Nadejda Mandelstam

Nadejda Iakovlevna Mandelstam (em russo: Наде́жда Я́ковлевна Мандельшта́м, pronúncia russa: [nɐˈdʲeʐdə ˈjakəvlʲɪvnə mənʲdʲɪlʲˈʂtam]; Saratov, 30 de outubro de 1899Moscou, 29 de dezembro de 1980) foi uma escritora e educadora russa.

Batizada Nadejda Iakovlevna Khazina, foi o quarto e último rebento de Iakov Khazin e Vera Iacovlevna. Seus pais viviam uma vida pacata e confortável e, sendo judeus conversos, seguiam a Igreja Ortodoxa Russa. Nadejda teve preceptores particulares e depois foi matriculada em um ginásio. Com o advento da Revolução Russa de 1917, seu universo desmoronou. Os bens dos pais foram confiscados, a família sofreu ameaças e seu irmão Aleksandr, que lutava no exército branco, foi morto. Conheceu Osip Mandelstam em 1919 em Kiev, onde a família então morava, e desenvolveu por ele imediata simpatia, embora tivessem perfis muito diferentes. Fizeram planos de fugir da guerra civil juntos, mas Osip foi sozinho para a Crimeia, enquanto a família de Nadejda passava por novas humilhações e dificuldades, sendo expulsa de casa duas vezes. Pouco depois Osip voltou para buscá-la. Acabaram firmando um relacionamento sólido, casando em torno de 1921, e apesar de no início o caráter de Osip revelar-se dominador, com o passar do tempo se tornou compreensivo, protetor e afável. Contudo, viveram em grande pobreza.[1]

Osip foi um dos primeiros poetas a celebrar em verso a Revolução. Tornou-se um artista popular, mas com a ascensão de Stalin ao poder passou a expressar descontentamento com suas diretrizes. Foi isolado e teve sua obra proibida, acabando por ser preso e remetido a um campo de trabalhos forçados na Sibéria, onde morreu em 1938.[2]

Nadejda sobreviveu ao marido e depois viveu uma vida errante, passando por várias cidades com a constante preocupação de subtrair-se à atenção das autoridades policiais. Ao longo desta peregrinação ela obteve um diploma de professora de inglês, vivendo pobremente das lições que ministrava. Entre o fim da década de 1950 e os anos 1960 ela começou a conseguir alguns apoiadores, e pôde desenvolver um mestrado em linguística.[3]

A ela deve-se a preservação da obra de Osip. Quando foi preso teve sua casa vasculhada e todos os manuscritos encontrados foram destruídos. Contudo, vários estavam escondidos e se salvaram. Temendo que este material também acabasse sendo encontrado e se perdesse, Nadejda passou a estudá-lo com afinco, memorizando-o quase todo e recitando-o incansavelmente para, vinte anos mais tarde, quando as condições permitiram, após a morte de Stalin, transcrevê-lo no papel e publicá-lo.[4] Depois desta tarefa que tinha imposto a si mesma, passou a se dedicar à escrita de dois livros de memórias sobre suas vidas em comum e sobre o repressivo regime stalinista: Hope Against Hope (Esperança contra a Esperança, 1970) e Hope Abandoned (Esperança Abandonada, 1974).[4]

Essas obras a tornaram persona non grata na Rússia,[5] mas ao mesmo tempo lhe trouxeram fama,[3] e cumpriram uma dupla função: preservar a memória de vida de seu marido do esquecimento e construir a sua própria voz, através da pintura de um amplo painel da sociedade e cultura de seu tempo, transcendendo, segundo Natalia Leclerc, o caráter do mero memorialismo biográfico, e sendo um valioso testemunho histórico de uma época em que as memórias eram apagadas pelo sistema político em prol da construção de um novo modelo de sociedade.[6] Para Joseph Brodsky, as memórias de Nadejda Mandelstam "são mais do que um testemunho de seu tempo, são uma visão da História à luz da consciência e da cultura".[7]

Sobre esses livros, o crítico Clive James escreveu: "Hope Against Hope a coloca no centro da resistência liberal à União Soviética. Uma obra-prima da prosa, bem como um modelo de narrativa biográfica e análise social, é principalmente a história dos terríveis últimos anos de perseguição e tormento antes de o poeta [seu marido Osip] ser assassinado. A sequência, Hope Abandoned, é sobre o destino pessoal da autora e, de certa forma, é ainda mais terrível, porque, como o título indica, é mais sobre o horror como um modo de vida do que como uma interrupção temporária da expectativa normal. [Os dois livros] foram capítulos-chave na nova Bíblia que o século XX escreveu para nós".[8] Para o influente editor e poeta Aleksandr Tvardovsky, Hope Against Hope é uma obra de excepcional vigor e talento, onde nada é supérfluo.[3] Para Daniel Bossio, sua produção é "um documentário lúcido e extenuante" do regime comunista, do aparato repressor do Estado, das estratégias que os pensadores independentes efetivavam para sobreviver e divulgar suas ideias, bem como dos seus infortúnios, e se situa no mesmo patamar de obras como Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin, O que não posso esquecer, de Anna Larina, e Relatos de Kolimá de Varlam Shalamov, como documentos essenciais para a compreensão do período stalinista, "uma leitura imprescindível para aqueles que são interessados nestes temas ou para os que simplesmente buscam uma experiência literária inesquecível".[5]

Segundo sua biógrafa Beth Holmgren, a vida de Nadejda é poderosa e importante, e seu exemplo é particularmente notável para o feminismo.[9] Nadejda foi biografada em português pela paulistana Noemi Jaffe, no livro O que ela sussurra, lançado em 2020.[10]

Referências

  1. Holmgren, Beth. Women's Works in Stalin's Time: On Lidiia Chukovskaia and Nadezhda Mandelstam. Indiana University Press, 1993, pp. 98-105
  2. "Memórias de uma Rússia distante". Folha de Londrina, 13/06/2000
  3. a b c Holmgren, pp. 114-115
  4. a b Casarin, Rodrigo. "Mulheres Contra o Esquecimento". In: Cândido — Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, 2021 (117)
  5. a b Bossio, Daniel. "Contra tota esperança. Memòries, de Nadejda Mandelstam". BCN Cultura — Ajuntament de Barcelona
  6. Leclerc, Natalia. "Nadejda Mandelstam — gardienne de la mémoire". In: Revue de l'Institut des langues et cultures d'Europe, Amérique, Afrique, Asie et Australie, 2017 (29)
  7. Brodsky, Joseph. "Preface". In: Mandelstam, Nadejda. Contre tout espoir, Souvenirs I, [1970], traduction Maya Minoustchine. Paris: Gallimard, 2012
  8. James, Clive. Cultural Amnesia. MacMillan Press, 2007, pp. 414-415
  9. Holmgren, p. ix
  10. Wolf, Eduardo. "Livro resgata mulher que enfrentou Stalin para salvar obra do marido". Veja, 08/05/2020