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O índice da primeira edição de Primeiras Estórias traz, conto por conto, ilustrações de acordo com esboços feitos pelo próprio Guimarães Rosa, redesenhados depois pelo desenhista Luís Jardim, como este especialmente para "A Terceira Margem do Rio".[1]

"A Terceira Margem do Rio" é o conto mais famoso e uma das obras mais influentes do escritor brasileiro Guimarães Rosa, publicado em seu livro Primeiras Estórias, lançado em 1962.

Narrado em primeira pessoa pelo filho de um homem que decide abandonar a família e toda a sociedade para viver dentro de uma pequena canoa num imenso rio.

Guimarães Rosa dá um tom regionalista e universal ao conto, em estilo de prosa poética e oralidade específica, tratando de grandes dilemas da existência humana.

Antecedentes e contextoEditar

"A Terceira Margem do Rio" se encontra no livro Primeiras Estórias, publicado em 1962 pela José Olympio.

 
Guimarães Rosa, anos 60.

Inspiração e escritaEditar

No quarto prefácio de Tutaméia, livro de contos, última obra publicada em vida, Guimarães Rosa confessa:

"(...) A "Terceira Margem do Rio" (de Primeiras Estórias) veio-me na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para "pegá-la", como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. (...)"[2]

Esta curta explicação é dada, no mesmo prefácio, junto a diversas outras explicações de como surgiram outras obras do escritor, geralmente por meio de uma inspiração mágica: "Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponho escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. (...) No plano da arte e criação – já de si em boa parte subliminar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações."[2]

 
Avenida Presidente Vargas, 1958.

Em relação à "A Terceira Margem do Rio", Rosa não deixou registrado e especificado em qual rua tivera a sua inspiração, mas o colecionador, editor e jornalista João Condé - que chegou a ter correspondência direta com outros escritores, como João Ribeiro, Gilberto Freyre, Aníbal Machado, Murilo Mendes, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Coelho Neto, entre outros,[3] correspondências essas guardadas naquilo que Carlos Drummond de Andrade chamava de "Arquivos Implacáveis",[4] milhares de fotografias, caricaturas, cartas, bilhetes, depoimentos etc. relativos a mais de 40 anos da literatura brasileira, figurando importante dentro da fortuna crítica de Guimarães Rosa a carta de 19 onde lhe revela detalhes de como escreveu Sagarana ( ) -, costumava contar, no início dos anos 70, na redação do Jornal de Letras, em Copacabana, que fundou junto aos irmãos Elísio Condé e José Condé (escritor que também tivera amizade com Rosa), que Rosa teve a ideia súbita de "A Terceira Margem do Rio" em plena Avenida Presidente Vargas, no centro nervoso do Rio de Janeiro.[5]

Às seis da tarde, "hora do rush", Rosa, diplomata, acabava de deixar o Palácio do Itamaraty, onde exercia cargo de chefe da Divisão de Fronteiras, e, fumando seu cigarro Yolanda, andava um trecho a pé da larga avenida de quatro pistas e 80 metros de largura. Wilson Bueno, escritor e colega de Condé, relembra o relato em crônica de 2008:

(...) Homem sensível, de traço feminil, ao perceber-se engolido pelo tráfego pesado, literalmente no meio da rua, Rosa quase tem um chilique. Salva-o o talento de predestinado das letras: tomando a avenida como a metáfora de um rio, fulmina-o, naquele exato instante - destacava o saudoso João Condé -, a ideia daquela que viria a ser uma das mais antológicas peças da literatura brasileira, e de todas as literaturas, o conto “A Terceira Margem do Rio”.
A peça inteira, leitor, sua montagem e textura, suas engrenagens e engenharias, lhe vem à mente. O seu começo, o seu meio e o seu fim. De um jeito mediúnico e, como se vê, de modo rigorosamente imprevisto.
Guimarães Rosa, nervoso, ofegante, segue incólume por entre carros, buzinas, urros, freadas, desvios, acenando inutilmente para um táxi, mas já a caminhar na direção do primeiro ponto de ônibus. Não havia tempo a perder.
O terno elegante encharcado de suor, embarca no primeiro lotação que leve ao Posto Seis, onde vive com Araca, a sua sempre Araci, no belo apartamento da rua Francisco Otaviano, no que, anos depois, ele próprio detalharia em depoimento célebre: aquela vez, repetia sempre, era como se equilibrasse aos ombros, sem figura de retórica, uma cristaleira.
Uma cristaleira -enfatizava João Condé, pitando seu Hollywood- de uma cristaleira mesmo, onde tremelicavam, impávidos, os mais finos cristais, isto é, personagens, diálogos, entrechos, tons, entretons, linguagem, embocadura. Toda a dobrante e dobrável estrutura de “A Terceira Margem do Rio”. (...)"
– “Sabe do que o Rosa mais teve medo aquele dia?” – perguntava o bom Condé, fazendo uma pausa e já antegozando a própria resposta. – “O maior medo dele foi, aquele dia, o de topar com um amigo, sobretudo carioca...”
– “Como assim?” – perguntei.
– “Temia, a sério, um abraço, desses efusivos e espalhafatosos, que só os cariocas sabem dar... Podia que fizesse, o abraço, desabar a cristaleira...”[5]

EnredoEditar

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

—Guimarães Rosa, "A Terceira Margem do Rio", parágrafo inicial.[6]

GênerosEditar

Regionalismo e sertanismoEditar

NeobarrocoEditar

Estória, ao invés de história ou contoEditar

TemasEditar

AlienaçãoEditar

Em artigo de fevereiro de 1966 sobre os contos de Primeiras Estórias e a obra geral de Guimarães Rosa, Paulo Rónai conclui que "A Terceira Margem do Rio" trata da alienação que é "aceita como parte dolorosa da rotina da vida quando se declara paulatinamente". O narrador do conto iria se contagiando com a demência do pai.

Relação entre pai e filhoEditar

https://books.google.com.br/books?id=CFxfAAAAMAAJ&q=%22discutidos+do+autor,+trata,+como+%C3%A9+sabido,+do+mesmo+tema%22&dq=%22discutidos+do+autor,+trata,+como+%C3%A9+sabido,+do+mesmo+tema%22&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjRp56T2JbcAhVEkJAKHTSmAO0Q6AEIKDAA

EstiloEditar

De fato, a linguagem de Guimarães Rosa emerge, sob a lupa da alegoria diabólica, em sua natureza de travessia. Entre o registro rrudito e o regional, entre a sintaxe rigorosa e a sincopada, a semantica oficial e o neologismo, Rosa trata a língua portuguesa tal como o pai de seu conto: 'perto e longe de sua família dele'.[7]

OralidadeEditar

Sobre a oralidade, Rónai, em seu artigo de 1966, observa que os contos de Primeiras Estórias "porejam modismos e fórmulas que estamos habituados a ouvir na boca de pessoas do povo e que, em seu frusto vigor, dão à fala popular sabor e energia deliciosos", destacando, por exemplo, as frases de "A Terceira Margem do Rio": "Nosso pai nada não dizia.", "Do que eu mesmo me alembro", "Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua", "perto e longe de sua família dele", "avisado que nem Noé". Rosa, assim, não seria um escritor que meramente reproduz a linguagem popular, pois também lança mão de neologismos, numa arte que, para Rónai, torna-se "tão provocativamente original". Destaca outras frases dos outros contos do livro junto às frases "a alguma recomendação" e "pelas certas pessoas", presentes no "A Terceira Margem do Rio", para notar o uso do artigo definido na frente dos adjetivos indefinidos, prática comum na aparência popular e regional e no estilo oral.

NeologismosEditar

Como dito anteriormente, Rosa não só retrata um falar popular e sertanejo, como também inventa novas palavras e termos em suas obras. Em "A Terceira Margem do Rio", o neologismo "diluso" é uma variante possível de "diluto", "diluído".


