Abrir menu principal

Além-homem (filosofia)

(Redirecionado de Super Homem (filosofia))
Disambig grey.svg Nota: Se procura o super-herói, veja Superman.
Friedrich Wilhelm Nietzsche

Além-homem, ou super-homem é o termo originado do alemão Loudspeaker.svg? Übermensch, descrito no livro Assim Falou Zaratustra (Also sprach Zarathustra), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em que explica os passos através dos quais o homem pode se tornar um 'além-homem' (homos superior, como no inglês Beyond-Human a tradução também pode ser compreendida como Além-do-humano).

  • Através da transvaloração de todos os valores do indivíduo;
  • Através da sede de poder (vontade de potência), manifestado criativamente em superar o niilismo e em reavaliar ideais velhos ou em criar novos.
  • E, de um processo contínuo de superação.

O além-homem foi contrastado com a ideia do "último homem", que é a antítese do Übermensch. Visto que Nietzsche não era considerado um exemplo de Além-homem em seu tempo, (através do “porta voz” de Zaratustra), ele declarou que havia muitos exemplos de últimos homens. Zaratustra atribui à civilização de seu tempo a tarefa de preparar a vinda do Übermensch. Na compreensão deste conceito, entretanto, tem-se que recordar a crítica ontológica de Nietzsche quanto ao assunto individual que reivindicou “uma ficção gramatical”.[1][2]

O além-homem ou também super-homem, tem como qualidades principais a faculdade de esquecer e a afirmação da lei do eterno retorno. Já a terceira qualidade que complementa estas duas é a importância que atribui ao que existiu e o desejo de ocorrência de novo por toda a eternidade do que foi vivido. Essa terceira qualidade é denominada amor fati, amor ao destino, e significa que não deve haver arrependimento do homem na vivência de seus valores. Nietzsche defende que em toda cultura e indivíduo coexistem duas morais básicas, ou seja, a moral aristocrática (moral dos senhores ) e a moral do escravos (moral do rebanho).

A moral aristocrática e do rebanhoEditar

Ao longo da história, segundo Nietzsche, teriam prevalecido diferentes morais. Na Roma Antiga predominou a moral aristocrática (moral dos senhores), enquanto que, a partir da ascensão do cristianismo, até o século XIX , dominou, ou saiu vencedora, a moral dos escravos. Apesar de considerar a moral dos escravos inferior a moral dos senhores por várias razões, isso não significa que Nietzsche não reconheça o papel desempenhado por essa moral na construção do homem moderno, além da possibilidade de desempenhar igual papel na superação dessa moral. Uma das críticas à moral dos escravos (moral platônico-cristã, ou moral da compaixão) é que ela se apresenta como moral universal, válida para todos os indivíduos. Esse caráter absoluto da moral do não egoísmo prejudicaria os homens fortes, na medida em que sua aplicação não é adequada para tais tipos de homens. A moral dos escravos só seria adequada aos homens fracos, àqueles que defendem os valores da compaixão, do não egoísmo, da bondade, justiça e da fraqueza. Em segundo lugar, a moral dos escravos constitui-se em uma moral negativa da vida e dos valores afirmativos da vida, os quais foram criados pelos nobres. Como a nobreza e seus valores representam uma ameaça para a existência dos fracos, a moral platônico-cristã inverte os valores nobres e os valora como negativos, estimando-os como nocivos à vida em geral, quando eles são nocivos apenas à vida dos escravos. Os valores aristocráticos (nobres), como a coragem, honra, força e crueldade, são afirmativos da vida e existem por si só, não constituindo uma reação aos valores preconizados pela moral dos escravos.

No entanto, apesar de a moral escrava ser uma moral reativa, que exprime uma reação à moral dos senhores (que é moral afirmativa da vida), ela também é criadora de valores, porquanto também expressa vontade de poder em ação, mesmo que seja a vontade de poder dos mais fracos. O fato dessa moral platônico-cristã ter predominado nos últimos dois mil anos não significa que ela predomine para sempre na cultura ocidental. Ao contrário, elementos (valores) como inteligência, astúcia e uma certa espiritualidade, características desenvolvidas ao extremo na moral dos escravos, permitem vislumbrar uma superação dessa moral por um tipo além-do-homem, ou espírito livre, que combine tais características com os valores já citados da moral dos senhores. Esse espírito livre, um tipo mais elevado de homem, que combina valores da moral dos senhores e da moral dos escravos, tem como qualidades básicas oriundas da moral dos nobres a coragem, honra, beleza, força e crueldade, além de ter como qualidades da moral dos escravos a inteligência, astúcia e uma certa espiritualidade. Importante salientar que Nietzsche não afirma que a superação da moral escrava, com o desenvolvimento de um determinado tipo de homem cuja base seja o aristocrata e o cume seja o espirito livre, o que supõe as condições propícias para a sua existência e crescimento, implique no fim da moral escrava. A moral da compaixão, segundo Nietzsche, continuará a vigorar nas relações entre os escravos e como contraponto das morais afirmativas. A pluralidade de morais, seja a existência de morais afirmativas, seja reativas, é considerada uma condição propícia para o nascimento de um novo tipo de homem, denominado por Nietzsche além-do-homem, super-homem, homem redentor, espírito livre, homem superior e filósofo do futuro.

