Cágado-do-paraíba

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Cágado-de-hogei, cágado-do-paraíba, cágado-de-hoge e cágado-do-paraíba-do-sul[3] (nome científico: Mesoclemmys hogei) é uma espécie de quelônio da família dos quelídeos (Chelidae).

Como ler uma infocaixa de taxonomiacágado-do-paraíba
Espécime do cágado-do-paraíba avistado em 2011
Espécime do cágado-do-paraíba avistado em 2011
Estado de conservação
Espécie em perigo crítico
Em perigo crítico (IUCN 2.3) [1]
Classificação científica
Superdomínio: Biota
Reino: Animalia
Sub-reino: Bilateria
Infrarreino: Deuterostomia
Filo: Chordata
Subfilo: Vertebrata
Infrafilo: Gnathostomata
Superclasse: Tetrapoda
Classe: Reptilia
Ordem: Testudines
Família: Chelidae
Subfamília: Chelinae
Género: Mesoclemmys
Espécie: Mesoclemmys hogei
Nome binomial
Mesoclemmys hogei
Mertens, 1967
Sinónimos[2]
  • Phrynops hogei
  • Ranacephala hogei

EtimologiaEditar

O nome específico, hogei, foi dado em homenagem ao herpetólogo belga nascido no Brasil Alphonse Richard Hoge.[4] Seu nome popular cágado, contudo, tem origem controversa. Antenor Nascentes propôs, citando Serafim da Silva Neto, que tenha se originado no português cagado, com uma retração eufemística do acento. José Pedro Machado propôs derivar do latim cacatus > *cácatus por eufemismo. Joan Coromines propôs uma origem no hispânico pré-romano *calappăcu (quiçá associado a *calapaccĕa no sentido de 'cabaça, espécie de abóbora' e *carappaceu no sentido de 'carapaça de crustáceos') > *calápago > caágado > cágado.[5]

DistribuiçãoEditar

O cágado-do-paraíba é endêmico do Brasil e pode ser encontrada na bacia do rio Paraíba do Sul, do estado do Rio de Janeiro e sul de Minas Gerais até o rio Itapemirim, nas regiões costeiras do Espírito Santo.[6] Martens, ao identificar a espécie, colocou como localidade tipo o rio Pequena, no sudoeste de São Paulo, mas uma vez que não ocorre no estado, a identificação é errônea. Calcula-se, via mínimo polígono convexo, que sua área de ocorrência seja se 32 012,32 quilômetros quadrados. A área de ocupação no rio Carangola, em Minas Gerais, foi reduzida de 40 para 15 quilômetros de extensão linear, e suspeita-se que o mesmo ocorra no resto da bacia do Paraíba do Sul. Em 2002, foram feito avistamento pontual na área de aproveitamento hidrelétrico da represa de Funil, entre Itatiaia e Resende. Espécimes adultos ocupam as calhas principais dos rios, enquanto os recém-nascidos podem ser avistados em tributários menores. É uma espécie sedentária com fidelidade à área de uso. Habita preferencialmente locais de remanso próximos às corredeiras.[3]

EcologiaEditar

O cágado-do-paraíba é frugívoro, com a análise estomacal de adultos do rio Carangola apresentando frutos de figueira (Ficus obtusiuscula). Seu ciclo reprodutivo é anual e desova ao final dos meses chuvosos e início da estação seca, de março a abril. A ninhada varia de cinco a sete ovos, com uma média de seis. A eclosão dos ovos coincide com o início da estação chuvosa.[3]

AmeaçasEditar

A principal ameaça à sobrevivência contínua de cagado-do-paraíba é a degradação do habitat devido ao desmatamento, ao esgoto e descarga industrial, poluição agrícola e construção de barragens. Outra grande preocupação é a mortalidade direta por pesca esportiva, sendo anzóis com menor nível de ameaça às tartarugas foram promovidos nos últimos anos, bem como duas zonas designadas de proibição de pesca sendo estabelecidas ao longo do rio Carangola.[7] Estudos genéticos também mostraram que o cágado-do-paraíba tem níveis muito baixos de diversidade genética, provavelmente devido a um gargalo populacional no passado. Isso torna a espécie particularmente vulnerável a doenças e potencialmente incapaz de se adaptar a um ambiente em mudança.[6] Estimativas da tendência populacional indicam que sua população, no médio rio Carangola, diminuiu, em media, 16,2% ao ano. Se a tendência perdurar, em poucos anos a espécie estará localmente extinta, e a população global da espécie pode se reduzir em até 80% no futuro próximo.[3]

