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André Álvares de Almada
Nascimento Ilha de Santiago
Cidadania Portugal
Ocupação escritor

André Álvares de Almada, natural da ilha de Santiago, em Cabo Verde, no século XVI, era um mestiço que foi capitão, comerciante, viajante e escritor tratadista[1] que, em 1598, foi recompensado com o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo[2]

Índice

BiografiaEditar

Nos finais do século XVI do capitão André Álvares de Almada, que mau grado o “defeito” de ser filho de mãe mestiça, vai atingir oficialmente os mais altos cargos militares e ter mesmo acesso a mercês honoríficas nas ordens militares tradicionais, como era a Ordem de Cristo[3][4].

Era filho do capitão Ciprião Álvares de Almada, "nobre e um dos principais daquela ilha" e de uma "mulher parda", e "neto de uma mulher preta por parte de sua mãe"[5].

Destacou-se nos anais da historiografia portuguesa da expansão porque, depois de explorar o interior da Guiné, escreveu em 1594 o Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo-Verde, desde o rio de Sanagá até aos baixos de Sant'Anna; de todas as nações de Negros q(ue) ha na ditta costa, e de seus Costumes, armas, trajes, juramentos, guerras[6]. Esta obra manuscrita foi objecto, em 1733, de uma primeira edição impressa em Lisboa, mas totalmente adulterada, tanto no título, como no texto, nas designações geográficas e até no nome do autor: Relação e descripção de Guiné na qual se trata das varias naçoens de negros, que a povoão, dos seus costumes, leys, ritos, ceremonias, guerras, armas, trajos, da qualidade dos portos, e do commercio, que nelles se faz, que escreveo o capitão André Gonçalves d'Almada, Lisboa Occidental, na Officina de Miguel Rodrigues, 1733. A obra foi, enfim, correctamente editada por Diogo Köpke, no Porto, Typographia Commercial Portuense, em 1841.

Esta obra revelou-se bastante importante para a análise de toda a área entre o rio Senegal e a Serra Leoa[7][8].

Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo-VerdeEditar

O Tratado é um clássico para o conhecimento da história de regiões e povos africanos na África Ocidental. Apresenta elementos muito valiosos para o estudo da faixa do terreno africano que compreende a Guiné do Cabo Verde na passagem do século XVI para o XVII. Almada expõe no prólogo que a intenção de sua obra é resultado de sua vontade de escrever “algumas cousas” dos Rios da Guiné do Cabo Verde porque “destas partes sabia honestamente”[9].

Esse texto é uma fonte histórica caracterizada como uma narrativa. Tal disponibiliza um rico material para apreciação, porém, há de se ter consciência de que essas passam por diversos filtros. Dessa maneira, é necessário levar em consideração que esse tipo de escrito foi produzido com o objetivo de satisfazer as ambições e compromissos de seus autores. Elas expressam uma relação triangular entre o autor, o receptor e o sujeito retratado, sendo tal relação mediada pelo primeiro.[10]

Junto a isso, enfatizou-se a leitura e análise do que Puga (2007)[11] chama de “discurso antropológico de Almada”, que consiste na narrativa do movimento dos barcos pelos rios e povoações da secção central da costa ocidental africana e na descrição dos diferentes grupos étnicos, abarcando costumes, modos de vida e crenças, entre outros elementos culturais que os distinguem entre si.

Almada constrói o texto de um ponto de vista europeu – muito embora o autor seja cabo-verdiano - recorrendo ao que Horta (2005)[12] denomina como “Poética do exotismo”[13]. Essa se define pelos recursos estilísticos e estratégias narrativas visando familiarizar o “consumidor” da obra - que está na metrópole - com o discurso sobre o exótico e a alteridade que o viajante caboverdiano encontra nas regiões contadas. Por essa razão o autor se utiliza de recursos, como o advérbio de lugar “cá” (na narrativa, é Portugal) quando compara os hábitos dos nativos com os costumes europeus e o “lá” (na narrativa é a Costa da Guiné).[14] Almada também utiliza o determinante possessivo “nossa” quando se refere à África e para aludir aos portugueses utiliza “os nossos”, enfatizando sempre, segundo interpretação de Puga (2007), o sentimento de posse, quer português quer cabo-verdiano, sobre o espaço da Guiné do Cabo Verde, vendo esse como a “África por cumprir”[15], isto é, um território a ser conquistado e colonizado.[8]

[3] Ou “esforço etnográfico” para Horta.

