Jorge Hamartolo

Jorge Hamartolo (em grego: Γεώργιος Ἁμαρτωλός; romaniz.: Geó̱rgios Hamarto̱lós) foi um monge em Constantinopla durante o reinado do imperador bizantino Miguel III, o Ébrio (r. 842–867) e o autor de uma crônica importante. Hamartolo não é um nome, mas um epíteto que ele se deu no título de sua obra: "Um compêndio em forma de crônica de vários cronistas e intérpretes, colecionados e arrumados por Jorge, um pecador (em grego: ὐπὸ Γεωργίου ἁμαρτωλοῦ)." É uma forma comum entre os monges bizantinos. Krumbacher (Byz. Litt., 358) é contra o uso deste epíteto como nome e propõe (e usa) a forma Jorge Mônaco (em grego: Γεώργιος Μοναχός - "Jorge, o Monge").

Jorge trabalhando em sua crônica.
Iluminura num manuscrito anônimo do século XIV na Biblioteca Nacional Russa.

Nada se sabe sobre ele, exceto pelas evidências internas que se pode obter de sua obra, que estabelece o período em que ele viveu (no prefácio, ele trata Miguel III como o imperador reinante) e sua profissão de fé, ao se chamar de monge.

CrônicaEditar

A crônica é formada por quatro livros. O primeiro trata da história profana de Adão até Alexandre, o Grande; o segundo, da história do Antigo Testamento; o terceiro, da História do Império Romano, de Júlio César até Constantino I; e o quatro, continua até a época do autor, na morte do imperador Teófilo (842) e a restauração da iconodulia pela mãos de sua viúva Teodora no mesmo ano. A crônica é a única autoridade contemporânea original sobre os anos 813 até 842 e, portanto, é indispensável. Como é geralmente o caso nestas crônicas medievais, a única parte que deve ser tomada ao pé da letra é o relato dos eventos mais ou menos contemporâneos, pois o resto é um interessante exemplo das ideias bizantinas sobre o assunto e sobre as questões que interessavam aos monges da época.

Jorge descreve o seu ideal e seus princípios no prefácio. Ele se utilizou de fontes gregas antigas e modernas, tendo consultado especialmente obras edificantes, e lutou para relatá-las como úteis e necessárias, sem tentar agradar o leitor com pretensões de beleza ou estilo literário e se atendo ao relato. Ele também procurou colocar apenas os temas que seriam úteis e necessários para a sociedade de Constantinopla do século IX e abordou-os todos: ele trata de como os ídolos foram inventados, a origem dos monges, a religião dos sarracenos e especialmente da controvérsia iconoclasta que acabara de terminar. Como todos os monges, o seu ódio a iconoclastia é evidente e a violência com que ele fala dos iconoclastas mostra o quão recente era o assunto e quão frescas eram as memórias da perseguição que sofreram. Além disso, a crônica também traz longos trechos de obras dos padres gregos, longas reflexões piedosas e discursos teológicos.

O primeiro livro trata de uma impressionante miscelânea de pessoas - Adão, Nimrod, os persas, caldeus, brâmanes, as amazonas etc. No segundo também e embora ele afirme tratar apenas da história bíblica, ele tem muito a dizer sobre Platão e os filósofos em geral. Hamartolo terminou a sua crônica com o ano de 842, como o colofão da maioria dos manuscritos atestam. Várias pessoas, entre elas notavelmente Simeão Logóteta, que é provavelmente Simeão Metafrastes, o famoso hagiógrafo do século X, continuou a sua história para datas posteriores - a maior delas chega até 948 Nestas adições, as questões religiosas ficaram em segundo plano e mais atenção foi dada à história política, com uma linguagem mais popular. Continuações de menor qualidade chegam até 1143.

Apesar de suas ideias pouco elaboradas e o seu violento ódio aos iconoclastas, que o faz parecer injusto em relação a eles, a obra tem considerável valor para a história dos últimos dez anos antes do cisma de Fócio. Ela foi traduzida para as línguas eslavônicas (búlgaro e sérvio) e para o georgiano. Nestas versões, ela se tornou uma espécie de fonte para todos os historiadores eslavônicos, principalmente Nestor. Como um livro amplamente consultado e popular, com grande circulação, ela foi constantemente reeditada, corrigida e rearranjada por escribas anônimos, tornando a recuperação do trabalho original "um dos mais difíceis problemas da filologia bizantina" (Krumbacher, 355).

EdiçõesEditar

  • Combefisius "Bioi ton neon Basileon (Βιοι τον νεον Βασιλεον)." In Maxima bibliotheca (Scriptores post Theophanem) Paris, 1685; reedição, Veneza, 1729. A última parte do livro IV da crônica e a continuação (813-948).
  • Muralt, E. de (ed). Georgii monachi, dicti Hamartoli, Chronicon ab orbe condito ad annum p. chr. 842 et a diversis scriptoribus usq. ad ann. 1143 continuatum. São Petersburgo, 1859. A primeira edição da obra toda. Não é o texto original, mas uma das versões modificadas (de um manuscrito do século XII de Moscou), e é, em muitas coisas, deficiente e errônea (veja a crítica de Krumbacher em Byz. Litt., p. 357).
  • Migne, Jacques Paul. Patrologia Graeca 110. Reedição da edição anterior, com uma tradução para o latim.

Ligações externasEditar

BibliografiaEditar

  • Afinogenov, D." The Date of Georgios Monachos Reconsidered." BZ 92 (1999). pp. 437–47. (em inglês)