Além disso, a moral dos espíritos livres não é uma moral dogmática. Ela pode e deseja coexistir com outras morais, inclusive morais contraditórias ou reativas, como a moral para os homens inferiores ou escravos de algum tipo, moral da compaixão ou do não egoísmo, que se condensa na moral platônico-cristã. Se a moral platônico-cristã (moral do rebanho) enfraquece ou degrada o homem, isso se deve ao fato que a moral para espíritos livres expressa uma vontade de poder ativa, afirmação da vida e de valores superiores, sendo que a moral da compaixão expressa uma vontade de poder reativa. De fato, como afirma Oswaldo Giacoia Junior (Nietzsche: o humano como memória e como promessa, pp. 12-13. 2ª Ed. Petropolis, RJ: Vozes, 2014) , a debilidade dos fracos (escravos) é de caráter ontológico , repousando numa fraqueza ou enfermidade da vontade que quer o nada, em lugar de estar em harmonia com a afirmação da vida. Assim, a debilidade dos fracos não se fundamenta na força física, nem na dominação com base em riqueza econômica, situação de classe social ou poder político.

Em linhas gerais, Nietzsche defende uma moral pluralista e não universalista, sendo que há uma moral para os homens elevados e uma moral para os homens medíocres. Contudo, individualmente, o homem pode, mediante o cultivo disciplinado de suas qualidades, atingir o estado de um homem superior, do próprio Além-do-Homem, visto que o homem é uma meta, uma ponte para algo além dele.

Transvaloração e condições para o surgimento do espírito livreEditar

Nietzsche chama atenção para o fato de que a moral afirmativa pode ser dominante mesmo quando o novo tipo de homem seja minoria, pois o que interessa é a vontade de poder dominante, que ela seja ativa em lugar de reativa. Na verdade, é raro que se criem as condições para que floresçam homens fortes, destacados, espíritos livres, e pode acontecer que não se obtenha um grande número desse tipo especial de homem. Todavia, o que Nietzsche pretende é que haja experiências morais que possibilitem a criação do além-do-homem, tal como foi possível com o advento da sociedade romana ou a aparição de determinadas figuras públicas (Napoleão, César Bórgia, Wagner e Goethe) ao longo da história. Num determinado sentido Nietzsche distingue o além-do-homem, super-homem ou espírito livre, do homem designado homem superior. O homem superior é aquele que se livra dos erros mais comuns das representações da moral dos escravos, além das concepções da religião e da metafísica. Já o espirito livre ou super-homem (além-do-homem) designa um estágio posterior em que tal ser está livre de toda moral legisladora, que o obriga a agir segundo tal lei moral, que inclusive é anterior ao indivíduo e tem fundamentos religiosos e metafísicos. A transvaloração de todos os valores implica que a lei moral deve ter por função o engrandecimento do homem, invertendo os valores da moral platônico-cristã, de modo que o espírito livre esteja além do bem e do mal. A lei moral deixa de ser algo dado a priori e cujo descumprimento implica na imposição de um castigo para o homem. A transvaloração de todos os valores significa que o dever e a verdade , bem como a relação culpa/castigo devem ser abandonados, a fim de que o espírito livre seja senhor de si mesmo e de suas virtudes afirmativas. O espírito livre é expressão da transvaloração de todos os valores, não havendo um querer livre sem a inversão dos valores da moral platônico-cristã e a depreciação da moral em geral. O espírito livre deve ser livre em relação a toda lei moral , na medida que a moral só se justifica na concretização desse tipo de homem mais elevado. Tal tipo de homem (espírito livre), como se viu, afirma ao máximo os valores e virtudes superiores , valores que podem resultar de uma certa combinação dos valores inerentes à moral aristocrática e à moral dos escravos. A perspectiva de Nietzsche não implica, igualmente, que os homens inferiores (que praticam a moral dos escravos em lugar da moral dos senhores) não possam tornar-se espíritos livres. Comandar e obedecer não são atributos fixos e imutáveis. O homem que obedece pode em outro momento comandar. O que Nietzsche afirma é que o homem elevado (especialmente o espírito livre) é mais raro de florescer, o que se justifica pelos enormes antagonismos de suas características, gerando uma forte tensão.

