O termo muladi[1] (do árabe مولدونor, translit. muwallad, pl. muwalladun ou muwalladeen: "concebido por mãe não árabe"[2]), pode designar três grupos sociais presentes na Península Ibérica, na Idade Média:

  1. Cristão que abandonava o cristianismo, convertia-se ao Islão e vivia entre muçulmanos.[3] Diferenciava-se do moçárabe, que se mantinha cristão em áreas de domínio muçulmano.
  2. Filho de um casamento misto cristão-muçulmano e de religião muçulmana.
  3. População de origem hispano-romana e visigótica que adotou a religião, a língua e os costumes do Islão para desfrutar dos mesmos direitos que os muçulmanos no Alandalus.[4][3]

Dentro do terceiro grupo distingue-se a nobreza visigoda, que acabou por fundir-se com a árabe, embora em zonas distantes tenha protagonizado movimentos secessionistas, como o dos Banu Cassi.

Já nas camadas mais humildes da população, uma larga maquia optou pela conversão, independentemente de quaisquer considerações religiosas, apenas para se livrar dos impostos territoriais e pessoais, que recaiam sobre os cristãos, bem como para se eximir do risco de ser escravizados, se fossem tidos como insubmissos ao domínio mouro.[3]

Com efeito, a possibilidade de conversão foi usada, amiúde, como um expediente para aliciar as populações a trair ou dar de vencido os seus conterrâneos que não quisessem submeter-se ao domínio muçulmano.[5] É digna de nota a traição de Ezerag de Condeixa, relatada no «Livro dos Testamentos» do Mosteiro de São Mamede de Lorvão[6], aquando da reconquista de Coimbra, às mãos de Almançor, em 987. Quando a cidade foi tomada e a população fugiu, escondendo-se nos montes e brejos das cercanias de Coimbra, Ezerag, natural da vila de Condeixa, apresentou-se ao recém empossado governador da cidade, Farfon Iben Abdella[7], e convertou-se ao Islão.[8]

Advertiu, então, as autoridades mouras da presença de muitos dos seus conterrâneos e doutros cristãos escondidos nos montes das cercanias, tendo-lhe sido dada a chefia dum regimento de 30 cavaleiros muçulmanos.[8] Acompanhado deles, foi ter com os cristãos escondidos, mentindo-lhes acerca das suas intenções e dando a entender que lhes conseguira granjear uma amnistia junto de Farfon Iben Abdella e que eram livres de regressar às suas casas[5]. Assim que os cristãos se revelaram, prendeu-os e escravizou-os[5]. Vendeu-os por 6 peças de prata, à cabeça, em Santarém[9], tendo o produto da venda sido ulteriormente remetido ao Almançor, em Sevilha[5]. Com o produto da venda, obteve então moinhos[10] e azenhas[11], bem como algumas propriedades nas cercanias de Coimbra[9].

Não obstante, no século IX, as diferenças socioeconómicas do Alandalus geraram frequentes tensões, manifestas na sublevação do Arrabal ou na rebelião de Omar ibne Hafeçune. Este último, que se tornou célebre, nasceu em Ronda, de família goda e o avô convertera-se ao islamismo. Chegou a controlar politicamente uma área importante do Alandalus, tendo-se convertido ao Cristianismo em 899 e instalado um bispo cristão em Bobastro.

Referências

  1. S.A, Priberam Informática. «muladi». Dicionário Priberam. Consultado em 3 de setembro de 2021 
  2. Diccionario de la Real Academía Española. <<muladí>>
  3. a b c Saraiva, José Hermano (2011). História Concisa de Portugal. Mem-Martins: Publicações Europa-América. 30 páginas. ISBN 9789896662967  « A situação das populações perante os invasores dependia da atitude que elas assumiam perante a nova religião: se aceitavam, passavam a fazer parte da comunidade, com igualdade de direitos e de deveres; se continuavam fiéis ao Cristianismo, podiam manter as suas propriedades e, embora com algumas limitações, realizar o seu culto, mas eram obrigados ao pagamento de um tributo. Se resistissem, porém, eram aniquiladas: os homens que não perdiam a vida eram vendidos como escravos»
  4. Ferrera Cuesta, Carlos (2005). Diccionario de Historia de España. Madrid: Alianza Editorial. ISBN 84-206-5898-7
  5. a b c d Saraiva, José Hermano (2011). História Concisa de Portugal. Mem-Martins: Publicações Europa-América. pp. 30–31. ISBN 9789896662967 
  6. «Annuncione de Molinos de Forma | Codolpor». codolpor.ul.pt. Consultado em 4 de setembro de 2021 
  7. ROCHA, Manoel da (1730). Portugal renascido, tratado historico-critico-chronologico, em que a luz da verdade se daõ manifestos os successos de Portugal do seculo decimo, etc. L.P. [S.l.: s.n.] 
  8. a b Barton, Simon (16 de janeiro de 2015). Conquerors, Brides, and Concubines: Interfaith Relations and Social Power in Medieval Iberia (em inglês). [S.l.]: University of Pennsylvania Press 
  9. a b Barton, Simon (16 de janeiro de 2015). Conquerors, Brides, and Concubines: Interfaith Relations and Social Power in Medieval Iberia (em inglês). [S.l.]: University of Pennsylvania Press  «Ezerag is reported to have captured the Cristian inhabitants of the villages in the vicinity of Coimbra by trickery and sold them into slavery at Santarém for six pieces os silver, in exchange for which he was later granted some property near Coimbra by al-Mansûr»
  10. REAL, Manuel Luís. «O Castro de Baiões terá servido de atalaia ou castelo, na Alta Idade Média? Sua provável relação com o refúgio de Bermudo Ordonhes na Terra de Lafões» (PDF). Universidade do Porto. Revista da Faculdade de Letras CIÊNCIAS E TÉCNICAS DO PATRIMÓNIO: 218. Consultado em 4 de Setembro de 2021  «É mesmo de crer que o referido incêndio, que nesta ocasião atingiu o mosteiro de Lorvão, se relacione com o assalto de Ezerag de Condeixa, descrito no célebre doc. 71 do Liber Testamentorum, sobre a disputa em torno dos moinhos de Forma.»
  11. Saraiva, José Hermano (2011). História Concisa de Portugal. Mem-Martins: Publicações Europa-América. pp. 30–31. ISBN 9789896662967  «Os cristãos acreditaram nele e saíram dos seus refúgios; então Ezerag atacou-os com os mouros de que dispunha, venceu-os e levou-os para Santarém, onde os vendeu como escravos; renderam-lhe bom dinheiro, que ele mandou a Sevilha ao Almançor (...) por seu turno, este mandou dar ao Ezerag as tais azenhas (...) provavelmente as que tinham pertencido aos cristãos que ele vendeu.»