Abrir menu principal
Cerco de Massada
Primeira guerra romano-judaica
Israel-2013-Aerial 22-Masada.jpg
Vista aérea de Massada
Data Final de 72–início de 73 (tradicional)
Final de 73–início de 74 (proposta)[1][2]
Local Massada, perto de Arad, Israel
Desfecho Vitória romana
Beligerantes
  Sicários judeus Império Romano Império Romano
Comandantes
  Eleazar ben Ya'ir Império Romano Lúcio Flávio Silva
Forças
967, incluindo não-combatentes Legio X Fretensis (4 800)
Auxiliares e escravos (4 000–10 000)
Baixas
960 mortos e 7 capturados Desconhecidos
Massada está localizado em: Israel
Massada
Localização de Massada no que é hoje Israel

Cerco de Massada foi um dos últimos eventos da Primeira guerra romano-judaica, ocorrido entre 73 e 74, no alto de uma elevação montanhosa no território moderno de Israel. Seus eventos foram relatados por Flávio Josefo, um líder rebelde judeu capturado pelos romanos e que depois tornou-se um historiador a serviço de seus captores. Segundo ele, o longo cerco pelas tropas da X Fretensis e suas tropas auxiliares levaram a um suicídio em massa dos sicários rebeldes e das famílias judaicas que viviam na fortaleza. Massada tornou-se desde então um evento controverso na história judaica, com alguns considerando o local como merecedor de reverência, uma comemoração de ancestrais que deram a vida em uma luta heroica contra a opressão, enquanto outros consideram todo o evento como um trágico alerta contra o extremismo e a incapacidade de ceder.

ContextoEditar

Massada é uma "montanha de cume plano de formato losangular" que é "elevada, isolada e aparentemente enexpugnável".[3] O terreno à volta torna difícil o acesso ao topo, deixando apenas um estreito caminho que não comporta sequer duas pessoas lado-a-lado. Este caminho é conhecido como "A Serpente" por "serpentear pelo trajeto até o cume com muitos engenhosos zigue-zagues".[3] A fortaleza construída no topo é considerada como o lugar onde David teria descansado depois de ter fugido de seu sogro, o rei Saul.[4]

Flávio Josefo, um judeu de nascimento criado em Jerusalém, é o único historiador a prover um relato detalhado da Grande Revolta Judaica e a única pessoa que relatou os eventos no local. Depois de ter sido capturado durante o Cerco de Yodfat e solto por Vespasiano, Josefo passou a relatar a campanha romana.[5] Ele presumivelmente baseou sua narração em comentários dos comandantes romanos.[6] Segundo Josefo, Massada foi construída originalmente pelos hasmoneus. Entre 37 e 31 a.C., Herodes, o Grande, fortificou o local transformando-o num refúgio para o caso de uma revolta.

Em 66, no começo da revolta contra o Império Romano, um grupo de extremistas judeus conhecidos como sicários (em latim: sicarii) atacou a guarnição romana de Massada e tomou a fortaleza. Eles eram comandados por Eleazar ben Ya'ir[3] e, em 70, receberam o reforço de mais sicários e suas famílias, expulsos de Jerusalém pela população judaica tradicional, com quem estavam em conflito. Logo depois do cerco de Jerusalém e da subsequente destruição do Templo, mais sicários e seus familiares fugiram da cidade e se assentaram no alto de Massada, com os sicários utilizando-a como refúgio e base para atacar os campos vizinhos.[7][8] Segundo as interpretações modernas de Josefo, os sicários eram um grupo extremista originário dos zelotes e igualmente adversário tanto dos grupos romanos e judaicos.[9]

Segundo Josefo, durante a Páscoa judaica, os sicários atacaram Ein-Gedi, um vila judaica vizinha, e mataram 750 habitantes.[10][11][12]

A arqueologia indica que os sicários modificaram algumas estruturas que encontraram, incluindo um edifício que havia sido modificada para funcionar como sinagoga, voltada para Jerusalém (é possível que o edifício tenha sido uma sinagoga desde sempre, embora não tenha sido encontrado um mikvah (os bancos encontrados em outras sinagogas do período).[13] Trata-se de uma das mais antigas sinagogas de Israel. Restos de dois mikvaot foram encontradas nas imediações.

Cerco romanoEditar

Cerco romano
Restos de um dos muitos acampamentos romanos do lado de fora do muro de circunvalação à volta de Massada.
Restos da rampa utilizada no cerco romano.
Vista aérea do palácio norte em Massada.

Em 72, o governador romano da Judeia, Lúcio Flávio Silva, à frente da X Fretensis e suas unidades auxiliares e prisioneiros de guerra judeus, num total de 15 000 homens e mulheres (dos quais entre 8 000 e 9 000 eram combatentes[14]), cercou os 960 sicários e suas famílias em Massada. A legião romana cercou a montanha toda e construiu uma muralha de circunvalação antes de começar a construção de uma rampa de cerco de frente para a face oeste do platô, movendo milhares de toneladas de pedras e terra batida na operação. Josefo não relata nenhuma tentativa dos sicários de contra-atacar os romanos durante o processo, uma importante diferença deste relato em relação aos outros cercos da revolta.

