Luiz Hirata
Nascimento 23 de novembro de 1944
Guaiçara
Morte 20 de dezembro de 1971 (27 anos)
São Paulo
Cidadania Brasil
Alma mater Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo
Ocupação estudante, metalúrgico

Luiz Hirata (Guaiçara, 23 de novembro de 1944São Paulo, 20 de dezembro de 1971) foi um militante da Ação Popular e da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo. Foi um perseguido político durante o regime militar brasileiro, preso, torturado e morto pela Ditadura.[1]

É um dos casos investigados pela Comissão da Verdade, que apura mortes e desaparecimentos na ditadura militar brasileira.

Vida pessoalEditar

Luiz Hirata nasceu em Guaiçara, na região de Lins, interior de São Paulo, filho de Tadayoshi Hirata e Hisae Hirata,[1] imigrantes japoneses e agricultores. Estudou Agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, em Piracicaba. Militante de esquerda da Juventude Universitária Católica,[2] entra também para a Ação Popular, sendo considerado como um dos fundadores da entidade. A perseguição política o leva a abandonar o curso em 1968. Mesmo atuando em clandestinidade, Luiz já sabia que estava sendo vigiado e que corria perigo. No último ano da graduação, optou por não colocar grau e evitou participar das festividades para preservar sua integridade física.[3]

Ao que tudo indica, o esquema de militância promovido por Hirata foi descoberto pelo sistema de inteligência da polícia à época. A partir deste momento, Luiz precisou mudar de vida em todos os sentidos, incluindo a alteração do próprio nome: agora, virou 'Maurício' e passou a morar no bairro de São Lucas, já na capital paulista. Segundo documentos do DEOPS, dividia um quarto com Issamo Ito e Raimundo Moreira de Oliveira, onde a repressão encontrou um mapa feito à mão dos diferente bairros de São Paulo em que o grupo atuava ou pretendia atuar.[4]

Após a mudança para São Paulo, trocou a agronomia para ser operário na metalúrgica Mangels.[2] Lá, se junta à Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, sendo um dos cinco coordenadores do movimento, junto com Waldemar Rossi, Cleodon Silva, Vito Gianotti e Raimundo Moreira. Neste momento, o viés da militância passa a agir juntamente com as classes trabalhadoras. A ideia era derrubar a ditadura de direita que foi instaurada no Brasil a partir de 1964.[5]

Morte e versão da DitaduraEditar

Na noite de 26 de novembro de 1971,[6] Luiz Hirata é preso pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DOPS[7] de São Paulo. No dia 16 de dezembro, é admitido no Hospital das Clínicas, levado pela Polícia e com laudo de corpo de delito do legista Harry Shibata, que confirmavam a versão oficial de que Hirata teria atingido em alta velocidade a traseira de um ônibus quando tentou uma fuga a pé.[8] Segundo, Shibata: "o examinado em questão, na tarde de hoje, foi vítima de acidente quando tentava fuga, colidindo-se na traseira de um ônibus. Foi removido ao DOPS e por apresentar ferimentos generalizados, foi solicitada a presente perícia".

Ainda segundo o legista, os exames realizados após o suposto acidente apontaram graves traumas torácicos, além de algumas outras escoriações pelo corpo da vítima. Por conta da condição física de Luiz, a recomendação era a de internação imediata em um hospital e a realização de radiografias para identificar a gravidade da situação.[9] Mesmo com o laudo sendo elaborado no meio da manhã, às 9h15, apenas 11 horas depois, às 20h15, a vítima foi encaminhada para o hospital.

Quatro dias depois, às 8h30 do dia 20 de dezembro de 1971, Luiz Hirata veio a falecer.[7] Segundo o exame necroscópico, assinado por Onildo B. Rogano e Abeylard de Queiroz Orsini, o paciente apresentava insuficiência renal crônica, com necrose dos rins. A causa mortis foi determinada como choque hemorrágico por agente contundente.[10] No laudo, também se negava a possibilidade de tortura da vítima. Segundo a Marinha, Hirata "sofreu lesões traumáticas ao tentar fugir. Foi conduzido ao Hospital, mas veio a falecer em consequência das lesões". No relatório da Aeronáutica, lê-se: "Falecido em 16/12/71, em São Paulo/SP. Ao tentar fuga, sofrendo lesões traumáticas graves, baixando ao hospital onde veio a falecer". Apesar de ter a identidade reconhecida pela Polícia, Hirata é enterrado como indigente no Cemitério de Perus.[11]

De acordo com Heládio José de Campos Leme, companheiro de cela que acompanhou a rotina e o agravamento das lesões, Luiz Hirata sofreu com torturas por cerca de 20 dias e voltava dos interrogatórios carregado pelos policiais paulistas. “Seu rosto ficou tão inchado que ele não podia abrir os olhos. Chegou um momento em que ele não mais urinava nem comia: foi quando o levaram, quase inconsciente", afirmou. Mesmo depois de morto, foi condenado e enterrado como indigente.[12]

Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos PolíticosEditar

O companheiro de cela de Luiz Hirata, Heládio José de Campos Leme, contesta a versão oficial. Heládio esteve preso junto com Hirata por duas das três semanas em que este foi torturado. Segundo ele, o rosto de Hirata "ficou tão inchado que ele não podia abrir os olhos. Caminhava com dificuldade crescente, até que praticamente perdeu a capacidade de locomoção, precisando ser carregado inclusive para fazer uso do vaso sanitário. Chegou um momento em que ele também não conseguia mais comer. Foi quando o levaram, quase inconsciente”. Heládio declara à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos que a condição física de Hirata se deteriorava progressivamente com as sessões de interrogatórios. As torturas sofridas deixavam grandes hematomas no corpo de Hirata, especialmente na região dos rins.[1][13]

