Xilogravura

técnica de gravura na qual se utiliza madeira como matriz
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Xilogravura é a técnica de gravura em madeira. Etimologicamente, xylon (do grego) significa madeira; xilogravura seria, então, impressão sobre um suporte qualquer, tendo como matriz a madeira gravada.[1]

Cena 9 Baal de Bertold Brecht-Hermann Scherer

Ela foi muito importante em diversas áreas ao redor do mundo por ser uma das primeiras formas de impressão, assim facilitando a popularização de informação, arte, etc.

É uma técnica em que se entalha na madeira, com ajuda de um instrumento cortante, a figura ou forma (matriz) que se pretende imprimir. Após este procedimento, usa-se um rolo de borracha embebida em tinta, tocando só as partes elevadas do entalhe. O final do processo é a impressão em alto relevo em papel ou pano especial, que fica impregnado com a tinta, revelando a figura. Entre as suas variações do suporte pode-se gravar em linóleo (linoleogravura) ou qualquer outra superfície plana. Além de variações dentro da técnica, como a "xilogravura de topo".[1]

História editar

Sua origem encontra-se ligada à impressão sobre tecido, tendo sido praticada pelos egípcios, pelos indianos e pelos persas, tendo também sido encontrada na América pré-colombiana, na China e no Japão. Mas a xilogravura só vai encontrar seu suporte mais característico mais tarde, com a invenção do papel. O conhecimento dessas origens é importante para se avaliar posteriormente a evolução da xilogravura, pois da origem da escrita com penas de aves sobre o pergaminho se criou toda uma linguagem de gravura linear, onde as sombras e meios-tons foram tratados através de hachuras lineares.[1]

É geralmente aceita entre os estudiosos a hipótese de que a xilogravura resultou da associação da técnica de estampagem de cartas de baralho (impressas inicialmente em tecidos ou em pedaços de madeira, segundo tradição na ínaia; com o suporte “papel” inventado na China. A data de origem, no entanto, continua um mistério. Supõe-se ser contemporâneo à criação das grandes embarcações, para aplacar o tédio dos marinheiros em viagens longas.[1]

Xilogravura no Brasil editar

História da Xilogravura no Brasil editar

 
Gravura de cordel mostrando Comadre Fulozinha segurando um cipó de urtiga, um vaqueiro nordestino espantado e seu cachorro. Numa noite de lua minguante no sertão. Gravura por Victor G. Maia.

A xilogravura enquanto técnica de fazer da madeira o suporte de talhes e escavações, transformando-a em matriz a ser entintada e pressionada para a obtenção da cópia chegou ao Brasil com a tipografia, no início de século XIX. Em 1808, a Corte portuguesa se estabeleceu no Rio de Janeiro, trazendo na bagagem a maquinaria para a Impressão Régia e logo se interiorizaria atingindo o Nordeste em meados do século quando, segundo Sodrê, "todas as províncias passaram a ter seus prelos".[2]

A interiorização foi fundamental para o surgimento do folheto de cordel, impresso que partia de um cânone oral, de forte divulgação no Nordeste brasileiro. Esta Indústria Cultural popular, na antecipação do conceito frankfurtiano de Adorno e Horkheimer e sua recontextualização sertaneja, passou a recorrer à xilogravura para a elaboração de capas dos folhetos de feira, o que evidenciou o aspecto de encomenda e deu argumentos para os que defendem este viés utilitário que vai marcar toda a trajetória desta manifestação de cunho popular. Só muito tempo depois Benjamin escreveu sobre a reprodutibilidade da arte, o que abriu a possibilidade para que a xilogravura pudesse ser vista como permanência e atualização de uma expressão que vinha da Idade Média e que se reatualizava de acordo com novas influências e condições, no contexto de uma sociedade agrária, pré-industrial e por isso tida como arcaica, atrasada ou tradicional.[2]

A leitura pretende um recorte que implica uma visão diacrônica da xilogravura e de sua passagem do mero recurso tipográfico para uma manifestação artística que se baseia na recriação do universo mítico popular e nordestino, na apropriação de influências massivas e na abertura de um mercado que implica que ela teria ganho um novo estatuto, o de manifestação estética.[2]