A rampa — com um gradiente de 1:3 e uma base de 210 metros, alcançou 100 metros de altura e, em sua extremidade, foi montada uma plataforma de 22 metros de altura por 22 de largura — foi completada na primavera de 73, provavelmente depois de dois ou três meses de cerco. Uma gigantesca torre de cerco (28 metros de altura) com um aríete foi construída e arduamente empurrada rampa acima enquanto as tropas romanas atacavam as muralhas com "uma rajada de tochas em chamas contra [...] uma muralha de madeira",[3] o que permitiu que os romanos finalmente invadissem a fortaleza em 16 de abril de 73.[15][16][17] Quando os romanos entraram na fortaleza, porém, encontraram uma "cidadela da morte".[3] Os rebeldes haviam ateado fogo a todos os edifícios (menos os estoques de comida) e cometeram um suicídio em massa, declarando que "uma morte gloriosa [...] preferível a uma vida de infâmia".[15]

SuicídioEditar

Segundo Josefo, "os judeus esperavam que toda a sua nação além do Eufrates iria se juntar a eles para insuflar uma insurreição", mas, no final, havia apenas 960 zelotes judeus que enfrentaram um exército romano em Massada.[5] Quando estes zelotes se viram aprisionados no alto de Massada sem condições de fugir, Josefo conta que "era pela vontade de Deus e por necessidade que [eles] deveriam morrer".[5] Segundo William Whiston, tradutor de Josefo para o inglês,[5] duas mulheres, que escaparam do suicídio escondendo-se numa cisterna com cinco crianças, repetiram as exortações de Eleazar ben Ya'ir a seus seguidores antes do suicídio final para os romanos:

"Como decidimos há muito tempo atrás que nunca seríamos servos dos romanos e nem de ninguém além do próprio Deus, que sozinho é o Senhor verdeiro e justo da humanidade, a época chegou que nos obriga a tornar esta resolução verdadeira na prática [...] Somos os primeiros que se revoltaram e somos os últimos a lutar contra eles; e só posso estimar este fato em favor de Deus, que nos concedeu-o, de que ainda está em nossas mãos morrer bravamente e livres."
 

Como o judaísmo proíbe o suicídio, Josefo relata que os sicários tiraram a sorte e foram se matando um por vez até o último, que seria o único a, de fato, tirar sua própria vida. Segundo Josefo, Eleazar ordenou que seus homens destruíssem tudo menos as reservas de comida, uma forma de provar que os defensores ainda tinham condições de viver e que haviam escolhido a morte no lugar da escravidão. Porém, escavações arqueológicas demonstraram que os galpões que continham suas provisões também foram incendiados, embora não seja possível determinar se pelas mãos dos romanos ou dos judeus.

Segundo Shaye Cohen, a arqueologia demostrou que o relato de Josefo é "incompleto e incorreto". Josefo só descreveu um palácio e as escavações descobriram dois, sua descrição do palácio norte contém diversas incorreções e ele nos apresenta números exagerados para a altura de muros e torres. O relato de Josefo também entra em contradição com os "esqueletos na caverna e os diversos focos de incêndio".[19] Segundo Kenneth Atkinson, "não existem evidências arqueológicas de que os defensores de Massada cometeram suicídio em massa".[20]

LegadoEditar

O cerco de Massada é geralmente referido em Israel como "um símbolo do heroísmo judaico".[21] Segundo Klara Palotai, "Massada tornou-se um símbolo para a 'resistência final' heroica pelo Estado de Israel e teve um grande papel para Israel na formação de sua identidade nacional".[22] Para Israel, era um símbolo da coragem dos guerreiros de Massada, da força que eles demonstraram ao defenderem Massada por quase três anos e sua escolha da morte ao invés da escravidão na luta contra um império agressivo. Massada tornou-se "o local da realização da herança cultural", onde se realizam cerimônias militares.[22] Palotai conta ainda como Massada "desenvolveu um 'caso de amor' especial com a arqueologia" por atrair pessoas de todo o mundo interessadas em ajudar a localizar os restos da fortaleza e da batalha que ocorreu ali.[22]

Outros, porém, veem nos eventos do cerco como um caso de radicais judeus que se recusaram a chegar numa solução de compromisso, recorrendo, ao invés disso, ao suicídio e ao assassinato de suas famílias, ambas práticas proibidas pelo judaismo rabínico. Pesquisadores estão atualmente questionando os achados de Yigael Yadin, o arqueólogo israelense que escavou o local pela primeira vez. Massada já foi um local de celebração para os israelenses, mas atualmente "os israelenses ficaram menos confortáveis em glorificar o suicídio em massa e em se identificar com fanáticos religiosos".[23] Outros arqueólogos revisaram as descobertas de Yadin e encontraram discrepâncias. Durante as escavações dele, foram encontrados três corpos que ele alegou serem de zelotes judeus. O antropólogo Joe Zias e o especialista forense Azriel Gorski alegam que os corpos eram de três romanos tomados como reféns pelos zelotes. Se isto for verdade, "Israel pode ter, inadvertidamente, concedido a honra [do reconhecimento deles como heróis e de um funeral de estado] a três romanos".[23] Há também alguma discussão sobre os defensores de Massada e se eles eram "o núcleo duro heroico da Grande Revolta Judaica contra Roma ou uma gangue de assassinos que foi vítima de uma última operação de limpeza romana".[24]

