De Sócrates Filósofo" e "Encômio":

    Caminhando Sócrates, um atrevido se descomediu com ele, e lhe
deu um coice. Estranhando alguns a paciência do filósofo, disse:
- Pois eu que lhe hei de fazer depois de dado?

Responderam:
- Demandá-lo em juízo pela injúria.

Replicou:
- Se ele em dar coices confessa ser jumento, quereis que leve um jumento a juízo? BERNARDES, Padre Manuel. Nova floresta ou Sylva de varios apophthegmas e ditos sentenciosos, espirituaes e moraes com reflexoens, em que o util da doutrina se acompanha com o vario da erudição, assim divina, como humana. Lisboa: Na officina de Joseph Antonio da Sylva, 1726-1728, tomo 5,tít. III, dit. XXXI, p. 382-383.</ref>

O nome "Nova Floresta ou Silva" porventura quer dizer "Silva desconhecida" ou "Miscelânea de trechos literários desconhecidos", conforme o Dicionário Aurélio [1] e o Dicionário Houaiss [2] registram o verbete "Silva". Rafael Bluteau [3] entende "silva" como uma poesia popular (e de fato, a obra de Manuel Bernardes possui muitos versos populares, ou ditos por alguma personalidade). Embora os três dicionários (incluindo um contemporâneo a Manuel Bernardes) não se ocupem do nome "Floresta" além de seu significado usual se entende que, como em latim "silva" quer dizer "floresta" ou "selva" é assim que Manuel Bernardes ainda entendia. Outra manutenção que Manuel Bernardes faz de uma significação latina é de "Nova". Em latim, pode significar tanto "novo", quanto "surpreendente" ou "desconhecido". É essa última significação que o autor pressupunha (ou a penúltima; ele cita apotegmas e declarações contidas em obras em várias línguas, esse trabalho de compilação pode revelar algo novo ao público, embora presente em outras obras). No volume V, título X (Das justiças), dito LXXXIV, sobre o Papa Sisto V (1585-1590) ele afirma que: "Quando este Pontificate novamente eleito saiu a público, o Povo Romano. Ora, sabemos que esse Papa e nem qualquer outro foi eleito duas vezes. O sentido aqui de "novamente" é de "a pouco eleito", sendo, por isso "desconhecido", uma "surpresa" a quem o via.

Percebe-se que em sua época o problema da impunidade com relação a criminosos homicidas e estupradores é semelhante ao que se apresenta hoje no Brasil, conforme o trecho abaixo:

De Margarida, duquesa de Mântua. Sendo governadora deste reino perdoou uma morte, e o facínora cometeu depois outra, pela qual sendo outra vez preso, e sentenciado, e tornando a enviar intercessores para o perdão, respondeu a duquesa: Da primeira morte dará ele conta a Deus, da segunda eu. E mandou fazer justiça.

Conclusão: Muita indulgência, em lugar de arrancar os pecados, os semeia. Senhor da vida do criminoso é o Príncipe Soberano, para lhe perdoar a morte, porém não é Senhor das vidas, e honras dos inocentes para expô-las a perigo. E quem não vê que a mão que abrir a jaula de uma fera será culpada nas rapinas e sanguinolências que suas garras obrarem?[4]

Outra passagem sobre a mesma temática é o seguinte:

De Zeno, Principe dos Filósofos Estoicos. Tinha ele na sua Escola hum criado, a quem ensinava também os dogmas daquela seita, da moderação das paixões, e sossego das adversidades, atribuindo tudo ao fado. Sucedeu furta-lhe o criado não sei que, por onde o amo lhe pareceu necessário castiga-lo: e a o levar o castigo, se defendia com a doutrina Estoica, dizendo: Fatale mihi fuit furari; “foy fado [o destino], que eu furtasse”. Responde-o o amo: Et caedi; “e também foi fado [destino], que te açoutasse”.

Paralelo, e Reflexão: Semelhante caso sucedeu em Inglaterra, onde hum ladrão [de religião] Calvinista, allegando por seu descargo, que era predestinado para furtar, o Juiz lhe disse: “E eu sou predestinado para vos mandar enforcar.

Outro trecho sobre justiça diz:

De Thomas More. Este valoroso Chanceler da Inglaterra, caindo-lhe nas mãos a causa de um capital inimigo seu, sentenciou a seu favor, porque lhe achou justiça. A um, que lhe tocou neste ponto, mostrando admirar-se de sua inteireza, respondeu: “Que tem a minha ofensa particular com o meu ofício público?”.

Conclusão: [...] E isto é o que o Papa Inocêncio III chamou de inclinar a justiça ao espírito, em vez de inclinar o espírito à justiça: Vos o Judices non attenditis merita causarum, sed merita personarum... non quod ratio dictet, sed quod voluntas affectet; non quod jus sentiat, sed quod mens capiat: non inclinatis animum ad justitiam, sed justitiam inclinatis ad animum [“Vós oh juízes, não julgueis o mérito das causas, mas o mérito das pessoas... não o que a razão dita, mas o que a vontade quer; não o que a lei entende, mas o que a mente compreende; não inclineis o espírito para a justiça, mas a justiça para o espírito. “] E é o que respectivamente fizeram os heresiarcas nas matérias do que se havia de crer, que uma vez que a verdadeira Fé repugnava os seus depravados costumes inventaram outra fé, que concordasse com eles. Porque todas as vezes que a razão milita contra a paixão - quem não quer largar esta, nem ser repreendido por aquela - faz por entender que a sua paixão é a razão[5].

Referências editar

  1. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio (versão 5.0, corresponde à 3ª. edição, 1ª impressão da Editora Positivo. Edição de Positivo Informática Ltda, 2004, verbete "silva".
  2. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 3.0. Editora Objetivo Ltda, 2009,verbete "silva".
  3. BLUTEAU, D. Rafael (clerigo regular, doutor na sagrada theologia, pregador da rainha de Inglaterra Henriqueta Maria de França, e Calificador no sagrado Tribunal da Inquisição de Lisboa). Vocabulario portuguez, e latino, aulico, annatomico, architectonico, bellico, botanico, brasilico, comico, critico, chimico, dogmatico, dialectico, dendrologico, ecclesiastico, etymologico, economico, florifero, forense, fructifero, geographico, geometrico, gnomonico, hydrographico, homonymico, hierologico, ichyologico, indico, isagogico, laconico, liturgico, lithologico, medico, musico, meteorologico, nautico, numerico, neoterico, orrographico, optico, ornithologico, poetico, philologico, pharmaceutico, quidditativo, qualitativo, quantitativo, rethorico, rustico, romano, symbolico, synonimico, syllabico, theologico, terapeutico, technologico, uranologico, xenophonico, zoologico. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de JESU, 1712, vol. 7, verbete "silva".
  4. BERNARDES, Padre Manuel. Nova floresta ou Sylva de varios apophthegmas e ditos sentenciosos, espirituaes e moraes com reflexoens, em que o util da doutrina se acompanha com o vario da erudição, assim divina, como humana. Lisboa: Na officina de Joseph Antonio da Sylva, 1726-1728, tomo 5,tít. X, dit. LXVII, p. 455-456.
  5. BERNARDES, Padre Manuel. Nova floresta ou Sylva de varios apophthegmas e ditos sentenciosos, espirituaes e moraes com reflexoens, em que o util da doutrina se acompanha com o vario da erudição, assim divina, como humana. Lisboa: Na officina de Joseph Antonio da Sylva, 1726-1728, tomo 5, tít. X, dit. LXV, p. 452-453.

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