Marcelo Dolabela

Marcelo Gomes Dolabela (Lajinha, 17 de setembro de 1957 - 18 de janeiro de 2020)[1] foi um poeta, professor, pesquisador, artista multimídia, roteirista e músico brasileiro.


Marcelo Dolabela foi um destacado poeta de Minas Gerais do último quarto do século XX, precisamente desde a Poesia Marginal. Atento, já em 1981, Glauco Mattoso, um dos maiores poetas e conhecedores da poesia de língua portuguesa, em seu clássico livro "O que é Poesia Marginal", incluiu o Dolabela como uma voz especial desse movimento poético, em Belo Horizonte, nos anos 1970. Para Glauco Mattoso, “a palavra ‘marginal’, sozinha, não explica muito. Veio emprestada das ciências sociais, onde era apenas um termo técnico a especificar o indivíduo que vive entre duas culturas em conflito, ou que, tendo-se libertado de uma cultura, não se integrou de todo em outra, ficando às margens das duas. [...] Na verdade, ‘marginal’ é simplesmente o adjetivo mais usado e conhecido para qualificar o trabalho de determinados artistas, também chamados ‘independentes’ ou ‘alternativos’. [...] Dizer que um poeta é marginal equivale a chamá-lo ainda de ‘sórdido’ e ‘maldito’. [...] Em suma: a poesia não é mais aquela coisa ‘séria’. A própria palavra ‘poesia’ deixa de ser intocável para virar objeto de jogo e brincadeira” (1981).

A Poesia Marginal (ou Geração Mimeógrafo) foi um movimento sociocultural de artistas (Marcelo Dolabela, em Minas Gerais, Nicolas Behr, Distrito Federal, Ana Cristina Cesar, no Rio de Janeiro, Ulisses Tavares, em São Paulo etc.), que consistia, dentre outras ações, em publicar experimentos no campo das artes literárias de conteúdo político. Assim, às margens do mercado editorial brasileiro, contra a censura imposta pela ditadura militar à época, os poetas publicavam plaquetes, cartazes, cartas, manifestos, folhas volante, livros de artista, grafismos etc.

Marcelo Dolabela publicou mais de 50 livros, com tiragens pequenas, em sua maioria, por isso circulou tão pouco, preferiu assim. Dentre eles, "Coração malasarte" (1980), "Radicais" (1985), "Poeminhas & outros poemas" (1994 e 1998), "Letrolatria" (2000), "Batuques de limeriques" (2005), "Amônia" (1997), "Lorem Ipsus: antologia poética & outros poemas" (2006), "Trevas daltônicas" (2015), "Guilherminas" (2015), "Duchas Duchamp" (2015) e "Acre ácido azedo" (2015). Tinha uma consciência assustadora da grandeza de sua obra, um "total controle", e era avesso às trocas baldrocas do meio literário.

Marcelo Gomes Dolabela nasceu em Lajinha, a 350 km da capital, na região do Caparaó, divisa com o Espírito Santo, no dia 17 de setembro de 1957, filho da Dona Dorinha e do Seu Renê, que tiveram mais seis filhos: Regina, Maria Hilda, Maria Fâni, Marcos, Marlon e Marconi. Marcelo se mudou para cursar o segundo grau no internato de Presidente Soares/MG, hoje Alto Jequitibá, ao pé do Pico da Bandeira, a 60 km da terra natal. Nunca deixou de frequentar Lajinha, onde, nos últimos anos, também construiu uma casa.

Marcelo finalizou o secundário já em Belo Horizonte e se formou em Letras pela UFMG, em 1984, mas, antes, quase se formou em Veterinária, pela mesma universidade. Desde então, foi professor de disciplinas ligadas ao campo das letras em variados cursos do ensino superior, com destaque para sua atuação no UNI-BH, entre os anos de 1992 e 2009. Tornou-se mestre em Educação, Administração e Comunicação, em 2001, pela Universidade de São Marcos, com o trabalho intitulado "A poesia do slogan". Iniciou o doutorado em Estudos Literários pela UFMG, mas se desligou do programa.

Marcelo lançou seus dolabelismos também em direção à música, foi letrista, vocalista e fundador da banda Divergência Socialista, “Christiane Keller” (1986) e “Lilith Lunaire” (1990) são, sem dúvida alguma, dois dos álbuns mais importantes da cena do rock belo-horizontino. John Ulhoa, do Pato Fu, Mário Santiago, Silma Dornas, Rubinho Troll, Bruno Verner, Aleca A. De Alexandria, Gato Jair e Fabiane Andropov são alguns dos integrantes que passaram pela banda.

