Abrir menu principal

A língua pirarrã[1] é um língua da família linguística mura, falada por cento e cinquenta (alguns citam trezentos e cinquenta) indígenas pirarrãs, um povo monolíngue e semi-nômade que habita as margens do rio Maici, afluente do rio Marmelos ou Maici, que por sua vez é um afluente do rio Madeira, sendo este afluente do rio Amazonas, no Brasil. Ela também é considerada a lingua mais difícil do mundo

Pirarrã é a única língua do grupo mura não-extinta, sendo que todas as demais desapareceram nos últimos séculos. Essa língua não tem nenhuma relação com qualquer outra língua existente. Havia cerca de trezentos e cinquenta falantes em 2004, distribuídos em oito aldeias ao longo do rio Maici. Não é considerada em risco de extinção, pois seu uso é bem forte, sendo que os pirarrãs falam somente esse idioma.

Apresenta características peculiares, não encontradas em outras formas de expressão oral. Foi identificada e teve sua gramática elaborada em 1986 pelo linguista estadunidense Daniel Everett em cerca de doze artigos. Everett viveu entre os Pirarrã por sete anos, dos anos 1970 aos 1980.

Índice

PeculiaridadesEditar

  • Uma das menores quantidades de fonemas entre os idiomas existentes, rivaliza com a língua Rotokas, da Nova Guiné, nesse aspecto. Embora não haja pirarrã com escrita, identificam-se os sons de apenas três vogais (A, I e O) e seis consoantes: G, H, S, T, P e B;
  • A pronúncia de muitos fonemas depende do sexo de quem fala, havendo, por exemplo, uma sétima consoante (algo como K) somente para os homens.
  • Apresenta dois ou três tons, quantidade discutida entre estudiosos.
  • O falar pirarrã pode ser expresso por música, assobios ou zumbidos (como “M” com lábios fechados).
  • Conforme Everett, apresenta um som “sem voz”, dental, com tremor bilabial, fricativo, somente encontrado similar em línguas não relacionadas, como a Chapacura-Wanham, a Oro Win e a Wari. Os pirarrãs evitam emitir esse som diante de estranhos, com receio de parecerem ridículos a não-falantes de sua língua.
  • Apenas alguns dos homens, nunca mulheres, conseguem se expressar em nheengatu ou em português. A expressão em português usa palavras desse idioma, mas a lógica é a gramática pirarrã.
  • Sentenças muito limitadas, sendo o único idioma sem orações subordinadas.
  • Não tem numerais, apenas a noção do unitário (significando também “pequeno”) e de muitos. Sua cultura e seu modo de vida, como caçadores e coletores, não exige conhecimento de numerais (um trabalho recente de Everett indica que no pirarrã não existem nem mesmo "um" e "dois"; não usam números, mas quantidades relativas).[2]
  • Não há palavras para definir cores, exceto "claro" e "escuro", embora isso seja discutido entre diversos autores.
  • Tudo é falado no presente, não há o tempo futuro nem o passado. Trata-se de um povo, portanto, sem mitos da criação.
  • Não tem termos que identifiquem parentesco, descendência. A palavra para Pai e Mãe é uma única.
  • Os pronomes pessoais parecem ter-se originado na língua nheengatu, uma língua franca de origem tupi.

PronomesEditar

Sheldon (1988) identificou os seguintes pronomes:

ti "Eu"
gixai "Tu"
hi "ele" (humano)
i "ela" (humano)
ik "ele", "eles" (vivo, não-humano, não-aquático)
si "ele", "eles" (vivo, não-humano, aquático)
a "ele", "eles" (inanimado)
tiatiso "nós"
gixaitiso "vocês"
hiaitiso "eles" (só para humanos)

FrasesEditar

Os pronomes são fixados previamente antes dos verbos na sequência: sujeitoobjeto indiretoobjeto direto, sendo que o objeto indireto inclui preposições como “para”, “por”;

Os pronomes são usados para indicação de posse (genitivo);

Não há orações subordinadas, porém encontram-se substantivos modificados por sufixos, que fazem função similar a de uma oração subordinada.

VerbosEditar

Pirarrã é uma língua aglutinativa, que usa afixos para marcar significados gramaticais, inclusive para os equivalentes de verbos como "ser" e "haver".

Sufixos podem indicar também “evidencialidade” – fato testemunhado por quem fala. Outros sufixos indicam que a ação descrita é suposta por quem fala. Outros que é algo de que se ouviu falar, devendo porém a fonte da informação ser expressa claramente. Há também sufixos nos verbos para caracterizar vontade de fazer algo, frustração ao iniciar a ação, frustração ao concluí-la. Há ainda sufixos que tornam os verbos em substantivos derivados.

Há formas verbais para definir ação completada, não-completada, ação visando um objetivo claro, sem objetivo definido, ação contínua, repetitiva ou iniciando. Não há clara definição, porém, de transitividade. Há, por exemplo, um único verbo para "ver" e "olhar", um único para "matar" e "morrer".

Conforme Sheldon (1988), as conjugações de verbos pirarrãs têm oito grupos principais de sufixos:

Grupo A:
intensivo
Ø
Grupo B:
causativo – incompleto
causativo – completo
iniciante – incompleto
iniciante – completo
futuro – algum lugar[3]
futuro – outro lugar[3]
passado[3]
Ø
Grupo C:
negativo/optativo + C1
Grupo C1:
preventivo
com opção
possível
positivo/optativo
negativo indicativo + C2
positivo indicativo + C2
Grupo C2:
declarativo
probabilístico/certo
probabilístico/incerto/iniciando
probabilístico/incerto/ocorrendo
probabilístico/incerto/completo
estativo
interrogativo 1/progressivo
interrogativo 2/progressivo
interrogativo 1
interrogativo 2
Ø
Grupo D:
continuativo
repetitivo'
Ø
Grupo E:
imediato
tentativa
Ø
Grupo F:
durativo
Ø
Grupo G:
desejado'
Ø
Grupo H:
causal
conclusivo
enfático/reiterativo
enfático + H1
reiterativo + H1
Ø + H1
Grupo H1:
presente
passado[3]
passado imediato[3]

Esses sufixos verbais podem levar a alterações fonéticas, podendo também vogais aparecerem entre sufixos para interligação fonética. Quando a junção de dois fonemas implica vogais duplas, a vogal de menor tom desaparece.

As primeiras pesquisas sobre a língua foram conduzidas por Steven N. Sheldon nos anos 1970 sob o patrocínio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, FUNAI, e a Universidade de Brasília. Muito do que se sabe sobre Pirarrã deve-se ao trabalho de Daniel Everett e Keren Madora Everett feito durante os sete anos de convívio que os pesquisadores partilharam com os Pirarrã em intervalos desde 1979. Os Everett são os únicos falantes não-maternos da língua.

BibliografiaEditar

Referências

  1. Pela ortografia etnonímica, pirahã.
  2. «Tribo da Amazônia contradiz noção de que contar é capacidade 'inata'». BBc Brasil. Consultado em 16 de maio de 2011 
  3. a b c d e As identificações de Sheldon para “futuro” e “passado” negam observações de outros pesquisadores como Everett.

Ver tambémEditar

Ligações externasEditar