Em carta-resposta de 5 de fevereiro de 1963 para o poeta Murilo Mendes, entre diversos outros apontamentos sobre vários assuntos, Guimarães Rosa escreve:

"(...) Agora, respondendo às consultas: 1) rio-pondo não é nada, é espécie de "in die busîllis", busílis, é rio — pondo perpétuo (o risquinho não é hífen, mas um travessão; foi que, lá na José Olympio, começaram com isto de botar encostadinhos nas palavras os travessões, à moda inglesa, só para confusão nossa, que estamos milenarmente acostumados à maneira nossa, latina, de deixar os ditos — —s afastados decentemente das palavras, pois); 2) quanto ao diluso, Você é que está certíssimo, pois ali a palavra quer dizer "diluído", apagado, esbatido, sfumatto, menos que vulto. (...)"[8]

Em relação a rio — pondo perpétuo, que deve ter causado confusão em Mendes, fora corrigido nas edições subsequentes e nas modernas, onde surge conforme a preferência de Rosa.

InterpretaçõesEditar

PsicanalíticaEditar

https://books.google.com.br/books?id=J4KIcP327jEC&pg=PA176&dq=cr%C3%ADtica+de+a+terceira+margem+do+rio&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwi8_M6f2ZbcAhUBHZAKHbkgA_QQ6AEINzAC#v=onepage&q=cr%C3%ADtica%20de%20a%20terceira%20margem%20do%20rio&f=false

https://books.google.com.br/books?id=pnrippsOKrkC&pg=PA132&dq=%22outra+vida,+outro+mundo,+outra%22&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjCjrDV3JbcAhVGHpAKHSzkBOYQ6AEILTAB#v=onepage&q=%22outra%20vida%2C%20outro%20mundo%2C%20outra%22&f=false p.132

https://books.google.com.br/books?id=UT4-AQAAQBAJ&pg=PT50&dq=%22a+terceira+margem+do+rio+trata%22&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwj3nrXL4JbcAhXIHJAKHV1sBPEQ6AEIKDAA#v=onepage&q=%22a%20terceira%20margem%20do%20rio%20trata%22&f=false

Lacanianos vêem "A Terceira Margem do Rio" como uma obra "histérica", que recusa o lugar de quem produz o gozo e subverte a relação senhor-escravo, quebra a relação com o servo.[9] O pai do conto, é visto como um homem do sertão que se questiona e decide não aceitar a sua posição de "mestre-senhor". Na estrutura do sujeito do filho e do pai, estaria configurada a "histérica", aquela que recusa ser o suporte do gozo.[9] Um dos efeitos que Lacan identifica à língua é o de articular o que vai além do que o falante "suporta de saber enunciado", processo este que psicanalistas enxergam como o que Rosa se aproxima em sua linguagem confeccionada entre registro erudito e regional, sintaxe rigorosa e sincopada, semântica oficial e neologismo.[7]

FilosóficasEditar

Transcendental, teológica e místicaEditar

Muito comuns na fortuna crítica de "A Terceira Margem do Rio" são as leituras e interpretações transcendentais, teológicas e místicas do conto, a partir da simbologia que o rio representa e sobretudo pelo insólito da narrativa, diante do absurdo e da falta de maiores detalhamentos e explicações pelo narrador a respeito dos motivos da fuga de seu pai. É preciso considerar, também, que o realismo da ação em "A Terceira Margem do Rio" é decididamente duvidoso,[10] na medida em que o pai, contra as limitações materiais reais, permanece na canoa por tempo longo demais, até o início da velhice do filho. Estudos de Alfredo Bosi e Leyla Perrone-Moises são dois dos mais conhecidos neste aspecto, analisando as possibilidades de transcendência da história de Guimarães Rosa.[11]

Bosi, em seu Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica, afirma que o personagem é movido para o devir da fantasia por meio de um vazio e, baseado na fenomenologia do espírito de Hegel, o eixo interpretativo se estabelece, primeiro, acerca do deslocamento absoluto, segundo, sobre a profunda piedade do vivido, terceiro, da neutralização do conflito.[12] Assim, Bosi fixa o sentido do texto de modo teológico e o conto é sintetizado como a passagem do inferno ("necessidade") para o reino celeste ("liberdade"), onde o absurdo inicial é resolvido pelo desenrolar da narrativa.[12]

Perrone Moises, em seu artigo "Para atrás da serra do mim", embasada em estudos foucaultianos e freudianos, empreende uma perspectiva transcendente por meio da análise do inconsciente do personagem, do tópico da loucura e do "fim do pacto social".[13] De acordo com esta interpretação, "A Terceira Margem do Rio" seria a margem de conciliação entre razão e loucura e do entendimento realizado pela quebra da racionalidade: "Se os “loucos” servem para demonstrar as incertezas do senso comum, os poetas servem para abalar as certezas da ciência e para ampliar o saber do inconsciente. Graças a eles, temos notícias de verdades que estão para além da razão, em alguma terrível ou maravilhosa continuação. Graças a eles, “entendemos que”."[14]

Mitológica e bíblicaEditar

Outra vertente interpretativa de "A Terceira Margem do Rio" é a que considera a mitologia clássica e as lendas ou referências bíblicas.[15] O mito bíblico de Noé é citado pelo próprio narrador para se referir como certas vizinhanças passaram a enxergar seu pai em face de mudanças na natureza: "(...) as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado (...)"[16]

A perspectiva bíblica e cristã é explícita em autores como Lorenzo Papette, italiano, que, em seu "A canoa e o rio da palavra" ( ), vê o conto como uma alusão à história de Jesus e Deus: "O entregar-se do pai às águas e o seu silêncio reportam a mitos bíblicos e a temáticas místico-religiosas, sendo as águas interculturalmente ligadas à sacralidade e a forças tão geradoras como purificadoras. Simbólico e relevante é o mesmo início do texto: “Nosso pai” – expressão que o narrador empregará por todo o conto para se referir ao pai – imediata alusão ao “Pai Nosso” das orações. Ecos religiosos emergem também da presença de elementos e imagens formando tríades: rio/pai/filho; divino/humano/natural; corpo/mente/espírito; terra/céu/água."[17] O gesto decisivo do pai, cumprido friamente no relato inicial do conto, é encarado pelo LORENZO PAPETTE como "típico de quem se encontra num estado de exaltação mística" e o afastamento brusco da vida cotidiana, familiar e social interpretado como uma analogia ao sacrifício da salvação.[18] A relação com o filho, que, só no final de sua "vida terrena", compreenderia a importância de entrar no rio, sobretudo no final do relato, onde parece por um momento ser favorável a trocar de lugar com o pai na canoa, é vista como uma passagem para o "além", sacrifício final e transmissão de herança espiritual.[19]

A respeito da perspectiva mitológica, o conto tem sido associado à travessia grega de Caronte, divindade infernal, velho, seminu, de expressão sombria e sinistra, barqueiro cuja função era fazer as almas dos mortos atravessarem o Aqueronte, rio que as separava dos infernos, para atingirem sua morada definitiva.[20] Outro rio significativo na mitologia grega é o Estige, que percorria a região infernal e tinha ambígua ou dupla característica: enquanto alguns autores o atribuem caráter ruim, envenenando homens e animais, no mito de Aquiles este é mergulhado pela mãe Tétis para que as águas do rio o tornassem invulnerável e imortal.[21]

Os críticos que procuram refutar estas interpretações as consideram estreitas e notam que, embora exista no conto a ideia do isolamento do sujeito numa canoa, a história de Rosa, ao contrário da ocorrência do mito e da referência cristã, não possui a perspectiva do ser heróico da salvação.[15]

SociológicasEditar

patriarcado: https://books.google.com.br/books?id=pnrippsOKrkC&pg=PA133&dq=%22+Al%C3%A9m+disso,+quero+acrescentar,+por+for%C3%A7a+mesmo+de+explicar+essa%22&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjIuLXt3pbcAhWKEZAKHefNCeoQ6AEIKDAA#v=onepage&q=%22%20Al%C3%A9m%20disso%2C%20quero%20acrescentar%2C%20por%20for%C3%A7a%20mesmo%20de%20explicar%20essa%22&f=false p.134 135 137 138 141 143

Muitas personagens de Primeiras estórias acham-se privadas de saúde, de recursos materiais, de posição social e até mesmo do pleno uso da razão. Pelos esquemas de uma lógica social moderna, estritamente capitalista, só lhes resta esperar a miséria, a abjeção, o abandono, a morte. O narrador, cujo olho perspicaz nada perde, não poupa detalhes sobre o seu estado de carência extrema.4 (BOSI. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica, p.223.)