O caso foi aprovado por unanimidade na CEMDP. O relator general Oswaldo Pereira Gomes adicionou ainda que "as peças do processo dão a plena convicção de que Luiz Hirata estava preso na polícia paulista e que foi conduzido ao Hospital das Clínicas em estado terminal irreversível".[1]

O delegado Fleury, o DOPS e o médico Harry Shibata, tem também antecedentes em casos de torturas, assassinatos e encobertamentos. Um dos legistas, Abeylard Orsini, teve a licença médica cassada pelo Conselho Federal de Medicina em 2002, confirmando a decisão do CRM-SP de 2000, por apoio ao regime ao assinar 15 laudos fraudulentos de presos políticos. O Cemitério de Perus, onde Hirata foi sepultado, também foi utilizado com frequência pela Ditadura para enterrar corpos de torturados.[1] Por ali, era comum o depósito de indigentes, colocados inicialmente nas chamadas covas rasas.

Segundo depoimento de Antonio Pires Eustácio, ex-administrador do cemitério, a única forma de diferenciação entre os corpos de indigentes e de militantes assassinados pela ditadura era a forma com que eram levados até o cemitério. No caso dos chamados "terroristas", um camburão era escoltado até o local com a presença de apenas um corpo. Já nos enterros de civis, os mesmo camburões chegavam com, pelo menos, seis corpos, além de se notar a ausência de uma escolta especializada. Além disso, a documentação dos militantes continha, em seu canto superior, um carimbo vermelho com a letra "T", que significava terrorista.

Ainda no depoimento concedido à Comissão da Verdade, Antonio afirmou que o plano do governo de São Paulo era desenterrar e queimar os corpos de indigentes que haviam sido enterrados há mais de 3 anos por ali - este era o período que se aguardava até o aparecimento de um familiar e/ou conhecido para transportar o morto para um cemitério de sua preferência. A medida tinha como objetivo vagar certos espaços no cemitério, visto que as covas disponíveis estavam começando a ficar lotadas. Porém, questões legais travaram a medida. Como consequência, foi aberta uma vala comum, onde posteriormente foram encontradas 1049 ossadas (devidamente catalogadas anos depois).[14]

HomenagensEditar

Luiz Hirata foi homenageado com uma placa no cemitério Dom Bosco, em São Paulo, em 2017. Outras 53 vítimas também receberam este tributo, como José Milton Barbosa

e José Júlio de Araújo.[15]

Ver tambémEditar

Anexo:Lista de mortos e desaparecidos políticos na ditadura militar brasileira

Referências

  1. a b c d e http://cemdp.sdh.gov.br/modules/desaparecidos/acervo/ficha/cid/320
  2. a b «Cópia arquivada» (PDF). Consultado em 15 de junho de 2014. Arquivado do original (PDF) em 3 de março de 2016 
  3. MOLINA, Rodrigo Sarruge (2016). Ditadura, agricultura e educação: A ESALQ/USP e a modernização conservadora do campo brasileiro (1964 a 1985). Campinas: UNICAMP 
  4. MOLINA, Rodrigo Sarruge (2016). Ditadura, agricultura e educação: A ESALQ/USP e a modernização conservadora do campo brasileiro (1964 a 1985). Campinas: UNICAMP 
  5. MOLINA, Rodrigo Sarruge (2016). Ditadura, agricultura e educação: A ESALQ/USP e a modernização conservadora do campo brasileiro (1964 a 1985). Campinas: UNICAMP 
  6. «Cópia arquivada». Consultado em 15 de junho de 2014. Arquivado do original em 28 de junho de 2014 
  7. a b http://www.documentosrevelados.com.br/wp-content/uploads/2012/02/1LaudoDeLuizHirata.Pagina1.jpg
  8. Laque, João Roberto (11 de outubro de 2019). «Pedro e os lobos: os anos de chumbo na trajetória de um guerrilheiro urbano». João Roberto Laque – via Google Books 
  9. Direito à memória e à verdade. [S.l.: s.n.] 2007. pp. p. 193–194 
  10. http://www.documentosrevelados.com.br/wp-content/uploads/2012/02/2LaudoDeLuizHirata.Pagina2.jpg
  11. http://www.dhnet.org.br/dados/dossiers/dh/br/dossie64/br/dossmdp.pdf
  12. MOLINA, Rodrigo Sarruge (2016). Ditadura, agricultura e educação: A ESALQ/USP e a modernização conservadora do campo brasileiro (1964 a 1985). Campinas: UNICAMP 
  13. «LUIZ HIRATA - Comissão da Verdade». comissaodaverdade.al.sp.gov.br. Consultado em 17 de outubro de 2019 
  14. «GELSON REICHER - Comissão da Verdade». comissaodaverdade.al.sp.gov.br. Consultado em 17 de outubro de 2019 
  15. «Mortos na ditadura militar recebem homenagem no cemitério de Perus». G1. Consultado em 14 de outubro de 2019 

Ver capítulo 6 da tese de doutorado de MOLINA, R.S (http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/321628)