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Mulato

(Redirecionado de Mulatos)
Disambig grey.svg Nota: "Mulata" redireciona para este artigo. Para a canção dos Irmãos Valença, veja Mulata (canção). Para outros significados de "mulato", veja Mulato (desambiguação).
Mulato, por Albert Eckhout.

Mulato é um termo que designa a pessoa que é descendente de africanos e europeus. Inicialmente o termo era também aplicado para designar mestiços.[1] Mulatos podem apresentar os mais variados perfis fenotípicos e culturais.

Índice

EtimologiaEditar

Existem duas teorias para a origem da palavra mulato: a latina e a árabe. Segundo a primeira, o termo 'mulato' adota o prefixo de mula (mulus, em latim). A mula é o progênito do cruzamento do cavalo com a jumenta ou do jumento com a égua. Por analogia, no século XVI, teria surgido o termo "mulato", que remete à ideia de "híbrido" (descendente de pessoas brancas e negras).[2][2]

A segunda teoria sustenta que o termo mulato provém do árabe mowallad ("aquele que é nascido de pai árabe e de mãe estrangeira, ou de pai escravo e de mãe livre"). Também remete à ideia de filho nascido de pais de etnias diferentes.[2][3]

Grande parte dos etimólogos e lexicógrafos acreditam na hipótese de que a palavra "mulato" seja proveniente do prefixo latino mulus, porém a teoria de que provém do termo árabe mowallad também tem defensores, não havendo, portanto, consenso sobre o tema.[4][5][6][7][8][9][10][11][12][13][14][15][16][17][18][2]

Polêmica quanto ao usoEditar

Nos últimos anos, vem ocorrendo polêmicas acerca do uso do termo "mulato". Grupos ligados ao Movimento Negro sustentam que a palavra é ofensiva e racista e que deveria ser abolida, porquanto deriva do animal "mula". [19][20]

Por outro lado, há quem argumente que uma palavra não deveria ser condenada em virtude da sua etimologia. O escritor Sérgio Rodrigues, por exemplo, argumenta que o termo mulato é usado no idioma português desde o século XVI e que a etimologia da palavra já foi praticamente esquecida pois, há tempos, refere-se simplesmente ao filho de branco e negro. Ele faz uma comparação com o substantivo "rapaz", bastante usado em português para referir-se a um homem jovem, mas que deriva do latim rapacem, que significava "ladrão" ou "indivíduo que rouba".[21][22][23]

África de língua oficial portuguesaEditar

Em Angola, os mulatos são uns 2% da população do país.[24] Em Moçambique, não chegam a 1%.[25] Em Cabo Verde, os mulatos, e seus congêneres, são mais numerosos.[26] Geralmente, a miscigenação é admitida socialmente e reconhecida como tal.

Os “mulatos” da África do Sul e NamíbiaEditar

A história recente da África do Sul começou com a fundação da cidade do Cabo por colonos de origem holandesa e francesa, que viram rapidamente que não era fácil converter os habitantes locais, principalmente khoisan, em trabalhadores agrícolas ou, em geral, negros escravizados. Por isso, tiveram que importar malaios das Índias Orientais Neerlandesas, a Indonésia e a Malásia, para além de negros de outras regiões da África Austral. Muitos desses malaios conservaram a sua cultura e religião (o islão) mas, com o tempo, apareceram pessoas de origem mestiça, que as autoridades trataram de separar num grupo a que chamaram “coloured” (ou “de cor”, para dizer que tinham características diferentes dos brancos e dos negros, “inferiores” aos primeiros, mas “superiores” aos segundos). Com a chegada (e dominação) dos britânicos e a importação de novos “assalariados” da Índia, mais misturas se produziram e, com o apartheid, a estes “coloured” foram concedidos alguns direitos políticos [27].