Modernista e poéticaEditar

SEGUNDO AS DEFINIÇÕES DE MODERNIDADE E MODERNISMO EM AUTORES COMO BRADBURY E MACFARLANE EM MODERNISMO: GUIA GERAL X. Uma das associações da palavra é o advento de uma nova era de alta consciência estética e não-figurativismo, em que a arte passa do realismo e da representação humanista para o estilo, a técnica, a forma espacial em busca de uma penetração mais profunda da vida (BRADBURY & MCFARLANE. Modernismo: Guia Geral, p.17-18.) [22]


No segundo artigo, “A Poética Moderna em ‘A Terceira Margem do Rio’, de João Guimarães Rosa”, Bárbara Del Rio Araújo discute a fortuna crítica de Primeiras Estórias, empenhando-se em demonstrar que, em Rosa, os dispositivos de “indeterminação” do sentido configuram uma “poética moderna”, poética que contradiz as leituras transcendentais ou místicas recorrentes nas interpretações do conto estudado.


CRITICA TAIS INTERPRETAÇÕES. Deste modo, ambas interpretações apostam em uma perspectiva contrária a que se mostra no conto. Nele, não há possibilidade de transcendência, resolução ou síntese. O que se vê é a convivência das ideias opostas, o trabalho com o paradoxismo e com a ambiguidade sem fim: (p.13) "A gente teve de se acostumar com aquilo"

Percebe-se que a ideia de “acostumar” com a situação, com o problema absurdo, não implica em resolução; ao contrário, evidencia que o conflito que permanece, ainda que tentassem ver a situação com o olhar de normalidade. Desconstruindo essas interpretações, o conto se mostra aberto, sem fixação de sentido aparente.(Araújo, 2016, p.13-14)

“A Terceira Margem do Rio” é modernista na medida em que coloca em exercício as ideias modernas. Além disso, essa obra é moderna, já vez que apresenta em sua construção os modelos tradicionais de representação e racionalidade e seu contrário. Uma obra moderna: é a única arte que corresponde à trama do nosso caos. É a arte decorrente do princípio de incerteza, de destruição da civilização da razão, do mundo transformado e reinterpretado pelo capitalismo e pela continua aceleração industrial, da vulnerabilidade existencial à falta de sentido ou ao absurdo. É a arte derivada da desmontagem da realidade coletiva e das noções convencionais de causalidade, da destruição das noções tradicionais sobre a integridade do caráter individual, do caos linguístico que sobrevém quando as noções públicas da linguagem são desacreditadas e todas as realidades se tornam ficções subjetivas.13(BRADBURY & MCFARLANE. Modernismo: Guia Geral, p.19-20.) Araujo, 14

Nesse contexto, a interpretação adequada à “Terceira Margem do Rio” está na terceira ordem de grandeza da sismologia cultural – a tentativa de registrar as mudanças e deslocamentos que regularmente ocorrem na história da arte, da literatura e do pensamento:


Num dos extremos da escala estão aqueles tremores da moda que parecem ir e vir no ritmo de gerações que se sucedem, e a década é a unidade adequada para medir as curvas […] A uma segunda ordem de magnitude pertencem aqueles deslocamentos maiores cujos efeitos são mais profundos e duradouros, constituindo longos períodos de estilo e sensibilidade convenientemente medidos em séculos. Assim, resta a terceira categoria para aquelas imensas deslocações, aquelas cataclismas sublevações da cultura, aquelas fundamentais convulsões do espirito humano criado que parecem demolir nossas mais sólidas e firmes crenças e postulados, deixando em ruinas grandes áreas do passado, questionando toda uma civilização ou cultura estimulando uma frenética reconstrução. (BRADBURY & MCFARLANE. Modernismo: Guia Geral, p.13.)

Perceba que a linguagem da narrativa se compõe através dos paradoxos, como exemplo temos “ir a lugar nenhum”, “aquilo que não havia, acontecia”. Perceba que a linguagem contraria, ao mesmo tempo em que se dispõe da lógica racional, que diz que quem vai, sempre vai a algum lugar e que só existe o que acontece. Nesse aspecto, o texto já demonstra um lugar diferenciado, revindicando o poético, a terceira margem, aquela que não é a síntese das outras duas, mas a o da não fixação plena dos sentidos e da significação.(Araujo, p.15)

A proliferação de incerteza e as aporias apontam ainda para a dificuldade de expressar e entender a experiência, aspecto comum e endossado ao romance e ao mundo moderno, onde se expõe o herói problemático. O herói problemático é aquele que se desligou do mundo orgânico, da irreverência tirânica dos deuses, mas que é suscetível aos aspectos sociais e que se questiona tentando achar um caminho, uma certeza no mundo em que elas estão perdidas: (Araujo, 2016, p.17) Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia. Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim...”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse


se questiona sobre o bem o mal, seu amor por Diadorim, a existência do Diabo, carecendo que o bom seja bom e ruim seja ruim, o narrador se apresenta. Buscando fixar sentidos, ele narra ao mesmo tempo em que questiona e avalia o fato, tentando desvendar o mistério. O que prevalece, no narrado para si e para o leitor que a acompanha é a existência de contrários, o convívio da dúvida e a impossibilidade de encontrar uma saída. A narrativa segue como um alinhavado de ações em suspensão que se coloca sob suspeita: (Araujo, 2016, p.16) Com a avaliação, ele propõe, enfim, que sua ficção – como prática de um autor e efeito num leitor – produz a forma como indeterminação das mediações lógicas e técnicas das representações que o leitor conhece como critério para estabelecer a verossimilhança dos textos. É o que acontece em “A Terceira Margem do Rio”, de Primeiras Estórias , quando o narrador vai fornecendo motivações para a ação do pai e simultaneamente as elimina, deixando o leitor no ar. Mas adverte: “A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia”, evidenciando a funcionalidade do procedimento de narrar a nu, sem motivação, que pode remeter a leitura para convenções antigas do gênero fantástico e também para o arbitrário moderno do ato da invenção.(HANSEN. Forma literária e crítica da lógica racionalista em Guimarães Rosa, p.128.)

Ainda que os narradores Riobaldo e o filho da “Terceira Margem do Rio” atuem buscando o esclarecimento, a racionalidade, a ilustração, a narrativa corre perfazendo o contrário, escapando a lógica cartesiana das causas e consequências. Como se pode notar, a forma trabalhada na obra roseana é a indeterminação das mediações lógicas e técnicas das representações que o leitor conhece. Aliás, todo o esquema da narrativa ocorre de modo relacional: o que foi anteriormente narrado se relaciona com o seu instantâneo descrito, em um movimento que faz das “coisas nomeadas encontrar seu sentido artisticamente superior no movimento mesmo do devir dos seus conceitos, indeterminando a exterioridade de suas definições esquemáticas para apanhá-las na duração do seu ser na intuição acima do movimento24” .(Araujo, p.18-19)(HANSEN. Forma literária e crítica da lógica racionalista em Guimarães Rosa, p.129.)

