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[[Imagem:Gaucho-a-cavalo.jpg|thumb|Gaúchos com a [[pilcha]] completa desfilando na Semana Farroupilha de 2006.]]
 
Também foi importante a fundação, em 1948, do [[Centro de Tradições Gaúchas 35]], o primeiro dos [[Centro de Tradições Gaúchas|CTGs]], com a participação de Paixão Cortes e Barbosa Lessa. O 35 não pretendia estudar o tradicionalismo, mas ressuscitá-lo, pois muitas das tradições autênticas a esta altura se haviam perdido — seria necessário reinventá-las, embora mantendo como referência os registros de antigos estudiosos. Entre suas disposições estatutárias encontram-se os seguintes princípios norteadores: "O Centro terá por finalidade: a) zelar pelas tradições do Rio Grande do Sul, sua história, suas lendas, canções, costumes etc., e conseqüenteconsequente divulgação pelos estados irmãos e países vizinhos; b) pugnar por uma sempre maior elevação moral e cultural do Rio Grande do Sul; c) fomentar a criação de núcleos regionalistas no estado, dando-lhes todo apoio possível. O Centro não desenvolverá qualquer atividade político-partidária, racial ou religiosa".<ref name="Oliven"/>
 
A partir desta iniciativa, em menos de uma década mais de trinta outros CTGs haviam sido criados em vários outros pontos do estado, muitos deles em zonas de colonização italiana e alemã, atestando a ampla difusão do gauchismo, embora na própria capital a receptividade continuasse fraca. A orientação ideológica permanecia errática, dependendo das inclinações de cada patrão (nome dado ao líder do CTG). Para remediar essa irregularidade, e a fim de fortalecer o movimento, em 1954 os CTGs organizaram um congresso em Santa Maria, onde Barbosa Lessa apresentou a tese ''O sentido e o valor do Tradicionalismo'', que se tornou um dos principais alicerces ideológicos do tradicionalismo gaúcho contemporâneo, onde criticava a influência desagregadora do progresso e da urbanização e enfatizava a importância das tradições para que a sociedade funcione como uma unidade.<ref name="Oliven"/>
Na Carta foram definidos os objetivos dos CTGs como núcleos transmissores da herança social, destinados, "através da prática e divulgação dos hábitos locais, noção de valores, princípios morais, reações emocionais, etc.; a criar em nossos grupos sociais uma unidade psicológica, com modos de agir e pensar coletivamente, valorizando e ajustando o homem ao meio, para a reação em conjunto frente aos problemas comuns". A Carta mantinha como princípios, entre outras coisas, também combater os ataques às tradições e ao movimento, resgatar os valores morais considerados tradicionais do povo gaúcho, "lutar pelos direitos humanos de liberdade, igualdade e humanidade", e "auxiliar o Estado na solução dos seus problemas fundamentais e na conquista do bem coletivo", obedecendo à legislação vigente, mas se preocupava em preservar o distanciamento da política partidária e da religião, e "evitar todas as formas de vaidade e personalismo que buscam no Movimento Tradicionalista veículo para projeção em proveito próprio".<ref>''Apud'' Luvizotto, pp. 46-48</ref>
 
Em 1966, durante os trabalhos do XII Congresso, foi fundado o [[Movimento Tradicionalista Gaúcho]] (MTG), que passou a reunir a maior parte das entidades, tomando-se, segundo Hélio Mariante, "o catalizadorcatalisador, disciplinador e orientador das atividades dos seus filiados, no que diz respeito ao preconizado na ''Carta de Princípios do Tradicionalismo Gaúcho''".<ref>Mariante, Hélio Moro. "História do Tradicionalismo Gaúcho". In: ''Cadernos Gaúchos'', 1976 (1)</ref> Em 1964 uma lei estadual oficializou a Semana Farroupilha, a Chama Crioula passou a recebida com honras no [[Palácio Piratini]], sede do governo, e os desfiles realizados em 20 de setembro em quase todas as cidades do estado passaram a ser oficiais. Em 1966 outra lei estadual transformou o ''Hino Farroupilha'' em ''[[Hino do Rio Grande do Sul]]''.<ref name="Oliven"/>
 
