O Carvalhal É Nosso

"O Carvalhal É Nosso" é uma canção popular da Serra da Gardunha e retrata os conflitos entre o povo do Souto da Casa e a família Garrett no final do século XIX.[1][2][3][4][5][6] A Tomada do Carvalhal também reconhecida como o primeiro grito de liberdade em Portugal.[5][7]

Contexto históricoEditar

 
Brasão da freguesia de Souto da Casa

A 13 de fevereiro de 1890, o povo labrego de Souto da Casa proclamou-se em revolta contra a casa senhorial mais poderosa da Beira Baixa, a família Garrett.[1][2][3][4][5][6][7] O motivo deveu-se à tentativa de apropriação de uns baldios do Carvalhal que estavam há muitos anos sob administração popular e de impedir os arraianos de cultivar essas terras.[1][2][3][4][5][6][7]

O senhor Garrett era representado no Souto da Casa pelo seu feitor chamado António Antunes Aquém.[1][3][4][6][8] O senhor Aquém vinha de uma família paupérrima de guardadores de porcos que não tinha sustento.[1] A tradição não explica o motivo do senhor Garrett ter escolhido ao senhor Aquém para ser o seu feitor.[1]

Então, o Feitor recebeu a ordem do Garrett para comunicar às pessoas que desde esse momento os camponeses teriam de pagar para trabalhar nas terras do Carvalhal.[1][3] A ordem foi muito contestada e desafiada pelo que o nobre disse que aprovaria, se preciso, matar.[1]

Um dia, no Carvalhal, um pântano que D. Dinis decidiu mandar plantar carvalhos e soutos.[1] Este lugar é composto por duzentos hectares das ditas árvores situado a meia hora do Souto da Casa, tendo de superar um terreno penoso para chegar lá .[1] Todas as quartas-feiras de cinzas, o povo agregava-se para distribuir hortas miúdas, que cada família cultivava à vontade do freguês.[1] Quando Aquém reparou nesta praxe, decidiu saber de quem eram estas terras.[1] Depois de ter investigado, conferiu que os baldios do Carvalhal não eram de ninguém.[1]

Aquém decidiu então comunicar ao povo que tinha de deixar o Carvalhal pois era propriedade do senhor Garrett.[1] A arraia face àquele desafio reagiu violentamente afirmando que as terras eram suas.[1] Ao ser enfrentado, o Feitor dispôs-se a disparar, porém, tendo visto que não tinha munições para tanta gente, ameaça os camponeses de que se eles continuassem nessas terras ele havia de responder com brutalidade.[1]

Por várias semanas são feitas muitas ameaças e chantagens.[1] Até que na tarde de 12 de fevereiro de 1890, Garrett vem com um regimento armado a obrigar ao populacho abandonar a propriedade dos Garrett.[1] Tal como combinado, os sinos da igreja tocaram.[1] Esse era o sinal que dava a ordem de reunião dos revoltosos, a arraia saiu em massa e obrigou Aquém a bater em retirada.[1]

A povoação entra por cerca de duas semanas numa estado anárquico.[1] Esta situação acabou quando na madrugada de 26 de fevereiro, o Feitor e a sua tropa chegaram ao Carvalhal, destroçaram as hortas e os castanehiros que eram o sustento das gentes.[1][4] Um jovem pastor que estava lá alertou ao povo da invasão de Aquém.[1][4] Desta vez o Feitor não conseguiu fugir e foi apanhado pelos camponeses.[1] Organizou-se um tribunal popular para decidir que pena aplicar ao capturado.[1][4] Foram propostas várias penas, porém, a que prevaleceu foi a de que o Aquém tivesse de cortar um reboleiro e carregá-lo do Carvalhal até ao Souto da Casa.[1][3][4][6]

Durante o trajeto a população inquiria ao Feitor: "De quem é o Carvalhal?" mas Aquém, fiel ao seu senhor, responde sempre: "É do Dr. Garrett".[1][3][4][6][8] Passa o tempo e depois da dura travessia chega ao Souto da Casa, todos perguntam: "De quem é o Carvalhal?" e o réu da arraia, destroçado, responde: "É vosso".[1][3][4][6][8]

