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Vale do Anhangabaú

Hoje, o vale está cercado por arranha-céus, dentre eles o segundo mais alto do Brasil, o Mirante do Vale, ao fundo.

O Vale do Anhangabaú é uma região do centro da cidade de São Paulo, situada entre os viadutos do Chá e o Santa Ifigênia.[1] É um espaço público comumente caracterizado como praça, onde tradicionalmente organizam-se eventos como por exemplo manifestações públicas, comícios políticos, apresentações e espetáculos populares. É considerado o ponto que separa o Centro Velho do Centro Novo.[2] Atualmente, define-se como uma extensa laje — configurada como calçadão — sobre um entrocamento rodoviário, desempenhando papel importante na circulação de pedestres do centro da cidade. Esta plataforma está localizada aproximadamente dez metros acima da cota do vale propriamente dita, de forma que permita a passagem subterrânea do tráfego rodoviário através do Complexo Papa João Paulo II. O espaço também interliga-se a outras praças da área central, como a Praça Ramos de Azevedo, justaposta ao Vale, ao Largo de São Bento, por meio das escadarias do Metrô e à Praça da Bandeira, que atualmente abriga um terminal de ônibus.

Índice

HistóricoEditar

Não se sabe ao certo quando a região do Vale do Anhangabaú foi ocupada, mas há registros que sinalizam que, em 1751, o governo já se preocupava com um vale aberto por Tomé de Castro na região localizada entre o Rio Anhangabaú e um lugar onde se tratava a água chamado "Nhagabaí". Até 1822 a região não passava de uma chácara pertencente ao Barão de Itapetininga (e, depois, à Baronesa de Itu), onde eram vendidos agrião e chá. Lá, os moradores eram obrigados a atravessar a Ponte do Lorena para atingir o outro lado do morro, dividido pelo rio. A Câmara Municipal de São Paulo pressionou o Barão de Itapetininga a ceder parte de suas terras, que foram posteriormente transformadas na primeira rua do vale, a Rua Formosa, em 1855.[3] Onze anos mais tarde, o presidente da província, João de Matos, solicitou a cessão de nova parte das terras do Barão, no que foi atendido, com uma condição específica, respeitada, de que a ele fosse dado o nome de Rua Barão de Itapetininga.[3]

Parque do AnhangabaúEditar

 
Calçadão do vale.

Em 1877, teve início a urbanização da área, por meio da idealização do Viaduto do Chá — que só seria inaugurado em 1892. A construção do viaduto resultou na desapropriação de chácaras no local, e um projeto elaborado pelo engenheiro Alexandre Ferguson para a construção de 33 prédios de cada lado do vale para ser alugados.

 
Avenida Prestes Maia, parte de um complexo viário construído sob a praça do Anhangabaú, atualmente ocupando o vale propriamente dito.

Após um longo período de descaso, em 1910 foi realizado o ajardinamento do Vale do Anhangabaú, resultando na formação do Parque do Anhangabaú. Esse projeto tomou forma a partir de uma combinação de três projetos, incluindo o "Grandes Avenidas", de autoria do arquiteto Alexandre Albuquerque, que resultaram na urbanização do vale com a inserção edifícios.[3]

A fonte localizada na encosta à esquerda do Vale, logo abaixo da escadaria, é de autoria escultor italiano Luigi Brizzolara, inspirada na Fonte dos Desejos de Roma. O conjunto escultórico de mesmo nome foi projetado em 1922, por uma promulgação da Prefeitura de São Paulo que não só aprovou a obra como destinou 65 contos de réis para seus gastos. Antes ocupado por um obelisco, o local ganhou o projeto como homenagem da comunidade italiana ao Centenário da Independência do Brasil.[4]

O conjunto conta com doze esculturas em mármore, bronze e granito. A figura dominante é a escultura do compositor brasileiro Carlos Gomes, capturado em uma atitude de meditação. Na parte de baixo, sustentando o globo, três cavalos alteiam a figura alegórica de Glória e as naiades, entidades mitológicas que protegem fontes e rios. A obra é uma representação da música, da poesia e de alguns dos mais famosos personagens das óperas do compositor.[5] 

RemodelaçãoEditar

No fim da década de 1930, o parque foi desfeito, dando lugar a uma via expressa. Foi criada na década seguinte uma ligação subterrânea entre as Praças Ramos de Azevedo e a do Patriarca, a Galeria Prestes Maia, onde foram instaladas as primeiras escadas rolantes da cidade. O cruzamento entre a Avenida Anhangabaú e a Avenida São João ganhou uma passagem em desnível em 1951, com a construção do Buraco do Ademar, que lá permaneceu durante 37 anos, sendo posteriormente substituído por dois túneis homônimos de nome Papa João Paulo II.

