Félix I

Félix I (oficialmente "F-360-BD") foi um projeto da Escola Técnica do Exército liderado pelo Tenente-Coronel Manoel dos Santos Lage que visava, em 1959, levar o gato Flamengo ao espaço. Porém, o projeto foi cancelado devido a pressões de grupos defensores de animais e o lançamento jamais ocorreu.

Félix I
Tipo Experiência da Escola Técnica do Exército
Participantes Formandos de 1958 da Escola Técnica do Exército
Resultado Projeto cancelado devido a pressão midiática e popular.

HistóriaEditar

OrigemEditar

O projeto, de recursos financeiros limitados, fazia parte do trabalho de conclusão de curso da turma de formandos de 1958 da Escola Técnica do Exército que visava criar um foguete de sondagem, algo inédito no Brasil naquela época.[1][2] O nome oficial era "Foguete Sonda 360-BD", sem relação com o posterior Sonda I.[3] O foguete tinha um diâmetro externo de 400 mm, 4,3 metros de comprimento e uma massa total de 350 kg com a carga útil, além de usar somente um único estágio e ser movido a pólvora,[4] atingindo a velocidade máxima de 1,950 m/s.[5] O objetivo final do Tenente-Coronel Manoel dos Santos Lage,[nota 1] chefe do Programa de Foguetes e líder do projeto, mas não o compartilhado pela instituição, era o de desenvolver um veículo lançador de satélites.[8][2]

O projeto também tinha a colaboração dos cientistas Carlos Chagas Filho e César Lattes.[9] Carlos Chagas Filho foi o responsável pela ideia de escolherem um gato, pois tinha interesse em observar como estes animais reagiam em condições de laboratório.[10]

O projeto, que visava testar um míssil teleguiado, custando Cr$ 600 mil, foi apelidado de "Félix I" pela imprensa do Rio de Janeiro, depois que descobriram a intenção de lançarem um gato, Flamengo, ao espaço. Originalmente planejavam que o foguete atingisse a marca de 300 km, mas isto foi abandonado devido a dificuldades nos cálculos.[8][11][12] A decisão final foi que a turma de 1958 desenvolveria um foguete que atingisse o apogeu de 120 km e a de 1950 trabalharia no que atingisse 300 km, com o objetivo final de desenvolver um foguete do tipo Thor que atingisse órbitas maiores que 500 km até junho de 1960.[13][2]

Inicialmente o foguete seria lançado em 1957, porém foi adiado duas vezes e em dezembro de 1958 esperavam lançar no começo de janeiro de 1959.[2]

Plano de vooEditar

O foguete seria lançado a partir de uma base em Cabo Frio. Seu acelerômetro seria ligado num transmissor na frequência de 73 Mc/s.[14] Dr. César Lattes foi responsável pela construção de três transmissores e os instrumentos que visavam a detecção de raios-cósmicos;[nota 2] Tenente-Coronel Carlos Alberto Braga Coelho construiu a parte eletrônica do foguete; Dr. Carlos Chagas Filho (IBCCF) desenvolveu os instrumentos de monitoração da saúde do gato; e o astrônomo Mário Ferreira Dias, do Observatório do Valongo, desenvolveu os cálculos relacionados com o voo.[16]

A câmara de combustão foi construída pelo Arsenal de Guerra do Exército em companhia dos alunos do Curso de Armamentos, com a chapa de aço-carbono produzida pela Companhia Siderúrgica Nacional. O foguete foi pintado de prateado com listras vermelhas em espiral, para ajudar na visibilidade do foguete em voo, pois o processo seria acompanhado pelo Observatório Nacional.[5]

O empuxo do foguete foi previsto em 1,920 kgf com 6G de aceleração, 19,3s de combustão e uma velocidade final de 1,960 m/s. O propelente, desenvolvido pela Escola Técnica do Exército, era chamado de "Pólvora BD 1000C".[17] O foguete levaria uma carga de 180 quilos de pólvora para atingir a ionosfera.[2]

A coifa, com a massa final de 30 kg, conteria uma câmara de acrílico para o gato, além dos demais instrumentos da missão. A câmara, com a velocidade de retorno estimada em 1,800 m/s,[18] seria inicialmente resgatada por dois dispositivos de freio aéreo medindo  , e seria seguido por um paraquedas de 68 kg desenvolvido pelo Núcleo da Divisão Aero Terrestre do Exército, aberto a 5,000 metros de altitude,[19] tudo de forma automática.[20] O gato teria quatro horas de oxigênio[10] e seria colocado de patas para cima em um colchão de nylon. O voo teria 40 minutos de duração, caindo no mar a 30 quilômetros da plataforma de lançamento, ao largo de Angra dos Reis, sendo resgatado pela Marinha Brasileira. Resgatar o gato com vida foi considerado o maior desafio do projeto.[2][21] Por fim, as informações do voo seriam analisadas por César Lattes.[22]

