Abrir menu principal

Wikipédia β

Buraco do Ademar

O Buraco do Ademar[1][2] era o nome popular[3] da passagem de nível subterrânea no Vale do Anhangabaú, na altura da Praça do Correio, sob a Avenida São João, em São Paulo, Brasil.

Mesmo tendo sido projetada em 1930, por Francisco Prestes Maia[4], a obra só foi construída entre outubro de 1948 e setembro de 1950[5], na gestão de Ademar Pereira de Barros como governador, o que motivou o apelido popular[6][7], embora o custo tenha sido pago pela prefeitura[5]. "Meu pai queria, segundo nos contava, que São Paulo tivesse uma obra em que a Avenida São João não fosse cortada por um semáforo", contou, em 1988, o filho do ex-prefeito, Adhemar de Barros Filho. "A obra levou um nome malicioso, 'buraco', mas que ele adorava."[8] No local ficava, nos anos 1930, o Cassino Politiama, a primeira casa de jogos de São Paulo.[9] Em maio de 1948 o vereador Gomes Caselli apresentou um projeto de lei autorizando a prefeitura a construir uma passagem para pedestres sob a Avenida São João, utilizando-se para isso os porões do antigo edifício da Delegacia Fiscal, na esquina da avenida com a Avenida Anhangabaú.[10] Pouco depois seria abandonado outro projeto de Prestes Maia, o Túnel São Bento, que ligaria o Largo do Paissandú ao outro lado do vale[11], próximo do local onde o Buraco do Ademar começaria a ser construído, no ano seguinte.

A passagem foi inaugurada em 29 de setembro de 1950, com uma solenidade marcada para as dezoito horas[5], com a presença de Ademar, do então prefeito da cidade, Lineu Prestes, e de todos os secretários estaduais e municipais.[12] Com "elevado número de pessoas" presentes para a inauguração, Ademar e Lineu foram recebidos com uma salva de palmas.[12] Ademar, então, cortou a fita simbólica colocada em uma das entradas, atravessando, em seguida, o túnel com seu carro, seguido por dezenas de outros.[12]

A intenção da obra, que custou 9,046 milhões de cruzeiros, era desafogar o tráfego no centro da cidade.[5] O túnel tinha 225 metros de extensão (incluídas suas rampas de acesso), 4,70 metros de altura e doze metros de largura.[5] Suas rampas de acesso tinha 6% de declive e eram protegidas por muros de ala feitos de concreto armado.[5]

O logradouro era considerado ponto crítico de enchentes na cidade[13], apesar de promessas de solução desse problema (como em abril de 1978[14]), e até um barco de salvamento circulou por ali durante uma enchente em 1985[15]. As enchentes eram causadas pela baixa capacidade da galeria de águas pluviais da passagem, de apenas 18,4 metros cúbicos por segundo.[16]

Em 1985 o prefeito Mário Covas anunciou que pretendia alargar de quarenta para 62 metros o "teto" do túnel (ou seja, a passagem da Avenida São João), por meio de um investimento de cinco bilhões de cruzeiros. Três anos mais tarde, em janeiro de 1988, no último ano da administração Jânio Quadros, foi iniciada a construção do primeiro dos dois túneis do complexo Papa João Paulo II[17], que inicialmente seria conhecido como "Buraco do Jânio"[18]. Durante as obras, o Buraco do Ademar, que tinha mão dupla, passou a ter mão única no sentido da Avenida Prestes Maia.[19] O projeto original previa apenas um túnel, sendo mantido o Buraco do Ademar[20][21], mas o complexo acabaria por substituí-lo quando se desengavetou um projeto concebido em 1981[22].

O Buraco do Ademar foi interditado em 23 de outubro de 1988, pouco menos de dois meses antes da inauguração do túnel que estava sendo construído ao lado.[23] A interdição prejudicou o trânsito a partir do dia útil seguinte.[24] "O buraco novo é kafkaniano, porque não adiantou nada fazer um túnel com quatro pistas sob a Avenida São João para passarem cem mil carros, se eles têm que parar no sinal da Avenida Senador Queiroz logo à frente", reclamou o escritor Ignácio de Loyola Brandão ao jornal Folha de S. Paulo em dezembro daquele ano.[18] Jorge Wilheim, arquiteto que projetou os novos túneis, exaltava sua obra na comparação com o antigo "buraco": "Enquanto Ademar via apenas uma passagem de nível com sua obra, Jânio quer a remodelação de toda a área."[8] O então deputado estadual Adhemar de Barros Filho discordava: "Trata-se de uma obra plástica e visual, sem nenhuma função, feita sem consulta à população, que só serve para viabilizar Jânio Quadros à presidência do país."[25] E associava a obra às rusgas políticas entre Ademar e Jânio nos anos 1950, que concorreram ao governo do estado em 1954, com vitória apertada do segundo: "O prefeito teve satisfação pessoal em demolir a obra de meu pai, pois, devido às velhas lutas políticas, ele quis tirar da cidade a marca do velho Ademar."[26] A total reurbanização do Vale do Anhangabaú só seria concluída em dezembro de 1991.[27]