A debilidade dos fracos como sendo ontológica (como visto acima) irá resultar em que regimes políticos como a democracia e o socialismo, mesmo que promovendo igualdade em vários níveis, não podem suprimir a desigualdade no plano da vontade de poder. Ou seja, esses regimes não podem dar condições ao surgimento de espíritos livres. As dificuldades para o florescimento destes em grande número, em um povo ou uma cultura, não significa que não possam aparecer em pequeno número nas formações sociais mais variadas e a sua superioridade fará com que comandem os mais fracos, a maioria, no plano político. A Humanidade não deveria combater mas proteger esses exemplares mais destacados, em lugar da proteção do homem comum, medíocre, o homem de rebanho. Proteger o homem forte e seus valores afirmativos não significa que se deva impedir condições favoráveis para que o homem fraco também manifeste uma vontade de poder ativa. Apesar de mencionar que o espírito livre (além-do-homem) necessita de uma sociedade aristocrática (como a Roma Antiga) para o seu florescimento, pode defender-se que o socialismo e a democracia criam condições materiais para que um número maior de pessoas concretizem os valores da força, inteligência e uma certa espiritualidade, valores típicos da moral do além-do-homem. Nesse sentido, uma certa igualização do exercício do poder, que pode ser promovida pelo socialismo e democracia, não significa enfraquecimento do homem, visto que a questão fundamental é o exercício da vontade de poder ativa.

Vontade de potência e a morte de deusEditar

Além-Homem

A possibilidade de um homem livre e levado, acima de toda moral, implicava a superação da moral platônico-cristã, daí a noção de que há que este homem surge após a proclamação da morte de Deus e da abertura de todo um caminho de possibilidades e perspectivas efetivamente humanas. Não há, entretanto, qualquer obrigatoriedade de surgimento do além-do-homem, na medida em que ele se apresenta como uma possibilidade remota, muito mais difícil de ocorrer que a do homem mediano, inferior, medíocre, que acredita em uma moral universal e em Deus. O além-do-homem, o espírito livre, precisa de condições específicas para a sua emergência. E a mais importante delas é a existência de homens inferiores que cultivem um tipo de vida de declínio, de fraqueza, tipo de vida que se opõe e resiste ao tipo de vida praticado pelo homem superior. Assim, Nietzsche não luta para a aniquilação dos ideais cristãos, na medida que a força desses ideais é necessária para opor resistência aos ideais aristocráticos e inclusive aos ideais da nova moral futura.

A motivação de Nietzsche ao dizer que Deus está morto pode ser interpretado como o pensamento teológico cristão esquecido no passado, ou seja, da maneira de pensar centrada em Deus. Somente sendo capaz de criar seus próprios valores um homem pode tornar-se um "Além-do-Homem" (Übermensch). O ponto de partida para essa transvaloração do homem é a destruição do cristianismo, que deu início às formas de pensamento igualitarista que por fim teriam destruído o Império Romano, e que agora forças semelhantes operam na modernidade através de doutrinas como o comunismo. Esse "amolecimento dos sentimentos" era uma afirmação de medo diante da vida, o fraco exalta as virtudes da compaixão porque sabe que depende desta para existir. E a tendência metafísica do cristianismo seria uma fuga da própria realidade, uma negação da vida. O homem deveria parar de esperar que as pessoas que os importunam sejam punidas em uma outra vida, ou esperar serem recompensados após a morte. Deveriam abraçar este mundo e agir neste, seria a única forma de enfrentar o niilismo após a morte de Deus, pois quando o homem estivesse sozinho teria muita dificuldade em encontrar um significado na vida.

A irmã de Nietzsche, que o acompanhou nos seus últimos tempos de vida inconsciente, ofereceu a bengala de Nietzsche a Hitler. Fato que gerou um mal-entendido acerca da pretensa associação de Nietzsche à causa nazista. Nietzsche sempre desaprovou o antissemitismo, que fazia parte da cultura alemã há séculos. No entanto tinha uma visão política aristocrática, dividia os homens entre superiores e inferiores e, enquanto filósofo, nas primeiras décadas do século XX, fazia parte do repertório intelectual reacionário, apesar de que é duvidoso o que o próprio Nietzsche pensaria sobre as ideias fascistas. Em nenhum momento foi um nacionalista alemão, sua defesa da aristocracia parecia se tratar de um estágio primitivo da natureza humana, não da formação de um Estado moderno.

Ver tambémEditar

Referências

  1. Hollingdale, R. J. (1961), page 44 - English translation of Zarathustra's prologue; "I love those who do not first seek beyond the stars for reasons to go down and to be sacrifices: but who sacrifice themselves to the earth, that the earth may one day belong to the Superman"
  2. Nietzsche, F. (1885) - p. 4, Original publication - "Ich liebe die, welche nicht erst hinter den Sternen einen Grund suchen, unterzugehen und Opfer zu sein: sondern die sich der Erde opfern, dass die Erde einst des Übermenschen werde."
  Este artigo sobre filosofia/um(a) filósofo(a) é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.