Referências

  1. Campbell, Duncan B. (1988). «Dating the Siege of Masada». Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik (em inglês). 73 (1988): 156–158. JSTOR 20186870 
  2. Cotton, Hannah M. (1989). «The Date of the Fall of Masada: The Evidence of the Masada Papyri». Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik (em inglês). 78 (1989): 157–162. JSTOR 20187128 
  3. a b c d e Richmond, I. A. (1962). «The Roman Siege-Works of Masada, Israel». Washington College. Lib. Chestertown, MD.: Society for the Promotion of Roman Studies. The Journal of Roman Studies (em inglês). 52: 142–155. JSTOR 297886. OCLC 486741153. doi:10.2307/297886 
  4. Zeitlin, Solomon (1965). «Masada and the Sicarii». Washington College. Lib. Chestertown, MD: University of Pennsylvania Press. The Jewish Quarterly Review (em inglês). 55 (4): 299–317. JSTOR 1453447. doi:10.2307/1453447 
  5. a b c d Josephus, Flavius (1974). Wasserstein, Abraham, ed. Flavius Josephus: Selections from His Works (em inglês) 1st ed. New York: Viking Press. pp. 186–300. OCLC 470915959 
  6. Stiebel, Guy D. "Masada." Encyclopaedia Judaica. Ed. Michael Berenbaum and Fred Skolnik. 2nd ed. Vol. 13. Detroit: Macmillan Reference USA, 2007. 593-599. Gale Virtual Reference Library. (em inglês)
  7. Sheppard, Si. The Jewish Revolt (em inglês). [S.l.: s.n.] p. 82. ISBN 978-1-78096-183-5 
  8. «Masada Desert Fortress - Jewish Virtual Library» (em inglês) 
  9. Ben-Yehuda, Nachman. The Masada Myth: Scholar presents evidence that the heroes of the Jewish Great Revolt were not heroes at all, The Bible and Interpretation
  10. A Guerras Judaicas, de Flávio Josefo, trad. de William Whiston, Project Gutenberg, Livro IV, cap. 7, parágrafo 2.
  11. Flávio Josefo, A Guerra dos Judeus libri vii, B. Niese, Ed. J. BJ 4.7.2 (em inglês)
  12. Ancient battle divides Israel as Masada 'myth' unravels; Was the siege really so heroic, asks Patrick Cockburn in Jerusalem, The Independent (em inglês)
  13. Kloppenborg, John (1996). Voluntary Associations in the Graeco-Roman World (em inglês). London: Routledge. p. 101. ISBN 0-415-13593-1 
  14. SI Shepprd (2013). The Jewish Revolt AD 66-74 (em inglês). [S.l.: s.n.] p. 83. ISBN 978-1-78096-183-5 
  15. a b UNESCO World Heritage Centre. «Masada» (em inglês) 
  16. «Masada» (em inglês) 
  17. Campbell, Duncan B. (2010). «Capturing a desert fortress: Flavius Silva and the siege of Masada». Ancient Warfare (em inglês). 4 (2): 28–35 .
  18. «Elazar Ben Yair Speech at Masada - Jewish Virtual Library» (em inglês) 
  19. Shaye J.D. Cohen. The significance of Yavneh and other essays in Jewish Hellenism (em inglês). [S.l.: s.n.] p. 143 
  20. Zuleika Rodgers, ed. (2007). Making History: Josephus And Historical Method (em inglês). [S.l.]: BRILL. p. 397 
  21. Isseroff, Amy (2005–2009). «Masada». Zionism and Israel – Encyclopedic Dictionary (em inglês). Zionism & Israel Information Center 
  22. a b c Palotai, Klara (2002). «Masada – the changing meaning of a historical site/archeological site in the reflection of a nation's changing history». Politics of the Performance Space (em inglês). artsacpeweb.com 
  23. a b Kantrowitz, Jonathan (25 de junho de 2007). «Solved mystery of Masada remains». Archaeology News Report (em inglês). archaeologynewsreport.blogspot.com 
  24. Cockburn, Patrick (30 de março de 1997). «Ancient battle divides Israel as Masada 'myth' unravels». The Independent (em inglês) 

BibliografiaEditar

  • Grant, Michael (1984). The Jews in the Roman World (em inglês). New York: Scribner. ISBN 978-0-684-13340-9 
  • Pearlman, Moshe (1967). The Zealots of Masada: Story of a Dig (em inglês). New York: Scribner. OCLC 2019849 
  • Yadin, Yigael (1966). Masada; Herod's fortress and the Zealot's last stand (em inglês). New York: Random House. OCLC 1175632