Abrir menu principal

Wikipédia β

Quinta dos Bonecos

A Quinta dos Bonecos é uma quinta situada na Estradas das Machadas, no concelho de Setúbal.

A Quinta dos Bonecos foi construída na primeira metade do séc. XIX por Carlos O’Neill, católico irlandês pertencente a um dos clãs mais importantes da Irlanda do Norte.

HistóriaEditar

A quinta foi mandada construir, no inicio do Séc. XIX, por Carlos O'neill, o qual era o chefe titular de um ramo do clã Clanaboy da dinastia O'neill. Carlos O'neill era o filho varão do anterior titular João O'Neill, o qual havia procurado refugio em Portugal na sequência das lutas político-religiosas com os protestantes ingleses ocorridas no séc. XVIII e que terminaram com a ocupação da Irlanda do Norte pela Inglaterra.

Carlos O'Neill era comerciante, e um professo cavaleiro da Ordem de Cristo.

 
Brasão da família Mexia de Almeida

A primeira referência à Quinta dos Bonecos na conservatória do registo predial data de 24 de Abril de 1906 favor de Carlos Thomas Torlades O’Neill, por óbito de sua mãe D. Adelaide Carolina Constança O’Neill, sendo que em 26 de Maio de 1912 é arrematada, em hasta pública, a favor de José Alves Cabral Sacadura pelo valor de cinco contos e cem reis. Vem a ser herdada pela sua filha Maria do Carmo Cabral Sacadura Mexia de Almeida, vindo a ser posteriormente herdada pelos seus seis filhos, permanecendo dessa forma por mais de 110 anos na posse da familia Mexia de Almeida, a qual adicionou o seu brasão de armas à fachada da casa principal. Pertence actualmente à família Brardo Rodrigues e Modesto.

Um dos aspectos históricos mais relevantes da Quinta dos Bonecos é o facto de nela ter vivido pelo espaço de um mês, a convite de Carlos O’Neill, o muito célebre escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, aquando da sua visita a Portugal em 1866 [1]. Este refere, no seu livro <<Visita a Portugal>> que são os muitos bustos, estatuetas e vasos que deram o nome à quinta e salienta a paz e tranquilidade que aí se vive[1] [2][3].

A visita de Hans-Christian AndersenEditar

Durante a sua visita a Portugal em 1866, o escritor dinamarquês Hans-Christian Andersen passou um mês de férias em Setúbal, a convite de Jorge O'Neill. Assim, de 8 de junho a 9 de julho instalou-se na acolhedora Quinta dos Bonecos, morada de Carlos O‘Neill, irmão Jorge e José. Em Setúbal, o seu irmão Carlos (1846-1917) esperava o convidado na recém inaugurada estação da cidade[2]. Andersen ficou hospedado na Quinta dos Bonecos, a partir de onde costumava passear até vários pontos da cidade e da região[2]. O jardim do convento de Brancanes, à época semi-abandonado, o castelo de Palmela, um convento abandonado numa das colinas cercanias de Palmela (convento de S. Paulo?), a serra de S. Luís, as festas de S. António com as típicas fogueiras no meio das ruas, uma tourada no dia de S.Pedro, a igreja de Jesus e um passeio de barco pela costa da Arrábida uma visita às ruínas de Troia, que Andersen chama de 'a Pompeia portuguesa'[2]. De realçar que Hans-Christian Andersen menciona o consulado dinamarquês em Setúbal em frente ao velho forte (o baluarte da Conceição, ou comummente conhecido como Quartel de Infantaria 11). Os O'Neill, à época, segundo Andersen, seriam cônsules honorários da Dinamarca.

Características principaisEditar

Localizada num terreno muito dobrado, que apresenta desníveis bruscos e muito acentuados, sobranceira à estrada nacional N10 na sua saída para Azeitão, diante do Convento de Brancanes, desfruta de boa vista sobre Setúbal e os seus arredores no lado Norte.

O corpo do edifício principal defende, no Inverno, o jardim fronteiro dos ventos frios do Norte, e de Verão das fortes nortadas do litoral atlântico, contribuindo para criar um microclima muito agradável.

Segundo os autores de <<Quintas de Setúbal>>[3] a casa dos Bonecos constitui <<(...) a residência de quinta do séc. XIX mais sumptuosa da região...>> tendo a sua construção seguido o padrão da Quinta da Saboaria situada no extremo poente da Av. Luísa Todi pelo que as suas fachadas são muito semelhantes. Ambas foram, aliás, mandadas construir por Carlos O´Neill.

Seguindo ainda a descrição dos mesmos autores <<(...) Um corpo central, de frontão triangular, mais elevado que o restante imóvel, comporta-se como eixo de simetria a partir do qual se desenvolvem dois longos corpos laterais com dois pisos cada. Embora de ritmo uniforme, a fenestração anima a fachada, acentuando o alongamento e monumentalidade. A imponência deste edifício é servida por um jardim organizado em patamares, romântico, ensombreado, com dupla escadaria de pedra e onde não falta uma <<gruta>> revestida pela técnica do embrechado[4]…>>


  1. Andersen, Hans Christian (1870-01-01). In Spain & a Vist to Portugal. [S.l.]: Hurd  Verifique data em: |ano= (ajuda)
  2. a b c Andersen, Hans-Christian. (1972 [Edição Inglesa].). A Visit to Portugal. 1866. London: Peter Owen Limited. pp. 37–55  Verifique data em: |ano= (ajuda)
  3. SOARES, Joaquina; TAVARES DA SILVA, Carlos. Quintas de Setúbal: Valores Culturais. Setúbal: Centro de Estudos e Defesa do Património Histórico do Distrito de Setúbal, 195, pg. 17.
  4. Soares de Albergaria, Isabel. «Os Embrechados Na Arte Portuguesa dos Jardins» (PDF)