No início da década de 1980, a Prefeitura de São Paulo realizou um concurso público para a remodelação da região. Os urbanistas Jorge Wilheim e Rosa Grena Kliass foram os vencedores, propondo um projeto de revitalização que criava uma laje sobre as avenidas existentes no local em uma altura suficiente para ligar os dois lados do Vale, com o tráfego de automóveis ficando abaixo e recriando a área verde entre os viadutos do Chá e Santa Ifigênia. O principal foco reforma era transformar o Vale em um grande boulevard, para retomar a função original de sua construção no início do Século XX.

Para além dos espaços de lazer da praça, o projeto significou integrar o centro histórico conectando os marcos simbólicos da região. [6] Este projeto acabou arquivado e assim permaneceu até o final daquela década, quando foi resgatado na época em que era estudado o fim do Buraco do Ademar.

Espaço públicoEditar

Com jardins, obras de arte e três chafarizes, o Vale do Anhangabaú é hoje um cartão postal do Centro de São Paulo, de onde é possível vislumbrar edifícios, igualmente caracterizados como cartões-postais, como o Edifício Martinelli, o Banespa, o Teatro Municipal, o Shopping Light e o Edifício Matarazzo, sede da Prefeitura. O espaço também exerce a função de palco para a Virada Cultural, evento que promove shows e atividades culturais pela cidade.[7]

Devido a sua ampla dimensão, o vale é considerado um espaço adequado a reuniões públicas de grande porte, tendo sido palco do maior comício público brasileiro, nas manifestações das Diretas Já, organizado em 16 de abril de 1984, quando foi recebido 1,5 milhão de pessoas.[7]

Visão panorâmica da Praça do Correio, no Vale do Anhangabaú. Na foto, ao fundo, observa-se o edifício do Palácio dos Correios em reforma.

Rio sob o asfaltoEditar

O rio nasce como Córrego Saracura, em local hoje desconhecido na parte de trás da avenida Paulista, percorrendo a Avenida Nove de Julho, seguindo pelo Vale do Anhangabaú e atingindo à sua foz no Rio Tamanduateí, à beira do Mercado Municipal. Assim, o Rio Tamanduateí constitui uma espécie de delta com o seu principal afluente, o Rio Anhangabaú.

O nome Anhangabaú possivelmente deriva do fato de suas águas serem muito férreas e ácidas — em tupi significa, “água venenosa”.[2] Os indígenas consideravam o rio maldito.[2] Atualmente, o rio está canalizado e totalmente escondido.[2]

Referências

  1. Vale do Anhangabaú | Pontos Turísticos | Portal do Governo do Estado de São Paulo, acessado em 13 de setembro de 2016.
  2. a b c d «Vale do Anhangabaú - Monumentos». Monumentos. 18 de julho de 2013 
  3. a b c «Obra de Jânio ressuscita rivalidade da década de 1950». Folha de S. Paulo (21 803). São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A. 12 de dezembro de 1988. pp. pág. C–4 
  4. de Athayde Jorge, Clóvis. Consolação, uma reportagem histórica. [S.l.: s.n.] 
  5. Solutions, Webcore Interactive. «Monumentos de São Paulo». www.monumentos.art.br. Consultado em 29 de abril de 2017 
  6. Januzzi; Razente, Denise; Nestor (jul./dez. 2007). «Intervenções urbanas em áreas deterioradas». Semina: Ciências Sociais e Humanas  Verifique data em: |data= (ajuda);
  7. a b Vale do Anhangabaú - Site Oficial de Turisimo da Cidade de São Paulo, acessado em 13 de setembro de 2016.

BibliografiaEditar

  • TOLEDO, Benedito Lima de; São Paulo - três cidades em um século, São Paulo: Cosac e Naify, 2004
  • MACEDO, Silvio Soares; Praças brasileiras, São Paulo: Edusp, 2001