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O primeiro leão morto por John Henry Patterson, agora identificado como FMNH 23970.
O segundo leão morto por Patterson, agora identificado como FMNH 23969.

Os comedores de homens de Tsavo eram um par de leões leste-africanos comedores de humanos na região próxima ao rio Tsavo, no oeste do Quênia, em dezembro de 1898. Os animais foram responsáveis por incontáveis mortes de trabalhadores que estavam construindo uma importante ferrovia na área. O caso chamou a atenção devido a brutalidade dos ataques e por causa do comportamento monstruoso incomum dos animais, que matavam inúmeras pessoas mas nem sempre com o objetivo de come-las.[1]

Ao longo dos anos, o incidente foi ganhando fama, sendo assunto de livros e documentários. Vários filmes também usaram a temática do caso, incluindo The Ghost and the Darkness (de 1996), premiado com o Óscar, baseado no livro The Man-eaters of Tsavo, escrito pelo coronel John Patterson, que foi o homem que matou estes leões.[2]

Várias explicações foram dadas para justificar o comportamento anormal dos animais. Uma das teorias era que as presas naturais dos leões na região foram mortas em massa devido a uma epidemia de peste bovina, o que forçou os predadores a buscar presas alternativas. Outros pesquisadores dizem que os animais já estavam acostumados ao gosto da carne humana devido aos vários corpos que os mercadores de escravos deixavam na estradas que cortavam a região de Zanzibar.[2] Estudos recentes também apontam que os animais tinham problemas nos seus dentes, o que tornava caçar suas presas naturais mais difícil. Também acredita-se que a carne humana poderia ser um complemento a dieta dos animais e como os trabalhadores eram presas fáceis, eles acabaram se tornando o alvo principal dos leões.[3][4]

Índice

HistóriaEditar

No final do século XIX, os britânicos começaram a construção de uma ferrovia que passaria por Uganda e faria a conexão entre o porto de Kilindini, em Mombaça, na costa do Quênia, até o Oceano Índico. Em março de 1898, os britânicos iniciaram as obras sobre o rio Tsavo, na região oeste do Quênia, próxima a fronteira com a Tanzânia. O projeto era liderado pelo tenente-coronel John Henry Patterson. Durante os nove meses iniciais da construção, dois leões machos sem juba (algo natural aos leões de Tsavo), começaram a espreitar o acampamento e atacavam esporadicamente as pessoas, arrastando os trabalhadores, na maioria indianos (levados pelos ingleses para acelerar as construções), de suas tendas, a noite, e os devorando na relva. Os trabalhadores tentavam espantar os leões e começaram a fazer fogueiras perto dos acampamentos e levantavam cercas vivas compostas por braços da árvore de acacia drepanolobium para tentar se proteger, mas com nenhum sucesso; os leões habilmente pulavam as cercas ou passavam por baixo delas. Após vários ataques, os trabalhadores começaram a abandonar seus postos e fugir de Tsavo as centenas, pausando as obras de uma das pontes. O coronel Patterson começou a colocar armadilhas e tentou emboscar os leões a noite, ficando de tocaia numa árvore, sempre no último lugar onde os incidentes aconteciam. Segundo Patterson, e também relatos de trabalhadores, os animais mostravam uma inteligência anormal e quase nunca atacavam o mesmo lugar duas vezes e sempre conseguiam fugir dos ardis dos caçadores.[5]

Após várias tentativas mal sucedidas ao longo de diversas semanas, Patterson finalmente matou o primeiro leão, a 9 de dezembro de 1898. Vinte dias mais tarde, o segundo leão também foi morto. O primeiro leão media 2,95 m do nariz a ponta da cauda. Foi necessário oito homens para carregar a carcaça do animal de volta para o acampamento. Patterson afirmou que atingiu o leão com um disparo do seu rifle de alta potência, ferindo-o na perna, mas ele conseguiu fugir. A noite, o predador voltou e começou a caçar Patterson. Ao perceber isso, o coronel conseguiu acertar o animal novamente e o feriu com um tiro que atingiu seu peito. O corpo da besta foi encontrado no dia seguinte.[5]

O segundo leão teria sido abatido com nove tiros. Cinco foram do mesmo rifle, três de um segundo e um do terceiro. O primeiro disparo foi feito por Patterson, em seu ponto de tocaia, próximo a algumas carcaças de bodes deixadas para trás pelo predador. Onze dias mais tarde, dois disparos atingiram o leão, que na ocasião estava perseguindo Patterson. No dia seguinte, o coronel Patterson reencontrou o leão e o atingiu várias vezes com outro rifle, incluindo dois projéteis que acertaram o peito do animal, e outro na cabeça, matando-o. Patterson afirmou que o leão desfaleceu enquanto ainda tentava escalar a árvore onde ele estava de tocaia.[5]

Com os animais mortos, as equipes de construção voltaram e terminaram a ponte para os britânicos em fevereiro de 1899. O total de pessoas mortas pelos leões não é sabido ao certo. O coronel Patterson já fez várias estimativas, com os números chegando a até 135 vítimas.[6][7]

A pele dos animais, que pertenciam a Patterson, foram vendidas para o Museu Field de História Natural de Chicago em 1924 por US$ 5,000 dólares. As peles chegaram em Chicago em condições bem ruins. Os corpos dos leões foram reconstruídos e suas peles empalhadas e atualmente estão em exibição no museu, junto com os crânios dos animais.[5]

Pesquisas modernasEditar

 
Os corpos empalhados dos leões comedores de homens de tsavo no Museu de História Natural de Chicago, nos Estados Unidos.

