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O Semanário foi um jornal brasileiro fundado por Oswaldo Costa e Joel Silveira no Rio de Janeiro, em 1956. Com tiragem de 60 mil exemplares, circulava em todo o territóro nacional, tendo redações no Rio de Janeiro e em São Paulo. O jornal, que circulou por oito anos, foi um dos poucos a se oporem ao Golpe de Estado no Brasil em 1964.[1] "O Brasil continua sendo uma colônia mal disfarçada a serviço do capitalismo estrangeiro, que aqui se faz e desfaz, como se estivesse em casa de mãe Joana." ["Maravilha das holdings", Barbosa Lima Sobrinho em sua primeira contribuição para o periódico O Semanário. Nº.149, p. 3, Ano IV, 5-11/03/1959]

Fundado pelos jornalistas Oswaldo Costa e Joel Silveira, em abril de 1956, possuindo uma tiragem de cerca de 60 mil exemplares, O Semanário circulou em todo o território nacional. Sua redação funcionava em dois endereços, no Rio, na Avenida Presidente Vargas 502 8º andar, e em São Paulo, na Rua 15 de Novembro 137, 7ª andar. Circulando por cerca de 8 anos, foi uma das mais longas publicações nacionalistas do período. O periódico surgiu num momento de arrefecimento da crise política deflagrada após o 11 de novembro de 1955. ["Movimento militar deflagrado sob a liderança do general Henrique Lott, ministro da Guerra demissionário, no dia 11 de novembro de 1955. Teve como conseqüência a destituição do presidente da República em exercício, Carlos Luz, e a posse na chefia da nação do vice-presidente do Senado, Nereu Ramos, confirmadas a seguir pelo impedimento do presidente licenciado João Café Filho. Seu objetivo era neutralizar uma conspiração tramada no interior do próprio governo com o fim de impedir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek". LAMARRÃO, Sérgio. DHBB FGV CPDOC. Coord. Geral Alzira Alves de Abreu e Israel Beloch; coordenação dos verbetes biográficos Sérgio Tadeu de Niemeyer Lamarão; coordenação dos verbetes temáticos Fernando Lattman-Weltman. 2.ed. rev. atual. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getulio Vargas, 2001.] Assegurada a normalidade democrática, O Semanário se debruçaria sobre as mais diversas temáticas da agenda política e econômica brasileira.

Defesa do interesse nacional

No primeiro editorial, O Semanário não se declarava textualmente nacionalista e se entendia como um espaço aberto para o debate político. A edição inaugural ostentava os objetivos e propósitos do jornal numa espécie de "profissão de fé":

"Nenhum povo, numa democracia que se prese (sic) pode viver, trabalhar, progredir, aprimorar suas instituições, corrigir as falhas de sua informação, traçar seus rumos e decidir sobre seus destinos sem uma informação exata e objetiva, que esclareça e oriente (...) O Semanário surge para, livre de quaisquer influências ostensivas ou disfarçadas de sindicatos econômicos e políticos, dizer a verdade, tal como é sem condescendências desfibradas (...) Seremos uma tribuna aberta ao mais amplo debate de idéias e princípios democráticos do governo e dos programas, planejamentos e iniciativas sérias de trabalho e produção (...)"[O Semanário. Editorial nº1 p. 2 nº. 1 Ano I, 05-12/04/1956]

Dentre a infinidade de temas, de natureza política e econômica abordados pelo periódico em seus oito anos de existência, uma perspectiva orientou toda a ação do jornal: a defesa intransigente daquilo que ele entendia como interesse nacional. Incluía-se aí o monopólio estatal do Petróleo, a regulação efetiva do Estado sobre a exploração, pesquisa e comercialização de minerais atômicos [naquele contexto de Guerra Fria a temática em torno da exploração e controle sobre minerais atômicos no Brasil era essencial. O Semanário fez um detalhado acompanhamento da Comissão Parlamentar de Inquérito instalada no Congresso Nacional em 1956 que teve como objetivo investigar os acordos assinados entre Brasil e EUA à respeito desta questão. Tal CPI teve como relator o deputado do PSD paulista Dagoberto Salles, que posteriormente publicou as conclusões da comissão no livro Razões do Nacionalismo. Ed. Fulgor. Rio de Janeiro. 1959.], a adoção de uma política externa independente, além do ataque direto a empresas que atuavam no Brasil, mas que pertenciam ao capital estrangeiro como a Light no Rio de Janeiro e a Bond and Share no Rio Grande do Sul.

Avesso à euforia dos "50 anos em 5" da Era JK, O Semanário colocava-se como um crítico contumaz do modelo de desenvolvimento industrial adotado naquele período. Não eram poucos os predicados atribuídos a figurões do governo JK, como Augusto Frederico Schimdt, que era corriqueiramente qualificado como agente dos trustes no Brasil, testa de ferro do capital alienígena e outros adjetivos similares. Aliás, a linguagem panfletária do periódico e a irreverência de algumas ações lhe garantiam uma ampla popularidade e legitimidade entre os setores nacionalistas do cenário político brasileiro naquele momento. [Isso pode ser verificado nas inúmeras cartas dos leitores publicadas nas edições do periódico. O Semanário se entendia como um baluarte na defesa dos interesses nacionais, ou ainda, segundo alguns leitores um "oásis na imprensa brasileira... um jornal que usa a linguagem expressiva da verdade", entre outros adjetivos. O Semanário. P 1 2º caderno. Ano II nº.79 11-18/10/1957. Nas últimas edições do ano de 1957 o periódico fez uma espécie de concurso/enquête com os leitores perguntando a respeito dos dez mais entreguistas da política brasileira, figurou em primeiro lugar o nome do empresário Assis Chateaubriand, proprietário do Grupo Diários Associados. Chatô era um dos alvos preferidos do periódico quando este se referia a chamada imprensa sadia, uma clara ironia aos grandes órgãos de imprensa no Brasil da década de 50.]

