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Movimento das Espadas (20 a 25 de Janeiro de 1915), ou Golpe das Espadas, foi o nome pelo qual ficaram conhecidos os incidentes de insubordinação militar, em que se destacaram o capitão Martins de Lima e o comandante Machado Santos, que conduziram à demissão, a 25 de Janeiro de 1915, do Governo presidido por Victor Hugo de Azevedo Coutinho (alcunhado de Os Miseráveis de Victor Hugo) e à instauração de um governo ditatorial chefiado por Pimenta de Castro, a primeira ditadura do republicanismo português.

Os acontecimentosEditar

Embora como questão de fundo estivesse o descontentamento dos militares face à política governamental favorável à participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, as origens próximas do movimento radicaram-se no mal-estar generalizado sentido pelos oficiais da guarnição de Lisboa face à constante interferência de militares e civis ligados ao Partido Democrático Republicano nos processos de nomeação de oficiais para postos de comando e na sua destituição. Este descontentamento agudizou-se quando a 20 de Janeiro de 1915 o major João Carlos Craveiro Lopes, aquartelado na Figueira da Foz, foi compulsivamente transferido do Regimento de Infantaria n.º 28 para o Regimento de Infantaria n.º 19 em virtude de um caso puramente particular em que fora interveniente um militante do Partido Democrático e fora objecto de denúncia do Comité Democrático Militar, uma estrutura política ligada àquele Partido.

Os oficiais das unidades aquarteladas na Figueira da Foz protestaram e o movimento alastrou a Lisboa, onde nos dias imediatos os oficiais da guarnição daquela cidade se movimentaram no sentido de se solidarizarem com o ofendido. Foi este protesto que levou ao incidente do Movimento das Espadas, o qual ocorreu a 22 de Janeiro, quando numerosos oficiais do Regimento de Cavalaria n.º 2, liderado pelo capitão Martins Lima, marchou pela Calçada da Ajuda a caminho do Palácio de Belém, onde, em sinal de repulsa, pretendiam entregar as espadas ao Presidente da República Manuel de Arriaga.

Foram detidos e enviados para bordo da fragata D. Fernando II e Glória, acusados de participarem numa manobra monárquica tendente a desestabilizar a República. Esta acusação caiu quando na tarde desse mesmo dia o comandante Machado Santos, o herói da implantação da República, foi ao Palácio de Belém entregar a espada que utilizara na Rotunda a 5 de Outubro de 1910.

Em consequência do Movimento, a 25 de Janeiro o Governo presidido por Victor Hugo de Azevedo Coutinho, cujos membros eram maldosamente alcunhado pelos seus detractores de Os Miseráveis de Victor Hugo, demitiu-se e Manuel de Arriaga, num acto que em muito contribuiu para destruir a sua credibilidade como democrata, nomeou o general Pimenta de Castro para governar em ditadura, isto é sem supervisão parlamentar dado estar suspenso o Congresso da República, até à realização de novas eleições. Esta nomeação levaria à destituição de Manuel de Arriaga após a revolta de 14 de Maio daquele ano que depôs o Governo de Pimenta de Castro.

O Movimento das Espadas, e o subsequente Governo de Pimenta de Castro, suscitou o apoio dos republicanos evolucionistas e unionistas e dos monárquicos, da hierarquia da Igreja Católica e de parte do Exército e do operariado. Eram sectores sociais já desencantados com as políticas e com a postura do Partido Democrático Republicano de Afonso Costa que resolveram romper as tréguas com o Partido Democrático por causa da politica de guerra deste, já em efectividade nos teatros africanos e em preparação para o teatro europeu[1].

Nesse contexto, o movimento marcou uma viragem no comportamento dos militares em face do poder politico vigente, que de expectante e até colaborante, passava a contestatária por a maioria ser contrária à intervenção activa de Portugal na Primeira Guerra Mundial[2]. Esta viragem, sem prejuízo de ter sido temporariamente suprimida da esfera do poder pela revolta armada de 14 de Maio daquele ano de 1915, foi irreversível e constituiu uma das causas mais profundas da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926.

A designação dada ao movimento ecoa outro Movimento das Espadas, ocorrido a 5 de Dezembro de 1869, quando um grupo de oficiais generais se manifestaram a favor do Marechal Saldanha após o seu regresso do exílio.

Notas

  1. José Medeiros Ferreira, O Comportamento Politico dos Militares. Forças Armadas e Regimes Políticos em Portugal no Século XX. Lisboa: Editorial Estampa, 1996, p. 55.
  2. Paiva Couceiro e a contra-revolução monárquica (1910-1919), p. 37.

Ligações externasEditar