Em um aspecto, devaneante, a narrativa roseana permite a figuração da excentricidade. Aliás, a forma nela trabalhada segue mesmo é a lógica do mundo que resiste a qualquer classificação e acaba por na impossibilidade de escolher entre isso e aquilo, de chegar a uma resposta decisiva, única e final. Tudo ali é duplo, antagônico, é divisível e é ambíguo, tendo como marca a dilaceração do mundo e do sujeito moderno.(Araujo, 2016, p.19)

Este trabalho tentou mostrar o aspecto moderno no conto “A terceira Margem do Rio”, através da indeterminação constante nas ações e no relato do filho, que procurava entender a sua experiência e a do pai, exilado na canoa. A partir da conceituação de Bradburry e Macfaene associamos o aspecto moderno à incerteza, a aporia, evidenciando que na narrativa roseana o que permanece são as dúvidas e não às saídas e soluções. Nesse ensaio, discutimos a fortuna crítica do conto e mostramos como que apontar uma perspectiva mítica e transcendental da narrativa acaba por oferecer soluções que o conto propõe, mas desconstrói, significando uma interpretação parcial. Deste modo, reiteramos que o mais oportuno seria entender como que o texto trabalha de modo ambivalente a construção e desconstrução de elementos, fazendo com que no final ele seja realista e seu contrário, místico e seu contrário, transcendente e seu contrario. Destacamos, ainda nesse aspecto, a questão da linguagem, como ela se contorce a fim de dar conta das significações e acaba por apontar uma pluralidade de sentidos e a quebra de expectativa com relação ao sentido compartilhado ou preconcebido. Em uma comparação oportuna relacionamos o conto com o grande romance roseano Grande Sertão: Veredas e percebemos que nelas os narradores buscam o sentido de sua travessia e terminam sem saber. Prevalece mesmo a dúvida, a quebra dos modelos e a liberdade inventiva das formas deformadas, transformadas para acessar o poético.(Araujo, 2016, p.19)

Motivo da fugaEditar

Desde sua publicação, mistério da narrativa entender e interpretar os motivos da fuga do pai

algumas passagens melhor em alemãoEditar

TraduçõesEditar

A força do conto "A Terceira Margem do Rio" levou à tradução, feita por Bárbara Shelby, do livro Primeiras Estórias para o inglês sob o título The Third Bank of the River. https://books.google.com.br/books?id=XnPQvW-sPlQC&pg=PA124&dq=tradu%C3%A7%C3%A3o+a+terceira+margem+do+rio&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwi0t8GHsJfcAhVCf5AKHUE-D_AQ6AEISDAH#v=onepage&q=tradu%C3%A7%C3%A3o%20a%20terceira%20margem%20do%20rio&f=false Davi Pessoa Carneiro: Veredas da Tradução: a tradução como percurso em “A Terceira Margem

"La troisième rive de fleuve" ["A terceira margem do rio"]. Tradução de Ines Oseki-Dé- pré. Das Dritte Ufer des Flusses (A Terceira Margem do Rio). Tradução de Curt Meyer-Clason. Kõln, Berlin, Ed. Kiepenheuer & Witsch, 1968 La Troisième Rive du Fleuve - Revista Planète, número 6, e tradução em espanhol La Tercera Orilla del Rio, no jornal Marcha, de Montevidéu.

Em carta para Murilo Mendes de , Rosa classificou as traduções contemporâneas a ele em francês e em alemão como "boas".[8]

Tradução do Giuliano Macchi - Seria publicada apenas em 1977, no número da revista Progretto, inteiramente dedicado ao Brasil.[23]

Guimarães Rosa soube da tradução de Giuliano Macchi em primeira mão através de carta do poeta Murilo Mendes, que enviou o texto a ele. Algumas semanas depois de lê-la, em carta de 13 de fevereiro de 1963, Rosa lhe confessa: "(...) Li a tradução do "A Terceira Margem do Rio", do Dr. Giuliano Macchi, o Nazareth está aqui e ma mostrou. Acho-a formidável, admirável, portentosa, deslumbradora! Isto é que é "traduzir". Sei que jamais outros, em língua nenhuma, farão coisa tão soberbamente exacta e boa, tão verdadeira. É a TRADUÇÃOÍSSIMA, traducioníssima, para ficar em belos têrmos peninsulares. Em alguns pontos, ela supera mesmo o original. Estou feliz. (...)"[24]

InfluênciaEditar

Na literaturaEditar

Mia Couto, um dos escritores mais conhecidos de língua portuguesa [25]

Em ”Nas águas do tempo”, um avô num meio rural leva o seu neto várias vezes no rio numa canoa para o lago proibido, em clandestino da mãe do neto.[26]

grande inspiração confessa pelo próprio quando eleito para a Academia Brasileira de Letras, em questão temática, de oralidade e escrita, espécie de "transe"[27] Esta tese tem como objetivo um estudo comparativo de dois contos: ”A terceira margem do rio” de João Guimarães Rosa será comparado a ”Nas águas do tempo” de Mia Couto. O primeiro faz parte de Primeiras estórias, um livro de contos que foi publicado em 1962. O conto de Mia Couto foi publicado no livro Estórias abensonhadas em 1994. Podemos discernir uma forte relação entre várias características destes contos. Os enredos nos contos têm lugar no espaço rural indefinido. Os rios têm um papel simbólico e central, e os protagonistas são um velho e um menino, pai e filho em ”A terceira margem do rio” e avô e neto em ”Nas águas do tempo”. Mia Couto tem sido comparado com Joao Guimarães Rosa em numerosos trabalhos acadêmicos de uma perspectiva geral, e dois dos contos que foram comparados várias vezes são justamente “A terceira margem do rio” e “Nas águas do tempo”. Analisaremos estes contos e investigaremos se as nossas conclusões são congruentes com as de pesquisadores anteriores. Partimos da premissa de que Mia Couto tem sido muito influenciado por Guimarães Rosa em geral, e especialmente nos contos mencionados acima. (Synnemar, 2017, p.2)

Na sua tese de doutorado, Nas fronteiras da memória: Guimarães Rosa e Mia Couto, olhares que se cruzam, Silvana Núbia Chagas preocupa-se em comparar o uso da tradição oral nas obras de Guimarães Rosa e de Mia Couto. Uma das conclusões desta tese é “que Mia Couto, na verdade não foi influenciado por Rosa, mas, através de sua obra, ao utilizar o mesmo estilo, tornou este o seu ‘precursor’” (Chagas, 2006: 135). No artigo de Wilma Avelino de Carvalho, O hibridismo cultural em Guimarães Rosa e Mia Couto, a autora faz uma comparação entre ”A terceira margem do rio” e ”Nas águas do tempo”, e destaca algumas semelhanças entre Guimarães Rosa e Mia Couto, e conclui que: ... o imaginário ficcional dos autores estudados é similar e que a imbricação entre os discursos do entre-lugar e do hibridismo cultural nos contos evidenciam o diálogo entre a literatura brasileira e moçambicana (Carvalho, 2012: 1). No artigo de Vima Lia Martin, O ‘mundo misturado’ de Guimarães Rosa e Mia Couto, a autora também usa como corpus ”A terceira margem do rio” e ”Nas águas do tempo”, e aponta várias semelhanças. Quanto às convergências, ela estabelece que: ... os projetos literários de Mia Couto e de Rosa são marcados por um viés utópico, embora não seja exatamente essa a tônica do conto ”A terceira margem do rio”. Em grande parte de seus textos, essa perspectiva esperançosa se traduz na possibilidade de articulação, ainda que tensa, de elementos da tradição e da modernidade, do sertão/savana e da cidade (Martin, 2010: 73).

Em muitos estudos comparativos entre Guimarães Rosa e Mia Couto, os pesquisadores se concentram em discernir semelhanças temáticas e linguísticas, isto é, o uso de oralidade na escrita, neologismos, e o regionalismo em textos de ambos autores. Se olharmos para as duas primeiras teses que estudamos, de Chagas e Núbia, elas tratam de aspectos que também se aplicam àqueles que estudamos em nosso corpus, ou seja, o uso por parte de ambos autores do imaginário infantil, o que é evidente tanto em "A terceira margem do rio " como em "Nas águas do tempo", e que Guimarães Rosa de alguma forma pode ser visto como um precursor de Couto, uma conclusão que não parece contraditória. (Synnemar, 2017, p. 7)

Podemos também ver acima que há alguns pesquisadores que são mais específicos e têm estudado a grau de afinidade entre certos contos. Como mencionado, entre os contos mais comparados estão “A terceira margem do rio” e “Nas águas do tempo”. Nos artigos dos pesquisadores Wilma Avelino de Carvalho e Vima Lia Martin, a conclusão é que nestes contos temos aspectos muitos parecidos. Enquanto há vários aspectos desses contos a partir dos quais seria possível tirar a conclusão de que Mia Couto queria instaurar uma relação intertextual com João Guimarães Rosa ao colocar a diegese no mesmo espaço e optando por um registro coloquial, podemos também ver que as diferenças entre esses contossão grandes. Desta forma, nós questionamos, até certa medida o grau de semelhanças e influências que Martin e Carvalho atribuem aos dois autores e examinamos por meio da análise narratológica, mais em detalhe quais são os signos que os distinguem. (Synnemar, 2017, p.7-8)

Nossa hipótese é que Mia Couto tomou muita inspiração de Joao Guimarães Rosa, quando se trata do nível estilístico. Ele sente uma forte afinidade com o ambiente que Guimarães Rosa descreve, ou seja, o Sertão, que parece muito parecido com a natureza regional de sua Moçambique nativa, a savana, e as pessoas que a povoam. Mais especificamente, a hipótese é, ainda que Mia Couto tem sido influenciado muito por Guimarães Rosa em geral, e especialmente nos contos que são o corpus desta análise, tais influências são limitadas aos aspectos como enredo e personagem, enquanto a mensagem realmente difere muito uma da outra. Tentaremos compreender as razões para isso.(Synnemar, 2017, p.8)

COMPARAR INFLUENCIAS, DIFERENÇAS E SEMELHENÇAS NAS CATEGORIAS DE ação, personagem, espaço, tempo, narração, focalização e desenlace

Guimarães Rosa é considerado como um dos grandes renovadores da literatura brasileira, especialmente no que se refere à linguagem. Criou uma nova maneira de contar e é alegadamente responsável por ter criado um grande número de palavras novas da língua brasileira (Abaurre & Pontara, 2005: 620).