O Semanário se opôs decididamente ao nacional desenvolvimentismo dos anos juscelinistas, identificava-se muito mais como um nacionalismo popular que ganhava corpo e popularidade no Brasil da década de 50. O nacionalismo popular do periódico postulava muito claramente um modelo desenvolvimento industrial no qual o Estado regulamentaria com rigor a atividade econômica numa espécie de "capitalismo de Estado", aonde este não faria concessões ao capital estrangeiro.

Base de apoio a Jango

Em momentos críticos da conjuntura política brasileira O Semanário manteria sua postura coerente e combativa aos grupos políticos considerados entreguistas. O periódico não hesitaria em se engajar de forma profícua na campanha presidência da chapa Lott/ Jango em 1960, o mesmo ocorreria na crise sucessória deflagrada após a renúncia de Jânio Quadros e outros momentos decisivos do conturbado governo Jango, como o plebiscito pelo presidencialismo em janeiro de 1963 e na defesa das Reformas de Base, última grande bandeira da Era João Goulart.

Compondo a base de apoio do governo Jango, as atenções da linha editorial de O Semanário se voltaram à denúncia da possibilidade demarcada e (já prevista) da conspiração golpista por parte de grupos conservadores. Neste momento, a preocupação do jornal se centrou na manutenção da ordem democrática e na continuidade do projeto nacional reformista, alavancado após o comício da Central do Brasil naquela sexta feira, 13 de março de 1964. Na leitura das ultimas edições, em diversos momentos encontramos matérias alertando as forças progressistas sobre a movimentação dos grupos conservadores: Golpistas se organizam e se armam por todo o Brasil [O Semanário. P. 5. Nº. 375. Ano VIII 12- 18/03/1964]. Nesta mesma matéria, o periódico apontava nominalmente os principais figurões, civis e militares, articuladores do golpe: Carlos Lacerda (governador da Guanabara); o almirante Silvio Heck (ex-ministro da Marinha do Governo Jânio Quadros), Bilac Pinto (então presidente da UDN), o marechal Humberto Castelo Branco (então Chefe do Estado Maior das Forças Armadas) e Adhemar de Barros (governador de São Paulo) são destaques. Numa linguagem que mesclava acidez e sarcasmo estas lideranças conservadoras eram continuamente ridicularizadas pelo periódico.

O dispositivo militar deflagrado em 31 de março/ 1º de abril de 1964, mais do que impedir a continuidade dos trabalhos do periódico (sua redação foi invadida e fechada logo após o golpe) representou o início dos trabalhos de enfrentamento da imprensa financiada pelos serviços secretos da Checoslováquia e da extinta URSS.

Financiamento comunista

Segundo o livro "1964 - O ELO PERDIDO", dos escritores Mauro Abranches Kraenski e Vladimír Petrilák, consta dos registros do serviço secreto da Checoslováquia (StB),que o governo comunista da checoslováquia e da URSS financiaram com remessas de dinheiro as edições jornalísticas de "O Semanário" a partir de outubro de 1962, objetivando que o jornal divulgasse sobre as conferências de defesa de Cuba. [2][3][4]

Ligado à chamada "imprensa nacionalista de esquerda", dedicava-se à defesa do que entendia ser o "interesse nacional", incluindo-se aí o monopólio estatal do petróleo, a regulamentação efetiva do estado sobre exploração, pesquisa e comercialização do urânio e outros "minerais atômicos". Foi crítico contumaz do modelo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e das idéias de Assis Chateaubriand (considerados "entreguistas" pelo periódico), defendendo em contrapartida um modelo de desenvolvimento industrial baseado na regulamentação da atividade econômica pelo Estado, sem concessões ao capital estrangeiro.[5]

Compôs a base de apoio ao governo João Goulart, voltando sua linha editorial à denúncia da possibilidade de conspiração golpista por parte dos setores conservadores da sociedade. Defendeu a manutenção da ordem democrática e a continuidade do projeto nacional reformista. Com o golpe perpetrado em 31 de março de 1964, teve sua redação invadida e foi obrigado a fechar as portas.[6]

Ver tambémEditar

Referências

  1. Leonidas de Brito, Leonardo (22 de maio de 2007). «A imprensa nacionalista no Brasil e o golpe: O Semanário». Observatório da Imprensa. Consultado em 10 de julho de 2010 
  2. 1964 O Elo Perdido, de Mauro Abranches Kraenski e Vladimir Petrilák, ed. 2017, p. 183, Vide Editorial
  3. Leonardo Brito (2011). A Imprensa Nacionalista no Brasil. O Periódico O Semanário (1956 1964). [S.l.]: Paco editorial. ISBN 9788563381415 
  4. Leonardo Brito (2011): «"O Semanário" - Um Jornal que vale por um livro - Um estudo de caso sobre a imprensa nacionalista do Brasil (1956-1964)», em Anais do XXVI simpósio nacional da ANPUH - Associação Nacional de História, vol. 1, nº 1. 978-85-98711-08-9
  5. Souza Brasil, Rafael do Nascimento. «Sob o lábaro fardado» (PDF). Associação Nacional de História - Rio de Janeiro. Consultado em 10 de julho de 2010 [ligação inativa]
  6. Almeida, Guy de. «Tempos da Imprensa nos Anos de Chumbo» (PDH). Revista do Legislativo, n.º 29. Consultado em 10 de julho de 2010 [ligação inativa]