Se a missão fosse bem sucedida, os futuros foguetes seriam colocados a disposição do Conselho Nacional de Energia Nuclear e do Instituto de Biofísica para serem utilizados em investigações científicas.[23]

FlamengoEditar

Flamengo,[nota 3] o gato das filhas do Tenente-Coronel Lage, foi um dos doze candidatos para o voo. Era o principal candidato e somente seria lançado se tivesse com boa saúde no dia do voo[2][25] e sua presença no voo já estava confirmada em dezembro de 1958.[24] Porém, em outubro de 1958, o Diário do Paraná anunciou que Carlos Chagas Filho substituiria o animal por uma ameba, argumentando que um animal microscópico teria uma maior utilidade científica no estudo dos raios cósmicos.[26][27] Apesar disso, o Coronel Lage manteve o gato no projeto[28] e quando questionado em 1959 sobre o motivo de lançar o gato, ele respondeu: "... a recuperação desse gato, vivo, será um feito extraordinário".[11] Em 19 de dezembro de 1958 o gato posou para a mídia dentro da Escola Técnica.[29] Se o lançamento tivesse sido realizado, teria sido o primeiro ser vivo da América Latina no espaço.[30]

ControvérsiaEditar

Carlos Chagas Filho, quando a experiência passou a ganhar visibilidade na mídia, renegou qualquer interesse renovado em enviar um gato na missão e a possibilidade de qualquer aprendizagem científica, além de citar que a cápsula de acrílico enfrentaria dificuldades com as mudanças drásticas de temperatura.[28][27]

Além da divergência com Carlos Chagas Filho, a equipe do projeto recebeu protestos da "Sociedade Felina Norte-Americana", algo que o responsável do projeto desconsiderou, por acreditar na segurança do veículo. A Sociedade União Internacional Protetora dos Animais também se colocou contra o uso do gato.[31][32] Membros da Faculdade de Medicina Veterinária e outros especialistas também se demonstraram céticos quanto as chances de sobrevivência de Flamengo e Leo Rosen, vice-presidente da SUIPA, também reiterou a posição do grupo contra a experiência.[33] A SUIPA também enviou um apelo e um abaixo assinado, assinado por, entre outros, Rachel de Queiroz e Carlos Drummond de Andrade, ao Comandante da Escola Técnica do Exército e ao Ministro da Guerra, General Teixeira Lott, contra lançar o gato no foguete.[34][25][35] Na questão de experiências com animais, a SUIPA somente defendia quando fosse extremamente necessário, sendo cética quanto a necessidade da experiência com o gato.[36] O Governo do Brasil recebeu milhares de cartas em protesto contra o experimento, mas o Exército as ignorou.[37] E apesar de todos os protestos, inclusive vindos da Europa, o líder do projeto continuou com seus planos.[24][38]

Em novembro de 1958 foi anunciado que o lançamento seria realizado em segredo para "evitar sensacionalismo"[12] e no mesmo mês o coronel João Luís Vieira Maldonado, diretor do Serviço de Meteorologia, disse que o foguete somente levaria aparelhos de sondagem, e não mais o gato.[39] Porém, em janeiro de 1959 o Coronel Lage ainda esperava realizar o lançamento com o gato[11] e em fevereiro do mesmo ano planejavam que o lançamento ocorresse em março.[40] Porém, em maio de 1959, o lançamento ainda não havia ocorrido e calouros da Faculdade Nacional de Engenharia realizaram um desfile onde, entre outras coisas, criticavam e satirizavam o projeto.[41] Em dezembro de 1958 o Exército anunciou que testaria um protótipo do foguete antes do lançamento oficial.[42]

Fim do projetoEditar

Em janeiro de 1959 o foguete estava exposto no Museu de Armamentos da Escola Técnica do Exército.[6] Em 1961 já estava claro que o lançamento não fora realizado.[43][nota 4] Foi o último projeto de foguetes que o Coronel Lage participou[45] e foi encerrado sem voar.[46] Por fim, no dia 18 de outubro de 1963, a gata Félicette realizou um voo suborbital como parte do programa espacial francês, retornando viva e sendo sacrificada após dois meses para a realização de uma autópsia e estudo de seu cérebro.[47] O Coronel Lage foi transferido da Escola Técnica do Exército em 1960 e todos os equipamentos relacionados com o foguete foram desmontados.[48] Manoel Lage, já como General, nascido em 4 de junho de 1910, veio a falecer no dia 5 de agosto de 1977.[49] A Escola Técnica do Exército foi extinta em favor do Instituto Militar de Engenharia.[50]