ConservaçãoEditar

Em 2015, 236 acres de habitat de nidificação de importância crítica ao longo do rio Carangola foram adquiridos pela Rainforest Trust, trabalhando em conjunto com a Fundação Biodiversitas. Esta foi designada como área protegida privada permanente conforme definido pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação do Brasil. A espécie depende de floresta tropical de dossel fechado intacto para nidificação, portanto, a prática agrícola de derrubar florestas à beira do rio é muito prejudicial à espécie. Em 2014 foi criado um programa de educação ambiental com a Ranacephala hogei, completo com um vídeo educativo e material de orientação para professores.[7][8]

Em 2005, foi classificada como em perigo na Lista de Espécies da Fauna Ameaçadas do Espírito Santo;[9] em 2010 como em perigo na Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de Minas Gerais;[10] e em 2014, como criticamente em perigo na Portaria MMA N.º 444 de 17 de dezembro de 2014;[11] e em 2018, como criticamente em perigo no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)[12][13] e como vulnerável na Lista das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção no Estado do Rio de Janeiro.[14]

Referências

  1. a b Drummond, G.M.; Coutinho, M.E.; Vogt, R.C (2016). «Mesoclemmys hogei». Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. 2016: e.T17081A1316719. doi:10.2305/IUCN.UK.2016-1.RLTS.T17081A1316719.en . Consultado em 25 de abril de 2022 
  2. Rhodin, A. G. J.; Iverson, J. B.; Bour, R.; Fritz, U.; Georges, A.; Shaffer, H. B.; van Dijk, P. P. (2017). «Turtles of the World: Annotated Checklist and Atlas of Taxonomy, Synonymy, Distribution, and Conservation Status» 8.ª ed. Chelonian Research Monographs. 7: 1–292. doi:10.3854/crm.7.checklist.atlas.v8.2017 
  3. a b c d Vogt, Richard Carl; Fagundes, Camila Kurzmann; Bataus, Yeda Soares de Lucena; Balestra, Rafael Antônio Machado; Batista, Flávia Reina de Queiroz; Uhlig, Vívian Mara; Silveira, Adriano Lima; Bager, Alex; Batistella, Alexandre Milaré; Souza, Franco Leandro de; Drummond, Gláucia Moreira; Reis, Isaías José dos; Bernhard, Rafael; Mendonça, Sônia Helena Santesso Teixeira de; Luz, Vera Lúcia Ferreira. «Avaliação do Risco de Extinção de Mesoclemmys hogei (Mertens, 1967) no Brasil». Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Consultado em 25 de abril de 2022. Cópia arquivada em 25 de abril de 2022 
  4. Beolens, Bo; Watkins, Michael; Grayson, Michael (2011). «Ranacephala hogei, p. 125)». The Eponym Dictionary of Reptiles. Baltimore: Imprensa da Universidade Johns Hopkins. pp. xiii + 296 pp. ISBN 978-1-4214-0135-5 
  5. Grande Dicionário Houaiss, verbete cágado
  6. a b «Turtle Conservancy — Turtles in Trouble». Turtle Conservancy (em inglês). Consultado em 21 de maio de 2019. Cópia arquivada em 25 de abril de 2022 
  7. a b «Turtles In Trouble: The World's 25+ Most Endangered Tortoises and Freshwater Turtles» (PDF). IUCN Tortoise and Freshwater Turtle Specialist Group. 2018 
  8. «New Hope for Hoge's Side-necked Turtle». Rainforest Trust (em inglês). Consultado em 21 de maio de 2019. Cópia arquivada em 16 de junho de 2021 
  9. «Lista de Espécies da Fauna Ameaçadas do Espírito Santo». Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA), Governo do Estado do Espírito Santo. Consultado em 7 de julho de 2022. Cópia arquivada em 24 de junho de 2022 
  10. «Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de Minas Gerais» (PDF). Conselho Estadual de Política Ambiental - COPAM. 30 de abril de 2010. Consultado em 2 de abril de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 21 de janeiro de 2022 
  11. «PORTARIA N.º 444, de 17 de dezembro de 2014» (PDF). Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), Ministério do Meio Ambiente (MMA). Consultado em 24 de julho de 2021. Cópia arquivada (PDF) em 12 de julho de 2022 
  12. «Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção» (PDF). Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério do Meio Ambiente. 2018. Consultado em 3 de maio de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 3 de maio de 2018 
  13. «Mesoclemmys hogei (Mertens, 1967)». Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr). Consultado em 18 de abril de 2022. Cópia arquivada em 9 de julho de 2022 
  14. «Texto publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro contendo a listagem das 257 espécies» (PDF). Rio de Janeiro: Governo do Estado do Rio de Janeiro. 2018. Consultado em 2 de maio de 2022. Cópia arquivada (PDF) em 2 de maio de 2022