A Xilogravura como obra de arte editar

Tornou-se impossível manter a xilogravura confinada às capas dos folhetos. Os novos artistas que se dedicaram a esta técnica como suporte de manifestações criativas passaram a querer contar com espaços mais generosos e a contestar os rígidos limites da encomenda, onde, apesar da possibilidade da inventiva, estavam sujeitos a uma pauta e restritos a determinado repertório de signos que souberam, aliás, trabalhar com equilíbrio e ousadia. Foi quando se deu a interferência direta da Universidade de Ceará, no início dos anos 60. O Reitor Martins Filho havia sido, quando adolescente, tipógrafo no Cariri cearense, onde nascera e com a criação do Museu de Arte, em 1961, fez com que a ideia de estimular a xilogravura passasse da teoria à prática.[2]

Esta interferência se deu em dois sentidos. Primeiro, na recolha dos tacos que serviram como capas de folhetos, adquiridos para formar um dos maiores e mais valiosos acervos brasileiros neste campo, com mais de 400 matrizes catalogadas. Este ímpeto colecionador da Universidade ainda hoje não foi de todo compreendido e assimilado por muitos xilógrafos. Mas essa interferência, de certo modo autoritária, preservou um verdadeiro tesouro da criação popular, apesar das objeções que possam ser levadas em relação aos equívocos da atitude. As peças foram, literalmente, museificadas e retiradas do circuito popular, onde cumpriam uma função estética e mercadológica, em termos de atrativo de embalagem e síntese do conteúdo do folheto ao qual serviam de capa.[2]

Xilogravura Oriental editar

 
A Grande Onda de Kanagawa, mais conhecida simplesmente como A Onda é uma famosa xilogravura do mestre japonês Hokusai, especialista em ukiyo-e. Foi publicada em 1830 ou 1831 como a primeira pintura na série Trinta e seis vistas do monte Fuji, sendo a obra mais conhecida do artista.

A xilogravura é bem antiga no Japão. Desde o século XIII, foi utilizada para imprimir letras. A partir do século IX, imprime também as imagens sagradas budistas, chegando a produzir obras primorosas no século XV. A xilogravura com motivos profanos aparece no início do século XVII, como ilustrações dos livros popularescos impressos que surgem na mesma época. As guerras civis travadas entre os senhores feudais durante mais de 200 anos cessam nos fins do século XVI e o século XVII marca o início de um longo período de paz que perdura até os meados do século XIX, sob a égide do xogunato ou governo militar da família Tokugawa. As atividades econômicas se desenvolvem rapidamente, o que provoca um verdadeiro florescimento cultural, tanto nas letras quanto nas artes. O anteriormente mencionado surto de livros popularescos impressos fez parte desse fenômeno cultural.[3]

Xilogravura Ocidental editar

No Ocidente, durante a Idade Média, a xilogravura se tornou uma forma de arte muito difundida e desempenhou um papel importante na disseminação de informações e na criação de imagens. Ela permitiu a reprodução em massa de textos e ilustrações, tornando-se uma ferramenta essencial para a propagação de ideias e conhecimentos.[4]

Ela encontrou seu lugar em diversas áreas, incluindo a produção de selos. Esses eram amplamente utilizados como forma de autenticação e identificação, e a xilogravura proporcionava uma maneira eficiente de criar selos com detalhes precisos e imagens distintas. Esses selos eram utilizados em documentos oficiais, cartas, contratos e em diversas transações comerciais.[4]

Nos séculos XIV e XV circulavam livremente duas Bíblias na Europa: a Vulgata, uma bíblia em Latim e a Bíblia Pauperum, uma edição ilustrada, com pouco texto, destinada aos que não sabiam ler; um dos primeiros incunábulos ilustrados impressos na Europa, de autoria anônima e data de aparecimento estimada por volta de 1460. Este livro foi impresso artesanalmente na técnica da Xilogravura. Grande divulgador da Doutrina Cristã na Idade Média, cópias permaneceram conservadas até a atualidade.[5]

A palavra pauperum está declinada no genitivo plural, e nesse caso é o complemento para o nome Bíblia. Biblia Pauperum, portanto, significa “Bíblia dos pobres”, o que em realidade ela era, em muitos sentidos. Em cada uma de suas folhas, a redação do texto escrito, provavelmente retirada da Vulgata, era limitada a uma parcela ínfima do texto; a parcela maior da folha cabia às imagens. A Bíblia visava ajudar os monges itinerantes e clérigos mais desfavorecidos, econômica e intelectualmente, a converter fiéis para o cristianismo.[5]

Materiais e técnicas da xilogravura editar

Materiais editar

 
Usando uma goivadora manual para cortar um desenho de xilogravura em madeira compensada japonesa. O desenho foi esboçado a giz em uma superfície pintada de compensado.