Dentre outras atuações artísticas, Dolabela publicou textos ao longo de muitos anos no jornal "Hoje em Dia" e escreveu roteiros para os cineastas mineiros Patrícia Moran, "Maldito Popular Brasileiro: Arnaldo Baptista" (1991), e Rafael Conde, com destaque para o premiado "A hora vagabunda" (1998), um dos curtas-metragens mais importantes do cinema brasileiro.

Além disso, o lajinhense foi um perspicaz colecionador e pesquisador da produção artística independente de Belo Horizonte, de poesia e de música brasileiras, autor do seminal livro "ABZ do Rock Brasileiro" (1987) e curador da exposição "Rock Brasileiro em 1000 discos", 2012. Marcelo deixou um arquivo/patrimônio de valor incalculável, em todos os sentidos. A qualidade e força de seu trabalho é muito grande e o Brasil precisa, sem pressa, conhecê-lo melhor.

Sendo assim, torcemos para que sua vastíssima produção artística seja sistematizada e chegue ao alcance de todos. Esperamos, igualmente, que o setor educacional do município de Lajinha dê mais atenção ao seu trabalho.


Dolabela é pós-graduado em literatura brasileira pela Universidade Federal de Minas Gerais com trabalho sobre Dolores Duran e é mestre em comunicação pela Universidade São Marcos.[2][3]

Já teve trabalhos de arte postal expostos em salões nacionais e internacionais (Canadá, EUA, Japão, Peru, Uruguai, Bélgica, França, Portugal).[4]

Foi o autor do texto do curta-metragem Uakti - Oficina Instrumental, de Rafael Conde, prêmios de melhor filme e melhor montagem no Festival de Gramado de 1987, na categoria curta-metragem.[5][6] Também atuou como o roteirista dos filmes Arnaldo Batista Maldito Popular Brasileiro e Adeus, América, ambos de Patrícia Moran.

Como músico, integrou diversas bandas, entre elas a Sexo Explícito, que teve entre seus integrantes John Ulhoa, atual integrante do Pato Fu.

Como escritor, tem mais de 30 livros de poesia publicados (entre eles Adeus, América; Violência; Droga; Radicais). Auto-intitula-se "dadamídia", devido a característica de seus espetáculos,[7] liderando também o grupo poético-musical Caveira, My Friend.[1]

É autor do ABZ do Rock Brasileiro, a principal referência enciclopédica para o rock brasileiro até a década de 2000, quando a internet se popularizou,[8] e citado em trabalhos acadêmicos.[9][10] O livro tem vários prefácios, escritos por Arnaldo Antunes,[11] Zé Rodrix e Tony Campello.

Principais obrasEditar

  • Coração malasarte (1980)
  • Radicais (1985)
  • ABZ do Rock brasileiro (1987)
  • Amônia (1997)
  • Poeminhas & outros poemas (1998)
  • Letrolatria (2000)
  • Batuques de limeriques (2005)
  • Lorem ipsus – Antologia poética & outros poemas (2006)
  • Acre Ácido Azedo (2015)

Referências

  1. a b Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, Suplemento Literário, Projeto Terças Poéticas apresenta Marcelo Dolabela e homenageia Archangelus de Guimaraens, data: 28/08/2007, acesso: 27/05/2010
  2. Agência Minas, Projeto Café das Artes discute a poesia brasileira atual, data: 08/06/2007, acesso: 11/06/2010
  3. Academia de Ideias, Belos & Malditos: Renato Russo, Cazuza & Cássia Eller, acesso: 08/06/2010
  4. Guerra Fria cabeça Quente, uma amostra da arte postal produzida por Dolabela.
  5. 15.º Festival de Cinema de Gramado, 27 de abril a 02 de maio (1987)
  6. Uakti Oficina Instrumental
  7. Dolabela inovou nas Récitas de Autor, 8º salão do Livro, data: 21.06.07
  8. Bibliografia
  9. Júlio Naves Ribeiro. De lugar nenhum a Bora Bora: identidades e fronteiras simbólicas nas narrativas do “rock brasileiro dos anos 80”. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, junho de 2005. Disponível em http://www.ifcs.ufrj.br/~ppgsa/mestrado/Texto_completo_232.prn.pdf Arquivado em 3 de outubro de 2009, no Wayback Machine.
  10. Herom Vargas; Priscila Ferreira Perazzo. A jovem guarda no ABC paulista: música popular, mídia e memória. In: Sociedade e Cultura, v.11, n.2, jul/dez. 2008. p. 225 a 232. Disponível em http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf/article/viewFile/5260/4307
  11. Arnaldo Antunes 40 Escritos

Ligações externasEditar