Posteriormente o Dr. Garrett recebeu a seguinte notificação:[1]

Perante isto, o Garrett denuncia a situação e a divisão militar da Covilhã vai até ao Souto do Casa para impor a ordem juntamente com um representante do governo.[1] As forças estatais esperavam um recebimento hostil mas foram recebidos em ambiente de festejo. O Estado, enfraquecido, não enfrentou à arraia.[1]

 
A Gardunha em abril

LetraEditar

[...][nota 1]
O fogo no mar e os peixes a arder,
larilolela e os peixes a arder.
Ó alto e ó alto quanto mais alto maior é o sal,
larilolela maior é o sal,
larilolela maior é o sal.[9]

Senhora Maria, senhora Maria,
o seu galo canta e o meu assobia,
larilolela e o meu assobia.
Eu quero, eu queria,
passar uma noite contigo ó Maria,
larilolela eu quero, eu queria,
larilolela eu quero, eu queria.[9]

No mais que o sol se ponha
acordamos de forma igual,
não há dúvida, não há vergonha que nos roube o Carvalhal.[9]

Do Manel ou do Jacinto, ou de Deus ou do Demónio,
p'ra que serve ter património se depois eu nem o sinto.[9]

De quem és tu afinal?
De quem é meu senhor, de quem é?
É meu, é teu, é do Garrett, é deste ou daquele animal,
é de todos, é de ninguém,
é do filho da mãe do Aquém,
é do Lucio, da Rita ou da Ana,
é deste ou daquele sacana.[9]

Também do sol deitado,
descansamos mesmo assim.
Não há mandão nem mandado que nos imponha não e sim.
De quem és tu afinal, de quem é meu senhor, de quem é?
Pois e tanto e tal e tal.[9]
[...][nota 2]

De quem és tu afinal?
De quem é meu senhor, de quem é?
É meu, é teu, é do Garrett, é deste ou daquele animal,
é de todos, é de ninguém,
é do filho da mãe do Aquém,
é do Lucio, da Rita ou da Ana,
é deste ou daquele sacana.[9]

Da vaidade ou da carência,
da justiça ou do proveito;
que precisam da audiência,
do ardil à falta de jeito.
Da locura ou da maldade,
do pastor da ovelhas ou do cão,
é que este homem não tem terreno mas não vive sem ter chão.[9]

De quem é o Carvalhal?!
É NOSSO![9]

Notas e referências

Notas

  1. A frase representada por [...] não foi transcrita.
  2. A frase representada por [...] não foi transcrita.

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af «De quem é o Carvalhal? 122 anos da histórica revolta popular no Souto da Casa». Diário da Liberdade. Diarioliberdade.org. Consultado em 15 de maio de 2016 
  2. a b c «Souto da Casa – «De quem é o Carvalhal?»». Capeia Arraiana - Sabugal - Guarda - Portugal. capeiaarraiana.pt. 17 de março de 2014. Consultado em 20 de maio de 2016 
  3. a b c d e f g h «DRCC - Direcção Regional de Cultura do Centro». www.culturacentro.pt. Consultado em 20 de maio de 2016. Arquivado do original em 1 de junho de 2016 
  4. a b c d e f g h i j «Diário As Beiras – Opinião – Ainda há lobos no Carvalhal». Diário As Beiras. Asbeiras.pt. Consultado em 20 de maio de 2016 
  5. a b c d «SOUTO DA CASA: CARVALHAL FAZ 125 ANOS». Rádio Cova da Beira. Radiocovadabeira.pt. Consultado em 20 de maio de 2016 
  6. a b c d e f g Pinto, Filipe Costa. Enciclopédia das Festas Populares e Religiosas de Portugal - Volume 2. [S.l.]: Lulu.com. ISBN 9789892013923 
  7. a b c «Souto da Casa comemora Tomada do Carvalhal». Jornal URBI et ORBI. urbi.ubi.pt. Consultado em 20 de maio de 2016 
  8. a b c «PressReader.com - Connecting People Through News». www.pressreader.com. Consultado em 20 de maio de 2016 
  9. a b c d e f g h i «Carvalhal é NOSSO». SoundCloud. Consultado em 21 de maio de 2016