==Expansão==
Essa expansão também foi facilitada pela relativa flexibilidade na interpretação de conceitos fundamentais, que permitiram a incorporação de algumas práticas externas à tradição especificamente gauchesca. Além disso, desde o tempo da fundação do CTG 35 se tornou evidente que a tradição, como havia sido recebida do passado, era por demais incompleta para permitir uma ressurreição de todo o modo de vida campeiro original, e em função disso as lacunas precisaram ser preenchidas com elementos novos e em larga medida arbitrários. Por exemplo, segundo lembranças de Barbosa Lessa, não se sabia como se dava o aperto de mãos, como era a indumentária das [[prenda]]s, como eram alguns equipamentos de trabalho, etc. As escolhas eram definidas em reuniões dos tradicionalistas e se tornaram canônicas.<ref name="Karam"/><ref name="Konflanz3"/> Nas palavras de Celso Konflanz, "as propriedades assumidas pelo tradicionalismo na interpretação e no manuseio das questões culturais — atreladas as características de formação histórica do Rio Grande do Sul — deram os seus contornos de atuação: destradicionalizado, adaptado, concepções flexíveis de antiguidade, originalidade, integralidade, etc." Com esses traços, que distinguem o movimento de outros ensaios de resgate do passado de caráter mais arqueológico e científico, o tradicionalismo como praticado no estado foi capaz agregar um vasto número de simpatizantes de "diferentes matrizes culturais formadoras do Rio Grande do Sul".<ref name="Konflanz3">Konflanz, pp. 100-103</ref> Com efeito, são registrados inúmeros elementos gauchescos apropriados ou adaptados pelas culturas coloniais italiana, alemã e outras, no processo de reconstrução de suas identidades no Novo Mundo, como o uso da [[bombacha]] e da bota, o consumo do [[churrasco]], do [[carreteiro]] e do [[chimarrão]], a prática da reunião em torno do fogo de chão, e costumes cavalarianos, e muitos termos gauchescos foram adaptados aos dialetos coloniais.<ref>Konflanz, pp. 116-117</ref><ref>Calvi, Francis. [https://www.univates.br/bdu/bitstream/10737/840/1/2015FrancisCalvi.pdf ''Tradicionalismo: relações entre cultura gaúcha e a cultura de descendentes de italianos em Encantado/RS'']. UNIVATES, 2015, pp. 75-92</ref>
 
Com tantas liberdades, naturalmente se formaram correntes bastante divergentes sobre como o movimento deveria ser conduzido.<ref name="Karam"/> No ambiente acadêmico e literário, críticas ao gaúcho idealizado já eram ouvidas esparsamente desde a década de 1930, com obras e artigos de [[Cyro Martins]] e [[Athos Damasceno]] (que manteve uma famosa polêmica com [[Vargas Neto]]), questionando a visão monolítica, afirmativa e glamurizadaglamorizada que se queria impor, expondo os conflitos, fraquezas e o lado anti-herói do gaúcho real, e buscando destacar o papel de outras matrizes culturais na definição da identidade rio-grandense,<ref>Pires, Elize Heugel. [http://www.celpcyro.org.br/joomla/index.php?option=com_content&view=article&id=848:a-trilogia-do-gaucho-a-pe-de-cyro-martins-na-contemporaneidadeuma-obra-alem-de-seu-tempo-resumo-dissertativo&catid=55:artigos "A Trilogia do Gaúcho a Pé, de Cyro Martins, na contemporaneidade:uma obra além de seu tempo"]. Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins </ref><ref>Silva, Gabriela Correa da. ''O Regionalismo Sul-Rio-Grandense de Athos Damasceno e sua Polêmica com Vargas Netto (1932)''. UFRGS, 2011, pp. 18-29</ref><ref>Figueiredo, Joana Bosak. "Athos Damasceno e a escrita de uma história da indumentária no Rio Grande do Sul". In: ''10º Colóquio de Moda – 7ª Edição Internacional e 1º Congresso Brasileiro de Iniciação Científica em Design e Moda'', 2014</ref> mas a partir da década de 1970, estimulado especialmente a partir das publicações de [[Ruben Oliven]] e [[Tau Golin]], o tema passou a gerar grande bibliografia. Num momento de [[revisionismo]] histórico radical, diversos pesquisadores criticaram o tradicionalismo gauchesco por verem nele aspectos anticientíficos, artificiais, anacrônicos, modistas, moralistas, discriminadores, dogmáticos e/ou reacionários, em particular pelas suas documentadas ligações com latifundiários e políticos atuantes no governo, desencadeando considerável controvérsia.<ref name="Zalla"/><ref name="Oliven2"/><ref name="Nedel"/> Um trecho de Golin é ilustrativo dessa tendência:
 
::"Ao se apropriar dos elementos reais e simbólicos da população, dando-lhe novo sentido, o Tradicionalismo transformou-se em verdadeiro sugadouro. Entretanto, essa motivação genuína da população, de etnias, ao mesmo tempo que foi direcionada para o [[civismo]] obediente e regulador, inseriu no âmbito do tradicionalismo as tensões contraditórias entre as manobras reguladoras do poder dirigente e os modos de vida regionais, das culturas locais, das visões e concepções sobre o que é ou deveria ser a cultura do Rio Grande do Sul. [...] O tradicionalismo acabou se transformando em uma cultura de [[caserna]], de inspiração de um positivismo desilustrado, dominado, em especial, pelos oficiais brigadianos, funcionários públicos e pela [[Direita (política)|direita]] culturalmente limitada, líderes de legiões de 'artistas' do [[lumpesinato]]".<ref>[https://carnenuncamais.wordpress.com/2011/05/04/entrevista-com-tau-golin-jornalista-e-historiador/ "Entrevista com Tau Golin, jornalista e historiador"]. In: ''Revista do Instituto Humanitas — Unisinos'', 04/05/2011</ref>