Um estudo de 2001 feito por Tom Patrick Gnoske e Julian Kerbis Peterhans[8] contestou a versão do Coronel Patterson de que mais de 100 pessoas foram mortas pelos leões comedores de humanos e estabeleceram que o real número de vítimas giraria em torno de 28 a 31 pessoas, na verdade.[9]

No Museu de Chicago, os dois leões são conhecidos como exemplar FMNH 23970, que é o animal agachado (morto em 9 de dezembro de 1898), e exemplar FMNH 23969, que está "de pé" (morto em 29 de dezembrod e 1898). Estudos recentes foram feitos sobre análises de assinatura isotópica de Δ13C e Nitrogênio-15 do colágeno dos ossos e da queratina dos pelos e foram publicadas na Proceedings of the National Academy of Sciences USA. Analisando as amostras, as necessidades energéticas de um leão e sua eficiência de assimilação, pesquisadores compararam seus resultados com outros leões normais selvagens de Tsavo e esqueletos do povo Taita do começo do século XX. Está análise estimou que FMNH 23969 comeu o equivalente a 10,5 humanos enquanto FMNH 23970 comeu o equivalente a 24,2 humanos.[10]

Esse estudo moderno então coloca o número de vítimas em 35 e confirma análises anteriores feitas oito anos antes por Peterhans e Gnoske, que estimaram o total de vítimas entre 28 e 31 pessoas. O estudo, contudo, não diferencia pedaços de humanos de um corpo inteiro, já que ao perceberem que estavam sob ataques, o reboliço causado pelos trabalhadores acabara espantando os animais, fazendo com que os leões quase nunca terminassem suas refeições inteiramente. Muitos trabalhadores também sumiam por causas desconhecidas, morriam em acidentes ou simplesmente fugiam com medo dos animais. Muitos afirmam que as vezes os leões também matavam sem interesse em se alimentar, mas isso é questionável. O Coronel Patterson e outros pesquisadores contemporâneos são acusados de exagerar suas alegações, puxando para cima o número de vítimas.[11]

Referências

  1. Kerbis Peterhans, J.C.; Gnoske, T.P. (2001). «The science of 'Man-eating' among lions (Panthera leo) with a reconstruction of the natural history of the "Man-eaters of Tsavo"». Journal of East African Natural History. 90: 1–40. doi:10.2982/0012-8317(2001)90[1:tsomal]2.0.co;2 
  2. a b «The Tsavo Man-Eaters». lionlamb.us. Consultado em 9 de fevereiro de 2018 
  3. «Why Man-Eating Lions Prey on People—New Evidence». 19 de abril de 2017. Consultado em 10 de fevereiro de 2018 
  4. DeSantis, Larisa R. G.; Patterson, Bruce D. (19 de abril de 2017). «Dietary behaviour of man-eating lions as revealed by dental microwear textures». Scientific Reports (em inglês). 7 (1). ISSN 2045-2322. doi:10.1038/s41598-017-00948-5 
  5. a b c d Patterson, J. H. (1925). The man-eating lions of Tsavo. [S.l.]: Field Museum of Natural History, Chicago. p. 89 
  6. Patterson, Bruce D. (2004). The Lions of Tsavo: Exploring the Legacy of Africa's Notorious Man-Eaters. [S.l.]: McGraw-Hill. ISBN 0-07-136333-5 
  7. «Field Museum uncovers evidence behind man-eating; revises legend of its infamous man-eating lions» (Nota de imprensa). The FIeld Museum. 14 de janeiro de 2003 
  8. Journal of the East African Natural History Society (Kerbis Peterhans & Gnoske, 2001)
  9. Caputo, Philip. Ghosts of Tsavo. [S.l.: s.n.] p. 274. ISBN 0-7922-6362-6 
  10. Yeakel, J. D.; Patterson, B. D.; Fox-Dobbs, K.; Okumura, M. M.; Cerling, T. E.; Moore, J. W.; Koch, P. L.; Dominy, N. J. (2009). «Cooperation and individuality among man-eating lions». Proceedings of the National Academy of Sciences. 106 (45): 19040–3. PMC 2776458 . PMID 19884504. doi:10.1073/pnas.0905309106 
  11. Janssen, Kim (2 de novembro de 2009). «Scientists restate Tsavo lions' taste for human flesh». Chicago Tribune 

Ligações externasEditar