Temos aqui dois contos com certas semelhanças, até que no artigo de Vima Lia Martin, O “mundo misturado” de Guimarães Rosa e Mia Couto, ela lança a hipótese “de que Mia Couto escreveu a sua estória a partir da leitura que fez de ”A terceira margem do rio”, numa espécie de homenagem ao escritor brasileiro” (Martin, 2010, 69).

Música popularEditar

A canção "A Terceira Margem do Rio", com música de Milton Nascimento e letra de Caetano Veloso, foi composta em 1991, explicitamente a partir do conto homônimo de Guimarães Rosa. A canção está na faixa 9 do disco Circuladô (1991), de Caetano Veloso.

AdaptaçõesEditar

CinemaEditar

A Terceira Margem do Rio, filme franco-brasileiro de 1994, dirigido por Nelson Pereira dos Santos.


Na sinopse do diretor, impressa na capa da versão em VHS, de distribuição da Riofilmes e Sagres Vídeo (1994), lemos:

"(...) Desde que li Primeiras Estórias, em 1962, fiquei particularmente impressionado por esse conto. Para melhor adaptá-lo misturei outras quatro estórias (...) Por que o homem abandona a família e vai viver no meio do rio? São indagações que não procurei responder. Talvez a terceira margem do rio seja o que todo mundo procura e não sabe o que é. Quis mostrar que talvez exista uma terceira margem para o Brasil, entre o velho e o novo."[28]

SILVA, Antonio Manoel dos Santos; CRUZ, Artur Ribeiro. "O cineasta e a margem do rio imaginário". São Paulo: Arte & Ciência Editora, 2009. Disponível em: <http://www.unimar.br/biblioteca/publicacoes/2010/cineasta.pdf>

Referências Rónai, 1966, p.22 Rónai, 1966, p.26. Rónai, 1966, p.31-32. Rónai, 1966, p.32. A terceira margem do rio (Conto de Primeiras estórias), de Guimarães Rosa. Passeiweb. Acesso: 8 de julho de 2018. Santana, 2013, p.18.

TeatroEditar

https://books.google.com.br/books?id=VbDuAAAAMAAJ&q=terceira+margem+do+rio+antonio+candido&dq=terceira+margem+do+rio+antonio+candido&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwi34YiNv5fcAhVGQ5AKHZg2At0Q6AEIPjAE

Referências

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  2. a b Rosa, 2001, p.221-223.
  3. http://www.jornalvanguarda.com.br/v2/?pagina=noticias&id=10324
  4. a b Bueno, 2008.
  5. a b Azevedo, 2001, p.66.
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  7. a b Maier, 2017.
  8. Synnemar, 2017, p.19.
  9. Araujo, 2016, p.12
  10. a b Bosi, , p.242.
  11. Araújo, 2016, p.13.
  12. Perrone-Moises, , p.211.
  13. a b Araújo, 2016, p.14.
  14. Rosa, 2001, p. 84.
  15. Papette, p p.329. 2https://www.lai.fu-berlin.de/disziplinen/brasilianistik/veranstaltungen/symposium_jgrosa/essaywettbewerb/Lorenzo_Papette_A_canoa_e_o_rio_da_palavra.pdf
  16. Papette, p.9
  17. Araújo, 2016, p.14. Para saber mais sobre Caronte e Aqueronte, v. Abril Cultural, 1973, p.11 e p.30.
  18. Abril Cultural, 1973, p.12 e p.65.
  19. Araújo, 2016, p.14
  20. Alcaçada, 1987, p.65.
  21. Alçada, 1987, p.64.
  22. Synnemar, 2017, p.12
  23. Synnemar, 2017, p.14
  24. (Couto, 2005: 107).
  25. Apud Silva e Cruz, 2009, p.10.

BibliografiaEditar

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TERRA E FLUTUAÇÃO: BRASÍLIA (romance em progresso)

Capítulo 1
z
Capítulo 2
y1

– Estamos no dia anterior ao das eleições e a luz vai deslocando e confundindo as sombras entre as quatro paredes que, juntas com a perspectiva e com o contraste, me dão a dupla sensação de clausura e abrigo. Lá fora, o campo, a terra, os homens, um universo curvo e quadrado prestes a nascer, já envelhecido, ultrapassado, redivivo. Aí fora, você. Intuí que receberia a tua ligação. Ou a tua visita. Para mim ambas as coisas são um só encontro. Não demorou muito para nos falarmos...

- Como Policarpo Quaresma?

- Ah, não! Nem triste nem no meu fim.

– Como está o tornozelo, F.?

– Melhorando. Hoje já consegui ficar alguns poucos minutos de pé.

– Justo um dia antes das eleições!

– Ou justamente por causa disso... No entanto, estou aproveitando esse recolhimento brusco. Dei uma olhada nos meus livros, que me assombram com suas lombadas e grossas páginas. Sim, trouxe alguns comigo, ou me trouxeram... Ah, dei uma rápida folheada em diversos deles: O Príncipe de Maquiavel, O Leviatã de Hobbes, O Manifesto Comunista de Marx e Engels, A República de Platão.

– Maquiavel. Quero te informar que há uma nova procura, mundial, por romances distópicos e por Maquiavel...

– Não à toa: é o zeitgeist deste século ou, tomara, da primeira metade dele apenas...

– Acho incrível este teu empenho absolutamente raro, mas eu incluiria Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda e aquele do João Ubaldo Ribeiro...

