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Theatrum Orbis Terrarum

“Alegoria” é uma figura de linguagem que apresenta um significado além do literal, ou seja, que representa um conceito de forma indireta. A Alegoria dos Continentes, portanto, é uma forma de representação alegórica de gravuras e ilustrações que expressam algumas características, geralmente estereotipadas, de quatro continentes – América, África, Ásia e Europa. Vale ressaltar que no século XVI, quando essa forma de representação foi criada, a Oceania ainda não era reconhecida como um continente. As alegorias, que representavam a visão europeia, criaram uma hierarquia dos continentes que estruturou os estereótipos étnicos europeus no período da expansão oceânica e serviram para justificar algumas formas de discriminação e segregação. Essa hierarquização foi influenciada pela experiência colonial que a Europa viveu ao longo do século XVI e que, através de tratados geográficos e relatos de viagens, alimentou muitos preconceitos étnicos que perdurariam por muito tempo, como a selvageria dos povos da América em contraste com a ordem e civilidade dos povos europeus – não raro, os outros continentes são representados como subservientes à Europa. Essa forma de representação teve início no século XVI, tornando-se mais comum nos séculos XVII e XVIII. A primeira grande referência pode ser encontrada no livro Theatrum Orbis Terrarum, de Abraham Ortelius.

Índice

AlegoriasEditar

EuropaEditar

O uso da personificação dos quatro continentes em pinturas, representações cartográficas e ilustrações de livros é intensificado nos séculos XIV a XVI graças à exploração ultramarina da Europa. A descoberta de novos territórios com as viagens de Cristóvão Colombo à América (1451-1506) e de Vasco da Gama à Índia (1469-1524) permitiu o contato com povos e culturas diferentes, o que ocasionou profundas mudanças em vários aspectos da sociedade europeia e em sua visão do mundo. O centro do mapa mundi, na cartografia, mudou de Jerusalém para o chamado “Velho Mundo”, reafirmando sua superioridade em relação aos outros continentes. Nas figuras do atlas de Abraham Ortelius (1570), a Europa é a única que está vestida, calçada e sentada; ela se encontra acima de todas as outras, com dois globos de cada lado, que representam seu domínio no campo celestial e terreno. Diversos outros símbolos estão presentes para mostrar seu poder, como o cetro em sua mão direita, a coroa imperial e as videiras crescendo em uma treliça em formato de arco para representar a fertilidade. O impacto da ilustração de Ortelius nas representações artísticas europeias no início da era moderna é profundo. O norueguês Adriaen Collaert desenhou suas próprias representações femininas a partir do trabalho de Ortellius e sua Europa está à frente de um campo próspero com agricultura e criação de gado, enquanto, ao fundo, ursos com mosquetes e lanças representam a guerra, claramente em posição elevada em relação aos outros continentes. Outra importante obra é o afresco pintado por Giambattista Tiepolo no teto do Salão da Escadaria na Residência de Würzburgo, na Alemanha, em 1753. Na pintura, a Europa é o único continente que é coroado, possui vestes ricas e com ornamentos sóbrios. O cavalo, a cruz, a música, a pintura e um canhão são elementos que representam traços positivos da cultura europeia, enquanto os outros continentes aparecem com estereótipos e símbolos de inferioridade, como a ideia de canibalismo que cerca a América.

ÁsiaEditar

A alegoria da Ásia é dividida entre os indianos, os muçulmanos, os chineses e os japoneses. Os europeus tinham preconceitos étnicos contra os hindus e acreditavam que os indianos eram "idólatras que serviam de toda variedade de ritos" [1], adoravam animais, como vacas e macacos, representando-os com braços, pernas, cabeças e caudas considerados demoníacos [2]; dizia-se também que eles eram "supersticiosos" e que "faziam venenos", além de estarem "dispostos a cometer qualquer tipo de crime" [3]. O preconceito dos europeus contra os muçulmanos começou a partir da queda de Constantinopla, capital do Império Bizantino, quando os turcos passaram a ser vistos como pessoas vis e animalescas[4], e também se devia ao “despotismo”, pela “licenciosidade” e pela “superstição” [5]. Tavernier dizia que o governo da Pérsia era puramente despótico ou tirano, que os muçulmanos eram supersticiosos por darem rédeas livres à imaginação e à malícia [6] e criticava a licenciosidade sexual por eles poderem casar com mais de uma mulher [7]. Por outro lado, não havia tanto preconceito contra os chineses e os japoneses. Gaspar da Cruz admirava os chineses e dizia que eles superavam os outros asiáticos [8], discorrendo sobre a competência da população, sendo a idolatria e a superstição seus maiores “defeitos” [9]; dizia-se também que os japoneses eram curiosos, que tinham grande capacidade de aprendizagem e que eram superiores aos indianos [10].

