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A Revolta das Barcas foi um levante popular, ocorrido em 22 de maio de 1959 contra o serviço hidroviário na cidade de Niterói, estado do Rio de Janeiro. A revolta, além de seis mortos e 118 feridos, resultou na depredação e incêndio tanto do patrimônio das barcas quanto da residência da família de empresários que administrava o serviço, o Grupo Carreteiro, e terminou com intervenção federal e estatização das barcas.

Revolta das Barcas ou pequena Bastilha
Estação das Barcas de Niterói.tif
Estação das Barcas de Niterói, sem data. Arquivo Nacional
Período 22 de maio de 1959
Local Niterói
Resultado Falência da empresa concessionária e estatização das barcas (até 1998)
Causas greve dos marítimos das barcas Rio- Niterói
Características pilhagem e incendiamento
Participantes do conflito
Grupo Carreteiro Governo do Rio de Janeiro Populares
Baixas
6 mortes e 118 feridos

Índice

Contexto históricoEditar

À época, bem antes da existência da Ponte Rio-Niterói, o único serviço de transporte entre Niterói (então capital do estado) e Rio (então capital do Brasil) eram as barcas, que levavam aproximadamente cem mil passageiros por dia, quase metade da população niteroiense de então.

O Grupo Carreteiro, ou Carretero em seus documentos primitivos, é originado em um empreendimento da família de imigrantes espanhóis de mesmo sobrenome, cuja existência remonta até a Batalha das Navas de Tolosa, no século XI. A família controlava o serviço e solicitava constantemente apoio financeiro do governo para cobrir os gastos, alegando prejuízo. Porém, o governo negava maiores subsídios, sob a acusação de que o Grupo prestava falsas informações sobre seus gastos, com suspeitas de que a empresa gastava menos da metade do que exigia. Tais suspeitas eram reforçadas pelas aquisições de fazendas e outros tipos de propriedades pela família Carreteiro, fatos notados pela população.

Além disso, as mobilizações sindicais no Brasil, que incentivavam trabalhadores e trabalhadoras a se organizar, eram crescentes. Nesse cenário, o Sindicato dos Marítimos e Operários Navais paralisava o trabalho com frequência. Essas paralisações eram usadas pelo Grupo Carreteiro como justificativa para novos aumentos tarifários.

A greve dos marítimosEditar

Na noite de 21 de maio de 1959, o sindicato entrou em greve mais uma vez, de surpresa, reivindicando melhores condições de trabalho e organização para os cerca de quatro mil funcionários da empresa. Com a greve, as Forças Armadas foram encarregadas de administrar provisoriamente as viagens entre Niterói e o Rio, desde a condução até a organização das filas. Foram utilizadas duas embarcações especiais para tal, denominadas "avisos", que, porém, tinham capacidade reduzida.

A revoltaEditar

Com o serviço reduzido e, logicamente, sem dar vazão à demanda, a população começou a se aglomerar na Praça Martim Afonso (atual Arariboia), e o desconforto e o atraso foram aumentando a tensão local. Para piorar, os fuzileiros navais que tentavam "organizar" a fila — então um grande aglomerado — começaram a agir com truculência, aumentando o descontentamento e a agitação.

Quando um dos militares resolveu dar coronhadas nos passageiros, uma pedra foi lançada contra uma vidraça das barcas, e a resposta dos fuzileiros foi uma rajada de tiros para o alto, o estopim da fúria popular.

Iniciou-se um quebra-quebra pela estação das barcas, que foi incendiada e teve a frota destruída. Os móveis da estação e pedaços das embarcações foram arremessados na rua e incendiados. A revolta seguiu, com a população em marcha para a Rua São João, onde ficava o escritório da empresa, igualmente invadido e destruído, com papéis e móveis sendo arremessados da janela e ateados em chamas.

Por fim, os revoltosos marcharam em direção à residência dos Carreteiro no bairro Fonseca, a três quilômetros do foco da revolta. A casa foi incendiada, os pertences, destruídos, e os móveis caros, arremessados do telhado. No fim, encontrou-se escrito em uma parede: "Aqui jazem as fortunas do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo."

No dia seguinte, a situação já estava sob controle, e o governo brasileiro assumiu o controle das barcas, estatizadas.

A revolta, o vandalismo e a luta entre populares e militares resultaram em seis mortos e 118 feridos. Alguns periódicos compararam o episódio à Revolução Francesa, chamando Niterói de "uma pequena Bastilha". Segundo Maria da Conceição Vicente de Almeida, utilizando a análise de Roberto DaMatta, o que houve também foi uma espécie de carnavalização da revolta, pois ao adentrarem na residência dos Carreteiros, os manifestantes usaram as joias, roupas e perfumes das mulheres dos empresários, carregando na atitude um simbolismo da luta contra o grupo que, naquele momento, representava ser o inimigo do povo. "Nessa carnavalização, o povo ridicularizou e usufruiu, mesmo que momentaneamente, do luxo adquirido em um curto período de tempo pelos empresários das barcas". De acordo com o então governador do estado Roberto Silveira, do PTB, político bem relacionado com a UDN e considerado sucessor de João Goulart na liderança do PTB: "Tudo o que o povo fizer está correto. O povo quando faz, sabe o que está fazendo". Na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, discursos inflamados contra o Grupo Carreteiro e os maus serviços prestados se tornaram frequentes, muitos conclamando a população e sindicalistas à violência, especialmente nos dias que antecederam a Revolta. Logo após o levante, a situação já estava sob controle e o governo brasileiro, em um processo rápido, estatizou o serviço. A família Carreteiro era, então, considerada uma das forças políticas mais influentes de Niterói. O patriarca da família, Jose Carreteiro, faleceu vítima de um infarto fulminante no mesmo dia da Revolta.

ReferênciasEditar

  • Jornal A Tribuna (Niterói), edição de 22 de maio de 2009
  • Acervo O Globo - Fotogaleria([1])
  • CMI Brasil ([2])
  • Jornal do Brasil - edição de 23 de maio de 1959 (Google News Archive)
  • Rádio Agência Nacional ([3])
  • Brasil Escola ([4])