[6] Segundo Lopes (2003), a coroa portuguesa limitou desde muito cedo o acesso à costa da Guiné através de regulamentações precisas e criou uma administração a partir das Ilhas de Cabo Verde. Em 1466, os habitantes da Ilha de Santiago de Cabo Verde foram autorizados a negociar na costa. Ao longo do tempo, esses cabo-verdianos da Ilha de Santiago vão constituindo uma tradição de participação nos lucros do negócio de terra firme. Almada faz parte desse grupo de mercadores de Santiago que se beneficiou dessa concessão da coroa portuguesa.

[8] A atitude de Almada ao se colocar como um europeu pode ser interpretada por um conceito de Bhabha (1998), a mímica. O autor define essa como o local onde o colonizado assimila a língua, costumes, ideais, hábitos, vestimentas do colonizador, onde a cultura do « outro » invasor passa a substituir a identidade original através da representação. Assim, aquele colonizado aparenta ser algo que não é exatamente, exibindo comportamento e atitudes miméticos. O autor diz que “a mímica é, como a camuflagem, não uma harmonização ou repressão da diferença, mas uma forma de semelhança que difere da presença e a defende, expondo-a em parte, metonicamente”. A questão da presença parcial em relação ao sujeito mímico mostra a limitação, incompletude do discurso colonial, construindo uma paródia do colonizador.

Referências

  1. André Álvares de Almada (R. de), Toponímia, Câmara Municipal do Porto
  2. Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo Verde, de André Álvares de Almada, recenseador: José Manuel Garcia, 2006
  3. A fortificação em Cabo Verde nos finais do século XVI, Universidade da Madeira
  4. O capitão André Álvares de Almada, na confirmação de acesso a um hábito da Ordem de Cristo, refere que teria defendido a fortaleza de Cabo Verde - A fortificação em Cabo Verde nos finais do século XVI, Universidade da Madeira
  5. Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo Verde, de André Álvares de Almada, recenseador: José Manuel Garcia, 2006
  6. Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo Verde, de André Álvares de Almada, recenseador: José Manuel Garcia, 2006
  7. “História de Portugal – Dicionário de Personalidades”, coordenação de José Hermano Saraiva edição QuidNovi, 2004
  8. O presente livro corresponde à reedição de uma obra que em 1994 foi publicada pelo Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (com introdução, modernização do texto e notas de António Luís Ferronha) que, juntamente com a Comissão dos Descobrimentos, divulgou uma parte importante da Cultura Portuguesa, missão agora apenas mantida pela Comissão Municipal dos Descobrimentos, da Câmara Municipal de Lagos - Tratado breve dos rios de Guiné do Cabo Verde, de André Álvares de Almada, recenseador: José Manuel Garcia, 2006
  9. ALMADA, André Alvares de. Tratado breve dos rios da Guiné do Cabo Verde, desde o Rio Sanagá até aos baixios de Sant’anna. Publicado por Diogo Kopke. Porto: Typographia Commercial Portuense, 1841.
  10. HAVIK, Philip J. A dinâmica das relações de gênero e parentesco num contexto comercial: Um balanço comparativo da produção histórica sobre a região da Guiné-Bissau. Séculos XVII e XIX‖. In revista Afro-Ásia, 27 (2002), 79-120 79
  11. (PDF) http://cvc.instituto-camoes.pt/eaar/coloquio/comunicacoes/rogerio_miguel_puga.pdf  Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  12. (PDF) http://cvc.instituto-camoes.pt/eaar/coloquio/comunicacoes/jose_silva_horta.pdf  Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  13. José da Silva HORTA. “O Nosso Guiné: representações luso-africanas do espaço guineense (séculos XVI-XVII)”. Disponível no Centro Virtual Camões: http://cvc.instituto-camoes.pt/eaar/coloquio/comunicacoes/jose_silva_horta.pdf
  14. HORTA, José da Silva. A “Guiné do Cabo Verde”… cit., pp. 208. O autor afirma que o Almada se encontra em Portugal quando redige a obra.
  15. Expressão de ALMEIDA, Carlos José Duarte. In: A Representação do Africano na Literatura sobre o Reino do Longo e Angola. Faculdade de CSH da Universidade Nova de Lisboa, 1997, p. 87.

Ligações externasEditar