Cerco de Diu

O cerco de Diu foi um conflito armado entre o Império Otomano e o Império Português ocorrido em 1538, durante o qual a frota imperial otomana tentou capturar a cidade indiana de Diu, à época na posse portuguesa. A batalha terminou com a vitória de Portugal.

Primeiro Cerco de Diu
Conflitos luso–turcos (1538–1557)
Ottoman fleet Indian Ocean 16th century.jpg
Frota otomana no oceano Índico no século XVI
Data Setembro de 1538
Local Diu, Índia portuguesa
Desfecho Vitória decisiva portuguesa
Retirada otomana
Beligerantes
Flag Portugal (1521).svgImpério Português Naval Ensign of the Ottoman Empire (1453–1793).svg Império Otomano
Gujarat Sultanate Flag.gifSultanato de Guzarate
Comandantes
António da Silveira
Martim Afonso de Sousa
Hadim Solimão Paxá
Forças
600 homens (guarnição)[1]
139 navios
186 canhões
12 000 guzarates
7000 otomanos[2]
72 navios[3]
130 canhões[4]
Baixas
+560 feridos e mortos (guarnição)[5] 3000 baixas[5]

ContextoEditar

Hadim Solimão Paxá, governador do Egito Otomano, liderou várias campanhas navais no oceano Índico contra as forças portuguesas, numa tentativa de as expulsar para restabelecer as rotas comerciais com a Índia. Em 1509, teve lugar a batalha de Diu entre os portugueses e uma coligação naval da qual faziam parte o Sultanato de Guzarate, o Sultanato mameluco do Egito e os Samorim de Calecute com o apoio do Império Otomano. Desde 1517 que os otomanos tentavam unir forças com Guzarate no sentido de expulsar os portugueses do mar Vermelho e da Índia.[4] À época, Diu, a par de Surate, era um dos principais pontos de abastecimento de especiarias para o Egito otomano. No entanto, a intervenção portuguesa terminou com essa rota comercial ao controlar a navegação no mar Vermelho.[4] Em 1530, a República de Veneza não conseguia obter especiarias através do Egito.[4]

Os otomanos já tinham combatido os portugueses em Adem (1530–31), e enviado uma frota para Diu em 1531 com o intuito de repelir um cerco português à cidade liderado por Nuno da Cunha, do qual as forças portuguesas se retiraram no mesmo ano.[4] Pouco tempo depois, no entanto, o sultão de Guzarate Bahadur Xá, que estava sob ameaça do Império Mogol, assinou um acordo com os portugueses, que aproveitaram a oportunidade para construir uma fortaleza em Diu.[4] As forças portuguesas capturaram ainda a fortaleza de Gogala nos arredores,[4] e construíram a fortaleza de Diu. Uma vez desaparecida a ameaça mogol, Bahadur tentou negociar a retirada dos portugueses. No entanto, em 13 de fevereiro de 1537 o xá morreu por afogamento durante as negociações a bordo de um navio português em circunstâncias pouco claras e em que cada lado culpava o outro pela tragédia.[6] Bahadur Xá tinha também apelado aos otomanos para expulsar os portugueses, o que esteve na origem da expedição de 1538.[4]

Cerco de Diu de 1538Editar

 
XVIII}}

Hadim Solimão, governador otomano do Egito desde 1525, consegui obter a aprovação de Istambul para iniciar uma ofensiva contra as forças portuguesas.[4] Foi preparada uma frota de 80 navios, entre os quais 17 galés e 2 galeões, e construído um canal entre o rio Nilo e a cidade de Suez entre 1531 e 1532.[4] No entanto, verificaram-se atrasos devido ao cerco de Coron no Mediterrâneo e à Guerra Otomano-Safávida iniciada em 1532.[4] Adem, no Iémen, foi capturada pelos otomanos em 1538 com o intuito de servir de base para incursões contra as posessões portuguesas na costa ocidental da Índia.[4][7] O sultão de Adem, Amir ibne Daúde, um aliado dos portugueses, foi enforcado após ter sido convidado para subir a bordo dos navios otomanos e a cidade foi capturada sem recurso a cerco.[4]

A frota otomana, constituída por um total de 72 navios,[3] deixou o porto de Adem em 19 de agosto de 1538 e chegou a Diu em 4 de setembro do mesmo ano.[4] À data, foi a maior frota otomana alguma vez enviada para o oceano Índico.[3][8] A frota otomana lançou o cerco a Diu com 130 canhões e iniciou o bombardeio da cidade.[4] No entanto, pouco tempo depois circulavam as notícias de que estavam para chegar reforços navais significativos do lado português. Ao mesmo tempo, pensa-se que o novo governante de Guzarate não tenha providenciado apoio adequado durante o cerco.[4]

RescaldoEditar

Após o fracasso do cerco, os otomanos retiraram para Adem, onde fortificaram a cidade com 100 peças de artilharia.[7][9] Os otomanos também estabeleceram suseranias em Shihr e Zabid e reorganizaram os territórios do Iémen em províncias otomanas.[4]

Solimão pretendia organizar uma segunda expedição contra os portugueses em Diu, embora tal nunca chegasse a acontecer.[4] Em 1540, os portugueses lançaram em retaliação uma expedição ao mar vermelho, atacando as cidades de Suaquém e Cosseir, tendo também tentado capturar Suez com uma frota de 72 navios em 1541.[4][10] Em 1546, os otomanos estabeleceram uma nova base naval em Baçorá, o que constituía uma ameaça para os portugueses em Ormuz.[4] Em 1554, os portugueses infligiram uma pesada derrota naval aos otomanos no golfo Pérsico.[4] Os conflitos posteriores entre otomanos e portugueses levariam à Expedição otomana a Achém em 1565. O enclave de Diu só regressaria a posse indiana após a invasão de 1961.[11]

Referências

  1. Journal of the Asiatic Society of Bombay. [S.l.]: Asiatic Society of Bombay. 1922. p. 316 
  2. Sophus Ruge (1881). Geschichte des Zeitalters der Entdeckungen. [S.l.]: G. Grote. p. 195 
  3. a b c Jeremy Black (2002). European warfare, 1494-1660. [S.l.: s.n.] p. 60. ISBN 0415275326 
  4. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u Halil İnalcik. An economic and social history of the Ottoman Empire. [S.l.: s.n.] p. 324 
  5. a b John Churchill (1704). A Collection of Voyages and Travels: Some Now First Printed from Original Manuscripts. [S.l.: s.n.] p. 594 .
  6. Arthur Percival Newton. The Cambridge history of the British Empire. 2. [S.l.: s.n.] p. 14 
  7. a b Zaka Hanna Kour. The history of Aden, 1839-72. [S.l.: s.n.] p. 2 
  8. Nicola Melis (2009). «The chronicle of Lopo de Sousa Coutinho as a major source of the first siege of Diu». The Indian Ocean and the Presence of the Ottoman Navy in the 16th and 17th Centuries. Istambul: Naval Printing House. pp. 15–25 
  9. Halil İnalcik. An economic and social history of the Ottoman Empire. [S.l.: s.n.] 
  10. Francis E. Peters. Mecca: a literary history of the Muslim Holy Land. [S.l.: s.n.] p. 405 
  11. McGregor, Andrew James. A military history of modern Egypt: from the Ottoman Conquest to the Ramadan War. [S.l.: s.n.] p. 30 

Ligações externasEditar