Xarope tóxico para tosse

intoxicações em massa desde os anos 1990

Desde a década de 1990, vários envenenamentos em massa por xarope tóxico para tosse ocorreram em países em desenvolvimento. Nesses casos, um ingrediente do xarope para tosse, a glicerina (glicerol), foi substituído por dietilenoglicol, uma alternativa mais barata à glicerina para aplicações industriais. O dietilenoglicol é nefrotóxico e pode resultar em síndrome da disfunção de múltiplos órgãos, especialmente em crianças.[1]

HistóriaEditar

Houve envenenamentos na Indonésia, Panamá, China, Haiti, Bangladesh, Argentina, Nigéria, Índia (duas vezes) e Gâmbia entre 1992 e 2022, devido a xarope para tosse contaminado e outros medicamentos que incorporaram dietilenoglicol barato em vez de glicerina.

BangladeshEditar

A descoberta e o rastreio de um xarope tóxico até à sua fonte tem sido difícil para os prestadores de cuidados de saúde e agências governamentais do Bangladesh devido à difícil comunicação entre os governos dos países desenvolvidos e dos países em desenvolvimento. Por exemplo, Michael L. Bennish, um pediatra estadunidense que trabalha em países em desenvolvimento, tinha sido voluntário no Bangladesh como médico e tinha notado uma série de mortes que pareciam coincidir com a distribuição do xarope para a tosse emitido pelo governo. O governo repreendeu as suas tentativas de investigar a medicação. Em resposta, Bennish contrabandeou frascos do xarope na sua mala quando regressava aos Estados Unidos, permitindo aos laboratórios farmacêuticos de Massachusetts identificar o dietilenoglicol venenoso, que pode parecer muito semelhante à glicerina, que é menos perigosa. Bennish escreveu um artigo de 1995 no British Medical Journal sobre a sua experiência, escrevendo que, dada a quantidade de medicamentos prescritos, o número de mortes "deve [já] estar nas dezenas de milhares".[1]

GâmbiaEditar

Em outubro de 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou uma ligação entre quatro xaropes pediátricos para tosse de uma empresa farmacêutica indiana e a morte de 66 crianças na Gâmbia por insuficiência renal. Acredita-se que os produtos (Solução Oral de Prometazina, Kofexmalina – Xarope para Tosse de Bebé, Makoff – Xarope para Tosse de Bebé e Magrip N – Xarope para Tosse) estão contaminados com dietilenoglicol e/ou etilenoglicol. Os produtos envolvidos foram fabricados pela Maiden Pharmaceuticals em dezembro de 2021.[2][3]

Isso levou à proibição de produtos das empresas na Gâmbia, à uma investigação da CDSCO e a voluntários de agências de saúde na Gâmbia indo de porta em porta em uma retirada urgente dos remédios.[3][4]

Em dezembro de 2022, um comitê parlamentar na Gâmbia recomendou o processo contra a empresa indiana Maiden Pharmaceuticals. Também recomendou a proibição de todos os produtos da empresa no país.[5]

IndonésiaEditar

Em 2022, as mortes de quase 100 crianças na Indonésia foram relatadas como relacionadas a xarope para tosse e medicamentos líquidos. O xarope continha "quantidades inaceitáveis" de dietilenoglicol e etilenoglicol, ligados a insuficiência renal aguda (IRA). Em outubro do mesmo ano, as autoridades de saúde relataram mais de 200 casos de IRA em crianças, a maioria com menos de cinco anos. O Ministério de Saúde da Indonésia proibiu temporariamente a venda e prescrição de todos os xaropes e medicamentos líquidos, pois não estava claro se esses medicamentos eram importados ou produzidos localmente. A taxa de mortalidade chegou a 48 por cento nacionalmente e a 68 por cento para pacientes tratados no Hospital Geral Central Nacional Dr. Cipto Mangunkusumo.[6][7][8]

O Ministro Coordenador do Desenvolvimento Humano e da Cultura, Muhadjir Effendy, pediu à Polícia Nacional que investigasse as alegações criminais por trás da fabricação de medicamentos contendo etilenoglicol acima do limite. A Agência de Investigação Criminal da Polícia Nacional coordenou com o Ministério da Saúde e com a Agência de Supervisão de Alimentos e Medicamentos a investigação. Até agora, a Indonésia é o país com o maior número de mortes no mundo por casos de IRA em crianças.[9]

PanamáEditar

Em maio de 2007, foram registadas 365 mortes no Panamá.[10]

O dietilenoglicol importado veio de um fabricante chinês, vendido sob o nome glicerina TD, que significa "substituto da glicerina", mas o intermediário espanhol Aduanas Javier de Gracia no Panamá, que preenchia a declaração alfandegária, alterou o nome para glicerina. A Food and Drug Administration da China não considerou o escândalo do xarope tóxico para a tosse como sendo culpa da China.[11][12]

UzbequistãoEditar

Em dezembro de 2022, o Ministério da Saúde do Uzbequistão disse que 18 crianças morreram de problemas renais e doenças respiratórias agudas após beberem xarope para tosse fabricado pela farmacêutica indiana Marion Biotech. A declaração não especificou em que período as mortes ocorreram. Como resultado, a Marion Biotech foi suspensa da Pharmexcil, um grupo comercial vinculado ao governo indiano.[5][13] Como resultado, a polícia de segurança do estado do Uzbequistão prendeu quatro pessoas.[14]

Referências

  1. a b Bogdanich, Walt; Hooker, Jake (6 de maio de 2007). «From China to Panama, a Trail of Poisoned Medicine». The New York Times (em inglês). Consultado em 22 de outubro de 2022. O veneno xaroposo, dietilenoglicol, é uma parte indispensável do mundo moderno, um solvente industrial e ingrediente principal em algum anticongelante. 
  2. «Medical Product Alert N°6/2022: Substandard (contaminated) paediatric medicines». www.who.int (em inglês). Consultado em 23 de outubro de 2022 
  3. a b agencies, Guardian staff and (6 de outubro de 2022). «Warning over cough syrups after 66 children die in the Gambia». The Guardian (em inglês). Consultado em 22 de outubro de 2022 
  4. Now |, Mirror. «Four India-made cough syrups under the scanner; CDSCO initiates probe after WHO red-flags». The Economic Times (em inglês). Consultado em 22 de outubro de 2022 
  5. a b «Marion Biotech: Uzbekistan links child deaths to India cough syrup». BBC News (em inglês). 29 de dezembro de 2022. Consultado em 26 de janeiro de 2023 
  6. «Indonesia bans all syrup medicines after death of 99 children». BBC News (em inglês). 20 de outubro de 2022. Consultado em 22 de outubro de 2022 
  7. «Tingkat Kematian Anak Akibat Gagagal Ginjal Akut di Indonesia Capai 48 Persen!». Detik (em indonésio). 19 de outubro de 2022. Consultado em 20 de outubro de 2022 
  8. Febriyan (20 de outubro de 2022). «Kasus Gagal Ginjal Akut di RSCM, Dari 49 Kasus 63 Persen Meninggal». Tempo (em indonésio). Consultado em 20 de outubro de 2022 
  9. Media, Kompas Cyber (23 de outubro de 2022). «Polri Bentuk Tim Usut Produksi Obat Sirup dengan Etilen Glikol Lebihi Ambang Batas». KOMPAS.com (em indonésio). Consultado em 23 de outubro de 2022 
  10. Bogdanich, Walt; Hooker, Jake (6 de maio de 2007). «From China to Panama, a Trail of Poisoned Medicine». The New York Times. Consultado em 23 de outubro de 2022 
  11. «毒糖浆巴拿马致死百人 我药监局称责任不在中方» (em chinês). Consultado em 23 de outubro de 2022. Arquivado do original em 2 de abril de 2015 
  12. «质检总局:巴拿马药品中毒事件责任在巴商人_新闻中心_新浪网». news.sina.com.cn (em chinês). 31 de maio de 2007. Consultado em 23 de outubro de 2022 
  13. «A scandal rocks India's pharmaceutical industry». The Economist (em inglês). ISSN 0013-0613. Consultado em 26 de janeiro de 2023 
  14. «Uzbekistan Arrests Four Over Child Deaths Linked To Indian Cough Syrup». RadioFreeEurope/RadioLiberty (em inglês). Consultado em 26 de janeiro de 2023