Alcíone

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Alcíone (do grego Ἁλκυόνη) era filha de Éolo, filho de Heleno[1]. Era casada com Ceix, filho de Eósforo[2].

Alcíone, por Herbert James Draper

Versão de Pseudo-Apolodoro e VirgílioEditar

Nas versões do mito perfilhadas por Pseudo-Apolodoro e Virgílo, esta narrativa trata-se de um conto moral e de escarmento sobre a húbris sacrílega dos mortais ante os deuses.[3] Nesta versão da lenda, Ceix teria proferido que era Zeus e que Alcíone era Hera; por causa disso, Zeus puniu-os, transformando-os em pássaros: Alcíone num guarda-rios e Ceix num ganso-patola.[2]

Versão de Ovídio e HiginoEditar

Na versão deste mito contada por Ovídio, Ceix e Alcíone são um humilde casal de apaixonados, que se viu apartado pelos desmandos do mar. Ceix, marinheiro, ao arrepio dos rogos da esposa, Alcíone, parte numa perigosa viagem marítima, rumo a Claros, na Jónia, para consultar o óraculo. No entanto, a travessia marítima termina em tragédia, vitimando-o num naufrágio, durante uma violenta tempestade. [4][5]

Alcíone, cumprindo o arquétipo de saudosa esposa de marinheiro, espera-o em vão, todos os dias junto à praia, até que certo dia dá com o seu cadáver a boiar ao capricho das ondas. Galgando sobre as águas, para alcançar o corpo do marido, Alcíone dá por si convertida em ave. Os deuses, comovidos com o infortúnio dos amantes, transformaram-na em ave marinha, bem como a Ceys, a quem restituiram a vida.[4]

 
Alcíone debuça-se sobre o cadáver de Ceix, baixo-relevo de mármore, presentemente em Lotherton Hall

Higino, nas suas «Fábulas» subscreve a esta versão do mito, adscrevendo, ainda, um episódio da vida do casal, já enquanto aves-aquáticas, mais concretamente alciões.[6][7] Reza a lenda, então, que quando Alcíone e Ceix estavam a nidificar, a calema das ondas na praia ameaçava destruir-lhes o ninho. Éolo, compadecendo-se do casal, serenou o mar durante sete dias, coibindo os ventos de soprar junto à costa.[8] A estes sete dias, que compreendem o dia mais curto do ano, os gregos alcunhavam de «dias do alcião», acreditando que durante esse período não haveria tempestades junto ao mar. Em sentido figurado, a locução chegou a ser usada por poetas para significar períodos de acalmia e tranquilidade.[9][10]

Relevo para o folclore portuguêsEditar

Há estudiosos, como por exemplo, Júlia Tomás, no seu «Ensaio sobre o Imaginário Marítimo dos Portugueses», que advogam que há uma ligação entre este mito grego e o mito do alma-de-mestre do imaginário popular do folclore português.[4]

O mito português do "alma-de-mestre" narra que as almas dos capitães dos navios, que tenham morrido em naufrágios, sem receber um enterro cristão, assumem a forma de aves marinhas, por antonomásia o Hydrobates pelagicus, cujo nome comum é «alma-de-mestre». As almas errantes destes capitães naufragados, assombram os marinheiros incautos, com o seu piar melancólico, enquanto os seus cadáveres arribem junto à costa e lhes seja dado uma sepultura condigna. [11]

Espécies crismadas com este nomeEditar

  • Há inúmeras variedades de guarda-rios que são designadas com nomes alusivos a este casal:
    • O genus Ceyx, em honra de Ceix
    • A família de guarda-rios Halcyonidae, em honra de Alcíone, bem como o genus Halcyon.
    • O nome latino do Guarda-rios Cintado[12][13] (Megaceryle alcyon) também é uma alusão a Alcíone.
 
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Referências

  1. Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, 1.7.3 [em linha]
  2. a b Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, 1.7.4
  3. «P. Vergilius Maro, Georgics, Book 1, line 393». www.perseus.tufts.edu. Consultado em 14 de dezembro de 2020 
  4. a b c Tomás, Júlia (2003). Ensaio sobre o Imaginário Marítimo dos Portugueses. Braga: CECS. p. 11  «Ceys e Alcíone (contado por Ovídio), um casal extremamente apaixonado. Ceys decidiu um dia partir à descoberta dos mares, não obstante o amor profundo que tinha por Alcíone que chorou e implorou para que o marido não partisse. Em vão. Na mesma noite em que Ceys embarcou, uma tremenda tempestade causou o naufrágio do barco e ele morreu afogado. Alcíone, que esperava o marido na praia, viu o seu cadáver flutuar nas águas e correu na sua direção. E em vez de correr, começou a voar sobre as ondas: tinha sido transformada em pássaro. Os deuses, comovidos pela dor da mulher, transformaram o cadáver de Ceys num pássaro marinho. O amor unira-os outra vez.»
  5. «The Metamorphoses». web.archive.org. 19 de abril de 2005. Consultado em 14 de dezembro de 2020 
  6. «HYGINUS, FABULAE 50-99 - Theoi Classical Texts Library». www.theoi.com. Consultado em 14 de dezembro de 2020 
  7. S.A, Priberam Informática. «Consulte o significado / definição de alcião no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o dicionário online de português contemporâneo.». dicionario.priberam.org. Consultado em 14 de dezembro de 2020 
  8. «bibliotheca Augustana». www.hs-augsburg.de. Consultado em 14 de dezembro de 2020 
  9. Palazzi, Fernando (1954). Piccolo dizionario di mitologia e antichità classiche. Milano: Edizioni Scolastiche Mondadori. ASIN B00HFX6SDS 
  10. Roman, Luke (2010). Encyclopedia of Greek and Roman Mythology. New York: Facts on File. p. 55. 531 páginas 
  11. Leite de Vasconcelos, José (1882). Tradições populares de Portugal. Porto: Typographia Occidental. p. 164. 350 páginas  "Alma de mestre. «-Encontram - se no alto mar umas avesinhas que dão sentidissimos e largos pios , ás quaes os marinheiros puzeram o nome de almas de mestre ,crendo supersticiosamente que são as almas dos mestres ou capitães de navios que se perderam , e que andam na quelle fadario de pios , emquanto seu corpo não chega a terra , e não obtem sepultura christã-»"
  12. «Guarda-Rios-Cintado (Megaceryle alcyon)». BioDiversity4All. Consultado em 14 de dezembro de 2020 
  13. «Página de Espécie • Naturdata - Biodiversidade em Portugal». Naturdata - Biodiversidade em Portugal. Consultado em 14 de dezembro de 2020 
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