ÁfricaEditar

A história do príncipe Jalofo Bemoim resume a relação entre a Europa e o continente africano. Bemoim havia sido deposto do território de Senegal, “onde os portugueses comerciavam escravos e ouro” [11]; ao pedir auxílio ao rei de Portugal, D. João II, foi recebido com honrarias e conquistou o rei ao declarar vassalagem à Coroa lusitana, além de se converter ao cristianismo. Porém, em uma viagem de volta ao rio Senegal, o capitão da tripulação o matou, alegando desconfiança. Ao saber da notícia, o rei ficou revoltado, mas “não se atreveu a castigar o capitão” [11]. O episódio demonstra um ponto muito forte na cultura portuguesa em relação ao preconceito que havia na sociedade da época. A partir disso, é importante apresentar os primeiros contatos feitos com o Congo, feitos no período de 1480 – 1490. A investida portuguesa resultou na conversão dos reis congoleses ao cristianismo, seguida pela da família real, fazendo com que a expansão da fé cristã ganhasse força e causasse desavenças entre a realeza, já que alguns membros não concordavam com esse posicionamento. Ao longo do tempo, os portugueses ganharam força no território congolês, causando futuros abusos por parte dos europeus. O envolvimento com o comércio escravagista e a mudança de tratamento entre os povos foi notória ao longo dos séculos [12]. Durante as expansões da fé cristã, nas décadas de 1650 e 1660, Giovanni Antônio Cavazzi, escreveu um relato sobre o que vivenciou e suas impressões “num capítulo dedicado aos ‘defeitos naturais e morais dos habitantes’, Cavazzi proclamava estar prestes a descrever ‘coisas estranhas’, as quais ‘o barbarismo torna abomináveis’” [12]; assim, ele descreveu o que acreditava ser a cultura africana, e fez uma lista de sua leitura em relação aos costumes observados. Vale ressaltar que o canibalismo era praticado por alguns povos e extremamente criticado. Olfert Dapper, também abordou o tema, em 1668, porém em uma visão de mundo mais abrangente, reconhecendo a variedade ética do continente africano. A alegoria da África retrata o lugar do africano negro em terras europeias e sua desclassificação como alguém confiável, ou de respeito. Em sua maior parte, ele era tratado com chacota e inferiorizado.

AméricaEditar

A alegoria da América é essencialmente voltada para o canibalismo, termo que foi usado pela primeira vez por Cristóvão Colombo, em sua vinda para o “Novo Mundo”, para se referir aos costumes dos nativos americanos. Segundo ele, os indígenas possuíam "longos cabelos presos em toucadas de penas e andavam com arcos e flechas" [13]; eram também "extremamente preguiçosos" [14], desordeiros e ignorantes, além de serem considerados selvagens por andarem nus, "pintarem seus corpos para guerrear" e terem tatuagens e piercings [15]. Para corroborar o que foi dito por Colombo, Américo Vespúcio alegava que uma das comunidades indígenas vivia de carne humana e que havia visto atos de canibalismo entre os nativos com seus próprios olhos [16]. Tudo isso causava um grande impacto na Europa, levando as pessoas a terem uma visão negativa sobre os nativos americanos [16] e sobre o continente em si, até o século XX [17].

OceaniaEditar

O contexto em que as alegorias dos continentes são definidas e perpetuadas, por volta de 1570, na época renascentista, abrangia apenas quatro continentes: África, América, Ásia e Europa. O descobrimento da Oceania se dá tardiamente pelos europeus, por volta de 1770, quando o denominam “mundo novo”, e só é reconhecida como continente em 1794. Assim, no contexto em que as alegorias foram definidas e perpetuadas, ela não era considerada um continente, e por isso não é representada nas artes que compõem as alegorias.

GaleriaEditar


BibliografiaEditar

  • Bethencout, Francisco (2013), Racismos: Das Cruzadas ao século XX, ISBN 978-85-359-3046-7, Companhia das Letras 
  • Bethencout 2013, p. 126.
  • Bethencout 2013, p. 129.
  • Bethencout 2013, p. 130.
  • Bethencout 2013, p. 132.
  • Bethencout 2013, p. 133.
  • Bethencout 2013, p. 136.
  • Bethencout 2013, p. 137.
  • Bethencout 2013, p. 139.
  • Bethencout 2013, p. 140.
  • Bethencout 2013, p. 141.
  • a b Bethencout 2013, p. 87.
  • a b Bethencout 2013, p. 90.
  • Bethencout 2013, p. 107.
  • Bethencout 2013, p. 108.
  • Bethencout 2013, p. 109.
  • a b Bethencout 2013, p. 110.
  • Bethencout 2013, p. 115.