Com a democratização na África do Sul, em 1995, o estado deixou de classificar as pessoas em termos raciais (durante o apartheid, as pessoas tinham direitos cívicos de acordo com a “raça” a que pertenciam) mas, os censos e estudos demográficos continuaram a manter as antigas denominações, sendo que são os próprios inquiridos que se autoclassificam. Por isso, neste momento, os cerca de quatro milhões de “coloured” da África do Sul (e os da Namíbia, que se consideram um grupo ou etnia diferente dos vizinhos, ver nota anterior) correspondem à diversidade genética que foi imposta pela história, incluindo uma minoria de “malaios”, possivelmente sem “mistura” que ainda subsistem. Por isso, dizer que na África do Sul existem quatro milhões de “mulatos” é uma simplificação duma situação étnica bastante complexa [28].

Notas e referências

  1. Diccionario de la lengua española: mulato, ta
  2. a b c d Um mulato assanhado
  3. Historiadora defende que a palavra ‘mulata’ não vem de mula
  4. BUENO, Márcio, A Origem Curiosa das Palavras e/ou dos Significados. Rio de Janeiro: José Olympio Editora. 2003, p.158
  5. HOUAISS, Antônio, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 2004, p.1975
  6. VICTORIA, Luiz A. P., Dicionário da Origem e da Evolução das Palavras - Apêndice Citações Históricas, 3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Científica. 1963, p.126
  7. VICTORIA, Luiz A. P., Dicionário da Origem e da Evolução das Palavras - Apêndice Citações Históricas, 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Científica. 1960, p.122
  8. LITTLE, William; FOWLER, Henry Watson; COULSON, Jessie; ONIONS, Charles Talbut, The Oxford Universal Dictionary Illustrated - 3ª edição. Londres: 1959, p.1294
  9. NASCENTES, Antenor, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 1955, p.346
  10. WEEKLEY, Ernest, A Concise Etymological Dictionary of Modern English. Londres: 1952, p.270
  11. BLOCH, Oscar, WARTBURG, W. Von, Dictionaire Étymologique de la Langue Française, 2ª edição. Paris: 1950, p.402
  12. SHIPLEY, Joseph, Dictionary of Word Origins. Nova York: Editora Philosophical Library. 1945, p.236
  13. MOTTA, Othoniel, O Meu Idioma, 2ª edição. São Paulo: Weiszflog Editora. 1917, p.64
  14. VIANA, A. R. Gonçalves, Apostilas aos Dicionários Portugueses II. Lisboa: 1906, p.170
  15. SILVA JR., Manuel Pacheco da; ANDRADE, Lameira de, Grammatica da Lingua Portugueza. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves. 1887, p.476
  16. DOZY, Reinhart Pieter Anne; ENGELMANN, Willem Herman, Glossaire des mots Espagnols et Portugais deriva de l'arabe, 2ª edição. 1869, p.384
  17. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, Dicionário Aurélio - Século XXI. Editora Nova Fronteira, p.1377
  18. MULATTO AND MALIGNITY (em inglês)
  19. Não me chame de mulata: uma reflexão sobre a tradução em literatura afrodescendente no Brasil no par de línguas espanhol-português
  20. O teu discurso não nega, racista
  21. Mulata veio de 'mula'? Isso torna a palavra racista?
  22. O termo 'mulato' nasceu racista, mas sem ele é difícil entender o Brasil
  23. Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa
  24. Prof. Dr. Silvio de Almeida Carvalho Filho. As relações étnicas em Angola: as minorias branca e mestiça (1961-1992) (em português)
  25. PASSADOR, Luiz Henrique; THOMAZ, Omar Ribeiro. Raça, sexualidade e doença em Moçambique. "Rev. Estud. Fem.", Florianópolis, v. 14, n. 1, 2006. Disponível em: Scielo. Acesso em: 11 de outubro de 2008. DOI: 10.1590/S0104-026X2006000100014.
  26. Os Estudos Africanos no Brasil (em português)
  27. «MixedFolks.com - Orville Boyd Jenkins (August 1996) The Coloureds of Southern Africa». Consultado em 21 de outubro de 2008. Arquivado do original em 17 de maio de 2008 
  28. South African Census 2001 (em inglês)

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar