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Ana Rech em 1912.

Anna Maria Pauletti Rech, conhecida no Brasil como Ana Rech (Pedavena, 25 de março de 1831 — Caxias do Sul, 16 de maio de 1916) foi uma imigrante italiana, a principal fundadora do distrito que leva seu nome na cidade de Caxias do Sul.

Filha de Giovanni Paoletti (Pauletti) e Maria Roncen di Marco, Anna casou com Oswaldo Rech em 20 de novembro de 1847.[1] Assim como ela, era filho de agricultores pobres sem terras próprias, vivendo como arrendatários.[2] Com ele teve nove filhos, sete sobrevivendo à infância: Angelo, Giuseppe, Vittorio, Giovanni, Libera, Teresa e Giovanna. Em 1876 já estava viúva e em sérias dificuldades econômicas, decidindo emigrar junto com um grupo de familiares e conhecidos. Em abril de 1877 tomou posse do Lote 104 no Travessão Leopoldina, na antiga Colônia Caxias, e seu filho mais velho, Angelo, assumiu a posse de um lote contíguo, que juntos compreendiam 50 hectares.[1][3]

Essas terras ficavam junto de um caminho muito utilizado por tropeiros, e percebendo as possibilidades, Anna abriu uma hospedaria junto com um pequeno comércio, e criou um potreiro bem abastecido para o descanso dos animais. Logo seu negócio se tornou conhecido e frequentado.[4]

Ao mesmo tempo Anna adquiria grande respeito na comunidade que ia se formando ali com a chegada de outros imigrantes. Tornou-se notória pela sua prontidão em ajudar os necessitados, doou várias frações de terra para a construção da igreja e do cemitério, e vendeu a baixo preço, em nome dos fins a que se destinava a venda, um grande lote de terra para a construção do colégio e do convento camaldulense.[3][4] Também foi parteira, enfermeira, médica prática, batizou muitos afilhados, e foi uma das principais incentivadoras da devoção a Nossa Senhora de Caravaggio na comunidade. A igreja que ajudou a fundar se tornou a Matriz do povoado e foi dedicada a esta devoção.[3] Segundo Dall'Alba et alii, historiadores da comunidade, "era muito prestativa, [...] era convidada de todos os casamentos e festas. Tinha afilhados de batismo em toda parte. Os do campo, os 'brasileiros', pediam-lhe a bênção". Os autores continuam:

"Pelo que sabemos, em vida não recebeu maiores homenagens, mas apenas o respeito e a veneração devidas a uma mulher forte, de espírito profundamente cristão e altruísta. Muito deve ter sofrido por causa da filha e da irmã deficientes e do vício de cachaça do Giuseppe. Não sabemos, mas o certo é que, como tantas matronas dos primeiros tempos, enfrentou a vida em paridade de condições de homem, vivendo direitos e deveres femininos só mais tarde desfraldados. Certo, não em condições ideais, mas com todas as limitações que a época impunha, tanto a ela como às suas contemporâneas. Analfabeta, como a maioria [...] soube, no entanto, impor-se como uma das figuras que mais se distinguiram entre os imigrantes da região. No trabalho, na humildade, sem maiores pretensões, serviçal, tornou-se conhecida e estimada pelos moradores de todos os travessões, até dos Campos de Cima da Serra".[3]
O centro do distrito de Ana Rech. No alto, a Igreja Matriz.

Com um negócio florescente e uma fama pessoal se espalhando longe, o local onde vivia acabou se tornando um ponto de referência geográfica em toda a região. Todos sabiam onde ficava e como se chegava "lá na Ana Rech".[1][2][3] Em 1906 o nome do lugar como "Ana Rech" já aparece gravado em um registro oficial, e em 1927 o distrito foi emancipado levando o nome da pioneira. A emancipação foi anulada no ano seguinte, mas o nome foi conservado.[3]

Em 1977, nas comemorações do centenário da imigração, foi inaugurada em sua homenagem uma estátua de bronze em tamanho natural, criada por Bruno Segalla. Foi instalada no centro do distrito, no largo diante da Matriz Nossa Senhora de Caravaggio.[3] Durante a inauguração, os restos mortais da pioneira foram transladados do cemitério para o interior da Matriz. Em 2016 o centenário de sua morte foi lembrado em matéria de Rodrigo Lopes no jornal Pioneiro.[5] Em 2017 o Legislativo caxiense homenageou seus 140 anos de nascimento ressaltando sua vida de trabalho e heroísmo e sua visão humanitária. Uma placa comemorativa foi entregue aos seus descendentes.[6] No mesmo ano foi lançado o livro A Viagem de Anna Rech, de autoria do professor Salvatore Liotta.[7] Pedavena, sua cidade de origem — onde uma escola foi batizada com seu nome —, foi irmanada a Caxias do Sul.[4] Hoje sua figura é vista na região de Caxias como um dos símbolos da imigração italiana no Rio Grande do Sul. Nas palavras da pesquisadora Maíra Vendrame,

"A história de sofrimento e bravura de Anna Rech passou a representar todas as mulheres imigrantes, fossem elas jovens, casadas ou viúvas. Ela deveria se tornar um exemplo de inspiração para a população colonial. [...] A memória que a estátua da pioneira quer preservar é a do sofrimento, da força e heroicidade das imigrantes, algo que também é reforçado através do romance A Viagem de Anna Rech. A dramática história da camponesa miserável, viúva e com diversos filhos, que enfrenta tudo e todos para poder emigrar, e que se tornou a fundadora de um povoado no além-mar, representa aquilo que os descendentes de imigrantes italianos buscaram ressaltar enquanto características constituidoras da identidade da comunidade e do grupo".[3]

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b c Dall'Alba, João Leonir et al. História do Povo de Ana Rech. Vol. I - Paróquia. EdUCS, 1987, pp. 47-58
  2. a b Giron, Loraine Slomp. "A épica da pobreza: mulheres imigrantes". In: Storia delle Donne, 2017; 13
  3. a b c d e f g h Vendrame, Maíra. "Un viaggio senza ritorno: a trajetória de uma camponesa italiana no Brasil meridional". In: Ruggiero, Antonio de & Fay, Claudia Musa. História e narrativas transculturais entre a Europa Mediterrânea e a América Latina. Edipucrs/Educs, 2017, s/pp.
  4. a b c Ana Rech. Prefeitura de Caxias do Sul
  5. Lopes, Rodrigo. "O centenário da morte de Ana Rech". Pioneiro, 14/05/2016
  6. "Legislativo homenageia 140 anos de Ana Rech". Tua Rádio, 27/04/2017
  7. "Livro A Viagem de Anna Rech será lançado em Bento Gonçalves". Prefeitura de Bento Gonçalves, 20/03/2017