Devido ao projeto, naquela época o Brasil foi considerado um dos três países detentores de tecnologia espacial, ao lado dos Estados Unidos e União Soviética.[51] No quesito de lançamento de satélites, anos mais tarde o Brasil desenvolveu o mal sucedido projeto do VLS, encerrado em 2016. Atualmente trabalha no projeto do VLM, cujos responsáveis esperam realizar seu primeiro lançamento em 2025.[52]

Ver tambémEditar

Referências

  1. Silva 2020, pp. 95-96.
  2. a b c d e f g Diario de Pernambuco, 19 de dezembro de 1958, p. 15.
  3. Silva 2020, p. 96.
  4. Silva 2020, pp. 96-97.
  5. a b Silva 2020, p. 101.
  6. a b Manchete, 24 de janeiro de 1959, p. 68.
  7. Manchete, 4 de janeiro de 1958, p. 67.
  8. a b Silva 2020, p. 97.
  9. Silva 2020, pp. 98-99.
  10. a b Silva 2020, p. 108.
  11. a b c Manchete, 24 de janeiro de 1959, p. 69.
  12. a b Diario Carioca, 1 de novembro de 1958, p. 12.
  13. Silva 2020, p. 98.
  14. Silva 2020, p. 99.
  15. Silva 2020, p. 111.
  16. Silva 2020, p. 100.
  17. Silva 2020, p. 103.
  18. Silva 2020, p. 107.
  19. Silva 2020, p. 105.
  20. Silva 2020, pp. 107, 111.
  21. Diário de Notícias, 18 de dezembro de 1958, pp. 1-2.
  22. Silva 2020, p. 112.
  23. Diario de Noticias, 29 de outubro de 1958, p. 14.
  24. a b c Tribuna da Imprensa, 20-21 de dezembro de 1959, p. 7.
  25. a b Tribuna da Imprensa, 18 de dezembro de 1958, p. 1.
  26. Diario do Paraná, 28 de outubro de 1958, p. 1.
  27. a b Diario do Parana, 5 de novembro de 1958, p. 1.
  28. a b Silva 2020, p. 110.
  29. Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1958, p. 7.
  30. Izola 1994, p. 50.
  31. Ultima Hora, 1 de novembro de 1958, p. 1.
  32. O Jornal, 31 de outubro de 1958, p. 4.
  33. Diário de Noticias, 20 de dezembro de 1958, p. 15.
  34. Luta Democratica, 20 de dezembro de 1958, p. 5.
  35. O Jornal, 20 de dezembro de 1958, p. 5.
  36. Diario Carioca, 21-22 de dezembro de 1958, p. 8.
  37. Spokane Daily Chronicle, 31 de dezembro de 1958, p. 12.
  38. Tribuna da Imprensa, 20-21 de dezembro de 1959, p. 1, Inglaterra protesta contra gato no foguete.
  39. Tribuna da Imprensa, 14 de novembro de 1958, p. 5.
  40. Ultima Hora, 3 de fevereiro de 1959, p. 7.
  41. Jornal do Brasil, 16 de maio de 1959, p. 7.
  42. Diário de Notícias, 18 de dezembro de 1958, p. 1.
  43. Diario Carioca, 12 de maio de 1963, p. 11.
  44. O Jornal, 10 de julho de 1968, p. 9.
  45. Izola 1994, p. 53.
  46. Izola 1994, p. 54.
  47. Folha de São Paulo, 17 de julho de 2019.
  48. Izola 1994, p. 63.
  49. Silva 2020, pp. 27, 46.
  50. Izola 1994, p. 9.
  51. Izola 1994, p. 49.
  52. Revista Fapesp, janeiro de 2022.

NotasEditar

  1. Em 1951, quando oficial de Artilharia, Manoel dos Santos Lage projetou, construiu e lançou, como parte da Escola Técnica do Exército, o primeiro foguete do Brasil, de apenas um único estágio.[6] Em 1958 foi responsável pelo primeiro foguete brasileiro de dois estágios.[7]
  2. Os instrumentos de raios-cósmicos representaram um desafio de miniaturização.[15]
  3. Nome em referência ao Associação Atlética Flamengo.[24]
  4. Em 1968, no Ceará, existiu um projeto parecido.[44]

BibliografiaEditar

(Em ordem cronológica)