– Ah! Calma! Há uma segunda leva de livros que me trouxeram. Tenho O Povo Brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, cheio de ideias originais, trepidante, de estilo movimentado e simples, com o pungente subtítulo "A formação e o sentido do Brasil". Abaixo desse na pilha, o profundo e inspirado Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, sobre a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da caracterização do português e de sua herança. Livro que merece a reputação, o respeito e a consideração obtidas. Traça as cidades, analisa a atitude diante do trabalho, o modo de ser, chega até a organização política. O papel do colonizador no nosso destino, configurando um Brasil contemporâneo enquanto realidade não mais luso–brasileira, mas, como ele próprio define, "americana". Depois, o sólido e abrangente História dos Índios do Brasil (1992), com escritos de vários especialistas, organizado por Manuela Carneiro da Cunha, que trata de arqueologia, linguística, do histórico do índio no passado e hoje. Logo abaixo, O Abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e fiquei feliz de encontrar uma boa edição. O claro, sintético, penetrante Ser Escravo no Brasil (1982), de Kátia de Queirós Mattoso, tava logo depois. Uma visão geral, sem aparato erudito, tratando da raiz africana, da escravização e tráfico, terminando nas reações dos escravizados: tentativas de alforria, fuga, rebelião. O especializado A Escravidão Africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart, e A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1964), de Florestan Fernandes, demonstrando com profundidade a exclusão sócioeconômica do antigo escravo depois da Abolição, vinham logo depois. Esses últimos livros que citei são livros–chaves para entender um dos maiores dramas da história brasileira, ainda pertinente no desequílibrio nacional hoje em dia. Fiquei surpreso também de encontrar Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre, logo depois deles, pois, passado o trinome, os três elementos formadores (português, índio, negro), se deparar assim com a caracterização da sociedade que eles constituíram no Brasil... É certo que este livro é polêmico, sempre foi alvo de várias crises, sobretudo da esquerda, mas seu estilo de escrita continua perspicaz, por ser livre, e completa, de certa forma, a noção de raça pela de cultura. Nunca gostei desta palavra, "raça", prefiro etnia, mas tudo bem, quando usada com boas intenções... Quem leu sabe que mostra o papel do negro no nível mais íntimo da vida familiar e mesmo no caráter brasileiro, e esta foi talvez a sua inovação. Ainda disseca a relação entre as três raças, etnias, e dá uma significação inédita ao fato da mestiçagem. Há vários pontos de vista ainda pertinentes neste livro, como o de que nosso país, o Brasil, é uma prefiguração do mundo futuro, porque já está adiantado na fusão inevitável de etnias e culturas, ponto de vista esse que até o Stefan Zweig sentiu e registrou no Brasil, País do Futuro ( ), que também estava na pilha. Mas não pense que acabou, não! Nesta mesma pilha, logo abaixo desse livro, ainda sobre a sociedade colonial fundadora, encontrei outro clássico, Formação do Brasil Contemporâneo, Colônica (1942), de Caio Prado Júnior, que se detém ao nível econômico, mais do que ao cultural. Com a noção de um geógrafo, demonstra a expansão demográfica que estabelece aos poucos o perfil do nosso território. A dimensão material é privilegiada, através da organização sóciopolítica, e de forma muito coerente. D. João VI no Brasil (1909), uma das maiores obras da nossa historiografia, e O Movimento da Independência (1922), de Oliveira Lima, trata da independência política. Sim, você deve ter percebido, como eu percebi, que os livros estavam organizados de forma coesa, "cronológica", entre aspas, ou seja, proposital, porque, logo depois da sociedade colonial bem representada, me deparei com estes dois livros. E, abaixo, A América Latina, Males de Origem (1905), de Manuel Bonfim, creio que indispensável ainda hoje, pois analisa a brutalidade e mesmo as diversas crueldades das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, tendo depois promovido a separação política para conservar o status quo e prolongar seu domínimo. Este livro garante, assim, uma espécie de conclusão lógica do conservadorismo como marca da política e do pensamento brasileiro a impedir a marcha da justiça social. Veja que estamos falando de um livro de 1905! Mesmo sem a envergadura de um Oliveira Lima, monarquista e conservador, Manuel Bonfim tinha espírito socialista e, por isso mesmo, capaz de desmascarar a desigualdade e a opressão no Brasil e em toda a América Latina. O livro termina, no entanto, com esperança e força, de forma praticamente espiritual, com a palavra "luz", como se nos encorajássemos ainda hoje, agora, já. Muito bem. Se você ainda estiver me acompanhando, sabe que estamos na instalação da monarquia pelos conservadores, e iniciando o período imperial, por isso o livro imediato a aparecer foi Um Estadista do Império (1897), de Joaquim Nabuco, mesmo que seja familista, girando em torno de um único personagem, pai do autor, provavelmente por conta disso é que logo em seguida está o Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda, que traça o caminho que levou à mudança de regime. Este volume faz parte da coleção História Geral da Civilização Brasileira, dirigida por ele. Funcionamento da administração e vida política, dilemas do poder, caracterização peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pelo imperador. Na pilha também tenho uns livros do Machado de Assis, e me chamou a atenção o livro de crônicas selecionadas, este gênero tão genuinamente brasileiro, pois Machado foi grande testemunha–ocular da época, de reviravoltas pelo mundo, da passagem da monarquia para a república, da escravidão para o liberalismo, do século 19 pro século 20... Enfim, já neste fim de século 19 e início de século 20, período republicano, temos a expansão e o isolamento geográfico cultural entre populações sertanejas e civilização urbana, dois Brasis praticamente alheios um ao outro. Eu sabia que não poderia faltar Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, livro estupendo, uma obra prima, que mistura ciência, alto jornalismo (como realmente deve ser o jornalismo), fraseado às vezes poético. Estudo do homem, da terra. É incrível. E a indignação, está ali, toda a indignação diante da miséria e do extermínio de Canudos. Assim como houve com Tiradentes na monarquia, Canudos (em proporções e contextos diferentes) na República militar. Seguimos, e nos deparamos com o período da Proclamação da República até os anos 30, nas zonas adiantas, e mesmo ainda hoje, em zonas "distantes", com os "coronéis", chefes políticos locais em torno de um contexto de oligarguia dos proprietários rurais e manipulação política numa sociedade de privilégio. Por isso, na pilha, Coronelismo, Enxada e Voto (1949), de Vitor Nunes Leal, sobre os mecanismos políticos da chamada República Velha (1889–1930), inclusive analisando aspectos positivos dos líderes municipais. Da oligarguia de base rural, passamos para a burguesia de base industrial, e pensamos logo na Revolução de 1930. Há vários livros sobre isto, mas na minha pilha estava o fundamental A Revolução Burguesa no Brasil (1974), de Florestan Fernandes, denso e cerrado, tratando do cruzamento entre dimensão e histórica e tipos sociais, o que culmina na nova modalidade de liderança política e econômica. Talvez você pergunte: E o imigrante, além do português, do índio e do negro? Estava lá, na pilha: A Aculturação dos Alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems, Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, Do Outro Lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento, e mais outros cinco, sobre a imigração de vários outros povos, japoneses, por exemplo, que vieram aos montes, espanhóis, e o papel dos franceses no ensino, etc. Não pense que tenho memória tão prodigiosa assim! Há outros livros na lista que depois te forneço os títulos, pois os autores eu sei de cor: Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte, Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murillo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo... Esqueci algum? Os últimos livros, como você deve ter presumido, tratam dos governos complexos de Getúlio Vargas e de toda a diversidade social neles e no resto do mundo, depois JK, período de abertura política, Brasília, Jango, 21 anos de ditadura militar (consigo me lembrar que há inteira aquela série obrigatória do jornalista Elio Gaspari, "A Ditadura Envergonhada", "A Ditadura Escancarada", "A Ditadura Derrotada", "A Ditadura Encurralada", "A Ditadura Acabada", e também "1964", de Almino Affonso, ministro do trabalho de João Goulart), depois três livros sobre a redemocratização e, por fim, outros sobre Collor, FHC, Lula, Dilma etc. Ufa!

– Ufa! Não diria para ler tudo logo, se bem que tenho certeza que você já deve ter adiantado as leituras, mas te digo que a própria decisão da tarefa de ler isso tudo já altera a noção de tempo, um tempo muito mais substancioso do que o corriqueiro, e já motiva e estimula este momento que você está vivendo...

– Sim. Antes de você me ligar, estava lendo Leaves of Grass do Whitman. Já estou nas páginas finais. Um livro tido como obrigatório, e é claro que eu já conhecia, mas confesso nunca o ter lido a fundo. Que extraordinário experimento esse do Whitman! A ideia de escrever uma epopeia, um épico da democracia! Não há personagem principal. Ou melhor, todos são o personagem principal! Cada leitor, o próprio autor e até mesmo quem não leu são o protagonista! Há ideia mais democrática do que essa? Traz no plano concreto da poesia todo o ideal de liberdade e democracia da essência americana tal como ela pretendia ser. Hoje em dia, nos Estados Unidos e no Brasil, na Europa ou no Oriente, é claro que tal palavra anda meio prostituída... Não era o Saramago quem denunciava isso? “As grandes decisões hoje não vêm do povo nem dos políticos eleitos”, algo assim, como de fato deveria ser numa democracia. FMIs, bancos mundiais, cúpulas internas, grandes organizações financeiras internacionais é quem decidem, mandam, desmandam, governam. “Onde é que está a democracia?!”, ele questionava. Seja lá qual for o presidente americano eleito, democrata ou republicano, conservador ou mais liberal, quem manda mesmo são uns engravatados secretos que determinam o que pode e o que não pode ser feito. Aqui mesmo, você e eu sabemos, todo brasileiro usa aquela expressão: fulano ou determinado político é “testa–de–ferro”... Se você soubesse como eu desejo que esses “bastidores”, ou seja, que essas zonas secretas, antidemocráticas, afastadas sejam cada vez mais escancaradas, desmistificadas, descobertas, desmanteladas! Acho que tenho dado alguma contribuição neste sentido, dentro das minhas possibilidades específicas... Mas, enfim, neste livro estupendo há o Walt Whitman como personagem, seja uma porção dele ou projeção sua, mas há também o leitor, e também cada leitor do futuro. O personagem de Leaves of Grass é completamente incomum, porque não é o autor que escreveu o poema, é muitas pessoas simultaneamente. Ele pergunta determinadas coisas a um certo Whitman sobre o que ele vê, o que ele ouve, mas, na verdade, são perguntas direcionadas a nós próprios, ao próprio leitor, ou seja, cada um de nós, enquanto lemos esta obra, nos tornamos um personagem de Walt Whitman.