Os materiais necessários para a impressão de xilogravura são tinta, rolo de tintagem, solvente, espátula, faquinha, talco, sendo indispensável que haja no atelier uma base ou mesa para de tintagem onde a tinta é retirada da lata e esticada sobre esta superfície, geralmente de vidro ou mármore. Fora isso é necessário o uso de madeiras para a gravação, indicadas madeiras macias, e um bom lápis grafite para indicar na madeira onde serão as gravações.[6]

Atualmente são mais utilizadas tintas especificas para xilogravura. Tintas gráficas, à base de óleo são em geral mais indicadas para quem quer trabalhar com xilogravura mais à fundo. O resultado da impressão com essas tintas é muito mais rico em termos de tons, cores e transparências, além de possibilitar uma maior captação dos detalhes da gravação e dos veios da madeira.[6]

Tintas editar

As tintas são materiais geralmente líquidos ou pastosos constituídos de pigmentos, resinas, solventes e aditivos. Pensando na minimização de resíduos, ou seja, importante atitude diante do desenvolvimento sustentável, podemos usar como componentes de tintas substratos antes descartáveis e/ou alternativos. Como alternativas para os pigmentos seriam o uso de folhas, flores, grãos, líquens, cascas de árvore, beterraba, frutas, erva-mate, carvão, pó de café, hena, giz de lousa, giz pastel seco e/ou oleoso, anil, cinzas de fumo, alcatrão, gesso ou pó de toner. Para extração de alguns pigmentos, principalmente os de cascas e folhas de árvores, a extração é feita com água fervente. E como solventes podemos usar água, leite, urina, betume, terebintina. A fim de preparar tintas para xilogravuras os componentes básicos das tintas foram selecionados com a finalidade de obter uma viscosidade adequada.[4]

Exemplos dessas tintas naturais são Tinta de terra, Tinta de fezes de lagartas de borboleta e pulgão, Tinta de Giz de Lousa, Tinta de café, espinafre e urucum, Tinta de Urucum Tinta de Beterraba. As impressões de xilogravuras realizadas com estas tintas artesanais resultaram em texturas e cores em tons pastéis. Notamos que faz-se necessária a utilização de fungicidas. Entretanto, a utilização de fungicidas naturais como vinagre e limão, apesar de cumprirem com a função de fungicidas, desequilibram o pH do papel. Concluímos que as tintas artesanais produzidas com materiais orgânicos podem ser uma ótima opção para encontrarmos novos resultados com diferentes cores e texturas nas impressões feitas na Xilogravura. Além disso, a fabricação artesanal das tintas permite novas descobertas, além da inclusão e do reaproveitamento de materiais que foram descartados, o que nos coloca com uma postura ecológica diante dos descartes que são realizados na atualidade.[4]

Técnicas editar

A técnica usada na xilogravura consiste no entalhe de uma imagem em um bloco de madeira macia, que é posteriormente entintado para imprimir a imagem repetidamente em papel, tecido ou outros materiais.[6]

Ver também editar

Referências editar

  1. a b c d Hashimoto, Madalena Natsuko (1992). «Desenvolvimento histórico da xilogravura no Japão em confronto com o desenvolvimento da gravura na Europa». Estudos Japoneses (12): 75–89. ISSN 2447-7125. doi:10.11606/ej.v0i12.142617. Consultado em 5 de junho de 2023 
  2. a b c d e Carvalho, Francisco Gilmar Cavalcante de (1995). «Xilogravura: os percursos da criação popular». ISSN 0020-3874. Consultado em 1 de junho de 2023 
  3. Suzuki, Teiiti (1988). «Origem e desenvolvimento da xilogravura Ukiyo-e». Estudos Japoneses: 93–98. ISSN 2447-7125. doi:10.11606/ej.v8i0.142817. Consultado em 5 de junho de 2023 
  4. a b c d Barboza, Diego Henrique; Pohmann, Ângela Raffin (2015). «Tintas artesanais para uso na xilogravura.». Seminário de História da Arte - UFPel (5). ISSN 2237-1923. Consultado em 1 de junho de 2023 
  5. a b Rosa, Cintia Maria Falkenbach (7 de novembro de 2016). «A Adoração dos magos na Biblia Pauperum». Revista VIS: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (2): 301–317. ISSN 2447-2484. doi:10.26512/vis.v15i2.20200. Consultado em 5 de junho de 2023 
  6. a b c Diego Henrique Barboza, Diego. «Galeria gravura xilogravura». Gravura contemporânea 

Ligações externas editar