Referências

  1. «Cruzamento do Vale em obras». Folha de S. Paulo (17 875). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 12 de março de 1978. pp. pág. 17 
  2. «Negada verba para o plano da Emurb». Folha de S. Paulo (19 144). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 1 de setembro de 1981. pp. pág. 11 
  3. Maria Lúcia Montes (25 de janeiro de 1982). «São Paulo a capital e o capital». Folha de S. Paulo (19 290). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. pp. pág. 3 
  4. «Túnel acaba com 'Buraco do Adhemar'». Folha de S. Paulo (21 800). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 9 de dezembro de 1988. pp. pág. C–1 
  5. a b c d e f «Entrega-se ao trânsito hoje a 'passagem inferior' da Av. São João». Folha da Manhã (8 130). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 29 de setembro de 1950. pp. "Economia e Finanças" 10 
  6. «Anhangabaú começa a ser discutido». Folha de S. Paulo (17 875). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 19 de novembro de 1980. pp. pág. 8 
  7. «Perigo no Anhangabaú». Folha de S. Paulo (19 280). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 15 de janeiro de 1982. pp. pág. 11 
  8. a b «Obra de Jânio ressuscita rivalidade da década de 1950». Folha de S. Paulo (21 803). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 12 de dezembro de 1988. pp. pág. C–4 
  9. «Rosas de Ouro vai à avenida para tentar o tri». Folha de S. Paulo (20 386). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 25 de janeiro de 1985. pp. pág. 17 
  10. «Graves acusações feitas na Câmara Municipal aos vereadores José Cirilo e Otobrini Costa». Folha de S. Paulo (7 401). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 20 de maio de 1948. pp. pág. 10 
  11. «Abandonado o projeto de construção do túnel São Bento». Folha de S. Paulo (7 457). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 24 de julho de 1948. pp. pág. 9 
  12. a b c «Entregue ao trânsito a passagem inferior da Av. Anhangabaú, sob a Av. São João». Folha da Manhã (8 131). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 30 de setembro de 1950. pp. "Noticiário Geral" 11 
  13. «Prefeito acha índice 'absurdo'». Folha de S. Paulo (19 305). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 9 de fevereiro de 1982. pp. pág. 10 
  14. «Passagem do Vale do Anhangabaú já está desimpedida». Folha de S. Paulo (17 918). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 24 de abril de 1978. pp. pág. 9 
  15. «A cidade inundada pede socorro». Folha de S. Paulo (20 411). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 19 de fevereiro de 1985. pp. pág. 1 
  16. «'Buraco do Jânio' será inaugurado 2.ª». Folha de S. Paulo (21 800). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 9 de dezembro de 1988. pp. pág. C–1 
  17. «Obras no Anhangabaú modificam o trânsito no centro de São Paulo». Folha de S. Paulo (21 465). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 9 de janeiro de 1988. pp. pág. A–14 
  18. a b «Buraco do Jânio é kafkaniano». Folha de S. Paulo (21 809). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 18 de dezembro de 1988. pp. pág. C–4 
  19. «Evite transitar pelo ANhangabaú». Folha de S. Paulo (21 392). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 28 de outubro de 1987. pp. pág. A–16 
  20. «Prefeitura autoriza início de obras». Folha de S. Paulo (21 205). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 4 de abril de 1987. pp. pág. A–15 
  21. «Obras viárias podem comprometer orçamento da Prefeitura para 88». Folha de S. Paulo (21 410). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 15 de novembro de 1987. pp. pág. A–29 
  22. «Projeto prevê a construção de bulevar e dois túneis no vale do Anhangabaú». Folha de S. Paulo (21 449). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 24 de dezembro de 1987. pp. pág. A–13 
  23. «'Buraco do Adhemar' será interditado hoje». Folha de S. Paulo (21 753). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 23 de outubro de 1988. pp. pág. C–5 
  24. «Interdição do 'buraco do Jânio' prejudica o trânsito em São Paulo». Folha de S. Paulo (21 755). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 25 de outubro de 1988. pp. pág. C–7 
  25. «Jânio inaugura hoje novo túnel no Anhangabaú e fecha Prestes Maia». Folha de S. Paulo (21 803). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 12 de dezembro de 1988. pp. pág. C–1 
  26. «Obra acaba com o buraco do Adhemar». Folha de S. Paulo (21 803). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 12 de dezembro de 1988. pp. pág. C–1 
  27. «Sob o signo do camelódromo». Folha de S. Paulo (22 906). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 20 de dezembro de 1991. pp. pág. 4–2