– Que curioso! E a sua empolgação me deixa com vontade de ler também!

– Quiçá este é o experimento mais marcante de toda a história da literatura! Pelo menos neste momento, com nosso zeitgeist transnacional à flor da pele, é esta a impressão que me dá! Não obstante, estamos falando dum ótimo poeta.

– Não foi o Jorge Luis Borges quem declarou que a democracia é um abuso de estatísticas e nada mais?

– Acho que sim. No plano das ideias abstratas, é assim mesmo que ela faz parecer. Foi o mesmo Borges, porém, quem viu Whitman de forma soberba, revelador de uma felicidade espinosiana sublime, panteísta e também tirana, esse prazer carnal, essa totalidade, inclusive política... Sabe, de qualquer forma, Rousseau achava que sociedade e corrupção são praticamente sinônimos. Cito isto porque, com ou sem Brasília, e antes dela, esta conclusão cada vez mais me parece correta. Mas, diante desta conclusão, é preciso fazer alguma coisa. Diante de qualquer horror e corrupção, cabe ao homem íntegro e ético dizer a si mesmo e aos seus que jamais agirá igual. A declaração o compraz por si só e o livra de qualquer melancolia, revolta impotente ou impacto.

– Podemos falar sobre o episódio de ontem?

– Melhor não. Seria incrível que aquele dia sem símbolos ou premonições significasse a minha morte. Quero pensar no agora. Só o agora existe.

Longo silêncio.

– Não quero que fiques sem jeito por conta das minhas frases marcantes e do meu temperamento atual flutuante, falando sobre política de forma aparentemente abstrata...

– Não, não me parece abstrato...

– Que bom, porque nem eu acho que estou sendo abstrato.

– Você demonstra concretude, certeza, como nunca antes, talvez.

– Não pareço louco?

– De jeito nenhum!

– Que bom! O ato de ontem me fez pensar em muita coisa. Ou me fez sentir muita coisa. Ou ambas as coisas. Soltei um longo “ufa”...

– Eu imagino...

– Mas insisto no agora. Insisto! Tudo nos acontece de forma precisa no agora. Os séculos existem? Os fatos só ocorrem no agora. Mas a memória acalanta. Sabe de uma coisa? Você me fez lembrar de um antepassado meu, não importa agora o grau de parentesco. Era anticapitalista, isto é, contra o financismo centralizador, a vida mercantilizada, os grandes oligopólios, contra a elite dita burguesa. No entanto, não concebia um mundo governado por operários. Apontava antes para um humanismo total.

– Parece que está falando de si mesmo.

– Talvez. A memória já me confunde... Não, não estou ficando gagá, de jeito algum. Mas vou contar outro detalhe sobre este meu antepassado e você vai ver só onde quero chegar. Era comunista, quer dizer, chegou a entrar no Partido, depois saiu. No começo, como todos os comunistas, queria redenção, imaginava um mundo sem fronteiras, um mundo de paz e de justiça social. Logo se desencantou com o imperialismo soviético, antes mesmo dos crimes de Stálin serem descobertos, o que, como você sabe, desestabilizou e dividiu completamente a esquerda mundial. Muito antes. Porque ele assistiu, por exemplo, Outubro Vermelho e O Encouraçado Potenkin e não gostou. São filmes belíssimos, sem dúvida, mas lembro dele dizer, eu era muito pequeno, ele já quase moribundo: “Em nenhum momento se prestou uma única palavra ou um único ato generoso ou de diálogo com os inimigos! Estes são sempre vistos como demônios ou como ridículos... Panfletagem, fanatismo exacerbado...” E depois recitava Maiakóvski de cor. Por fim, antes de nos despedirmos: “Não que não existam seres capazes de matar um bebê indefeso num carrinho, uma mulher e uma idosa, mas devagar...” No entanto, tais considerações, sempre ecoando dentro da minha cabeça, jamais atolariam meu abalo estético monumental diante da cena monumental de Odessa... Não sei, às vezes penso também que o anarquismo levaria a um bom futuro: nenhum governo no mundo, nenhum mecanismo de poder, público ou privado. Ou, quem sabe, um governo municipal, como o de Spencer... Spencer denunciava brilhantemente, numa espécie de profecia, a intromissão tirânica i gradual do Estado na vida do indivíduo.

– Qualquer controle soberano incomoda.

– Por falar em Maiakóvski, estou aqui também com o meu xodó, que eu também trouxe para Brasília junto com todos os outros volumes que já citei: A Poesia Russa Moderna traduzida e coletada pelos irmãos Campos e pelo Boris Schaiderman. Preciso dizer, se é que já não lhe disse, como me anima o caráter vanguardista e revolucionário desses poetas! Coitado deles! Do futuro deles! Sorte a minha, que posso lê–los e animar minha alma subjetiva mas imanente. Sinto verdadeiro desdém pelo desejo de poder... Não o de Nietzsche, que é vontade de potência, mas o poder efêmero, de superfícies fofas, aparente, tão comum entre empresários e políticos! Como Marco Aurélio e Epiteto e outros estóicos entenderam: nem senhor, nem escravo, porque não há, nesta relação, um reconhecimento recíproco; logo, o senhor também é escravo.

– Achar o meio termo.

– Muito simples: o comunismo não dá certo, porque, se existe uma biodiversidade na natureza, vai existir sempre uma biodiversidade natural; e também porque, embora os homens possam ser iguais em direitos, não são iguais em qualidades... Da mesma forma, o capitalismo, com suas constantes crises, centralizações, injustiças e coerções, só falsamente ele “dá certo”: porque, embora haja uma mesma base psíquica e antropológica entre os homens, aquelas qualidades muitas vezes não conhecem limites, e também porque, naturalmente procurando os mesmos direitos apesar das diferentes qualidades, no capitalismo os homens não os encontram inteiramente...

– Você fez simples dois sistemas complexos. E o que pensas das revoluções que...

– Repara, todas as revoluções são desnacionalizações.

– Em que sentido?

– Também é preciso frisar a utilidade social das revoluções. As condições sociais em que elas se dão. Você acredita em milagres?

– Não.

– Acreditar na eficácia duma revolução é exatamente a mesma coisa que acreditar na realidade dum milagre. Estou me referindo à intervenção antinatural da vontade humana no curso natural da sociedade. Parece mais absurdo supor que um mago ou um taumaturgo ou um milagreiro possa brincar com as leis da física e da natureza do que supor que um grupo de homens aja diferentemente do que o outro grupo deposto. Os detentores do poder, por mais corruptos, desprezíveis e antiéticos que sejam, têm ao menos certa noção prática do poder, sabem, pelo menos, como administrar. Os revolucionários, mais ou menos do mesmo meio que eles, portanto suscetíveis aos mesmos vícios, não têm a mesma prática. Assim, para além da corrupção e da antiética viciadas, há ainda esta questão da incompetência.

– Brilhante observação.

– Tudo depende. Prefiro Gramsci, que alguns poucos marxistas heterodoxos implantam na educação: revolução sem armas, formativa, cultural. Mas não se deve estigmatizar as instituições políticas. Folheei um dia a Política de Deus, Governo de Cristo, de Quevedo, praticamente esquecido hoje em dia. Creio que consegui naquelas máquinas de livros no metrô de São Paulo, meses atrás... Os 47 capítulos pretendem mostrar que a vida i as palavras de Cristo são símbolosoluções a serem decifrados pelos políticos. Episódio da samaritana: os tributos dos reis devem ser leves. Episódio da distribuição de pães, i peixes: os reis devem remediar as necessidades. Repetição de sequebantur: o rei deve "conduzir os ministros, não os ministros o rei."

– Por que tantas enumerações, F.?! Até parece um monólogo! Parece que você quer fugir de alguma questão que eu possa trazer, parece que está disfarçando...

– Não, de jeito nenhum. Estou sendo chato?

– Você nunca é chato! Aprendo muito contigo, mas...

– Se me permite, gostaria de continuar minha linha de raciocínio, para que você veja onde eu quero chegar. Sei que divago e me disperso demais, mas é que você não imagina o quanto estou animado! Permite?

– Por favor... Você espraia erudição...

– Pois bem. É sobre a Renda Básica, ou Basic Income, preconizada por Paul Mason, David Graeber, Brian Eno e Eduardo Suplicy. E outros. Seria uma conquista inestimável, sem precedentes, superação e sofisticação humana. Seria justamente a síntese entre comunismo e capitalismo, superação ou simbiose da dialética entre direito e qualidade, da dicotomia indivíduo versus coletividade. Não acha?

– Eu diria que é um projeto de socialismo democrático e de economia solidária, e que estava ou está nos seus próprios planos.

– Sim, também, mas é algo absolutamente para este século. Os governantes é que ainda não se deram conta. Quer dizer, alguns deles já se deram... Por falar nisso, me desculpe por parecer tão chato, mas preciso dizer, já que temos mais algum tempo para continuarmos falando: reconcebi nesta manhã um livro que venho pensando há meses. Depois larguei o livro, que me pareceu impossível de continuar, fruto da minha angústia pessoalnacional e da minha necessidade de expressão. Posso revelar, no entanto, que seria uma terceira (e única) parte, não sei se para atiçar os leitores ou se para dar entender que tratava–se duma obra aberta, sem verdades absolutas, e apenas uma visão dentro de outras possíveis e incontáveis, como o futuro da nação. Dessa conclusão nasceu um poema que se constituiu de uma única palavra, único verso, única linha: OBRASILOBRABERTA. Oscilo. Dicotomias… Transito. Entre a política stricto sensu, como esquerdista, entusiasta da Renda Básica Universal, querendo que o Brasil encontre seu caminho, que não é nem cubano, nem soviético, nem chinês, nem americano, nem europeu, mas brasileiro; e entre a grande política do Nietzsche, da potência de si em devir, como diria Deleuze: interdepende de qualquer contexto, é a volta para o corpo e para o presente, onde deixo de lado ideologias e identidades e sou (d)obra de espaço–tempo em ação infinita, efetuador criativo e experimental de acontecimentos. Jorro de imanência! Modos de fuga e resistência. Política do plano existencial: a única realmente verdadeira?… Imanência ética em Espinosa.

– Mas, F., até agora conversamos sobre assuntos intelectuais e nada de assuntos pessoais, íntimos, que foi realmente a razão primeira do meu contato...

– Tenho medo do que você possa me dizer, e não quero que me diga nada. Nada. Porque, como já lhe disse, só acredito no agora, e no agora escolhi estar bem e ser feliz. Talvez isto seja política. E nada mais. Que silêncio! Bom, você perguntou do meu tornozelo, foi a primeira coisa que me disse, nem mesmo disse um oi...

– Sim – respondeu, rindo –, mas é que o teu, o meu, o nosso futuro me...

– Ninguém sabe o que o amanhã pode trazer. Ilusão. Fico, portanto, com aquelas palavras mágicas do Pessoa: “Venha o que vier, nada será maior do que minha alma.” Quem cala consente.

– Eu consinto.

– Não tenho medo de sofrimento. A opressiva, moralista e reprimida era vitoriana produziu Marx, Freud, Nietzsche. Acredito nele, no amanhã, viu? “O que não mata”...

– “fortalece”... Quem lê autoajuda deveria ler Nietzsche, isso, sim.

– Você deve saber que todo homem dionisíaco, conforme viu Nietzsche, tem algo de Hamlet. Ambos não agem, porque lançaram em algum momento um olhar verdadeiro o bastante na essência das coisas, por isso lhes é repugnante agir, porque o agir, geralmente, pressupõe falta de conhecimento e ilusão. Hamlet é, provavelmente, o único personagem shakespeariano antitrono... Céus, como sou pernóstico, professoral!

– Mas suponho que isto não pressuponha um desencanto, não te vejo com voz de desencantado...

– É verdade. E sabe por quê? Porque minha parcela louca não permite que eu fique cabisbaixo. Estes três também esbarram na loucura. Digo três porque, desta vez, além do homem dionisíaco, incluo também o delirante Nietzsche, mesmo que em Hamlet a loucura seja propositalmente fingida para conseguir seus propósitos ou simplesmente para desviar dos chatos de Elsinore... A loucura acaba com a máscara, como escreveu Rotterdam no seu famigerado elogio a ela. Chega–se, mesmo, ao limiar da paralisia do agir. Logo, a ilusão é aniquilada. Surge uma verdade perturbadora... O príncipe humanista não hesita por mera indecisão, mas por uma certeza quase que absoluta. "Não a dúvida, a certeza é que enlouquece", nos escreveu Nietzsche no capítulo "Por que sou tão esperto". Mas, diante deste elemento de percepção da vida, é a arte quem a torna aceitável, em tudo que a vida possa ter de terrível e absurdo e enlouquecedor. Horror e nojo, sim, mas convertidos em representações com as quais se pode viver. De qualquer forma, mantenha a calma quanto às suas, minhas, nossas questões. Não se pode imaginar que eu rompa com meios supostamente fechados para entrar em meios supostamente abertos, porque, aonde quer que eu vá, só peço e reivindico que me tolerem. Seria este até mesmo o meu próprio epitáfio! Até que ponto uma sociedade pode suportar a verdade? Até que ponto, hein?! Desculpe pelo grito... É com essa pergunta que começamos a compreender o grau de democracia das sociedades... As revoluções pretendem substituir um sistema por outro, mas acabam sempre numa autofagia. Mais sábio é revolucionar gradualmente, não através dum golpe revolucionário, mas através da democracia. Aprofundar a democracia. Ter ideias, planos, projetos políticos eficientes que possam fazer progredir a sociedade.

– O problema é quando um governo torna–se tirano, incompetente, tirano e incompetente.

– Para isto existe a desobediência civil, se é que você leu Thoreau, mas há exemplos concretos, de Gandhi a Luther King Jr. Sim, você tem razão: diante de um governo tirano, incompetente, diante da fome absoluta, diante de uma realidade pungente, não há saída senão o devir revolucionário. Deleuze distinguia, não? Devir revolucionário do futuro da história. Não são nem as mesmas pessoas, no geral.

– E Artaud pôs em xeque toda uma estrutura religiosa, política e social, através da sua revolução pessoal.

– Todos os artistas e vagabundos.

– Acho que a frase de Thoreau continua valendo para este século: "Mesmo votar em favor do direito não é fazer coisa alguma por ele." E a conclusão: "É apenas uma forma de expressar publicamente seu desejo de que ele prevaleça."

– No ponto.

Tanta absorção intelectual produziu frutos. Depois desse diálogo falamos uma ou outra trivialidade íntima, coisas pessoais. Me ajudaram a deitar novamente. A sensação de impotência logo se dissipou pela esmagadora presença intelectual. Micropolítica, dizem, mas para mim é justamente a grande política... O teto branco refletia um papel em branco, uma vida em branco prestes a ser preenchida ou simplesmente contemplada. O Brasil é uma imensa folha em branco a ser construída a cada dia. Jantei feliz e me preparei para dormir. A dor no tornozelo foi passando lentamente... Na penumbra que antecede o sono abençoei minha condição física e entendi que era uma forma de eu me autoconhecer. Madrugada adentro e durante a manhã do dia seguinte sonharia com um sonho longo, duplamente catastrófico e redentor, um verdadeiro sonho–pesadelo brasiliense de cinematografia terrível e ao mesmo tempo maravilhosa que parecia ter saído dum filme do Glauber Rocha, duma gravura de Piranesi...