Mosteiro de Estúdio

O Mosteiro de São João, Precursor em Estúdio (Hagios Ioannes Prodromos en tois Stoudiou), geralmente abreviado como Estúdio (Stoudios/Stoudion; em latim: Studium), foi o mais importante mosteiro cristão de Constantinopla, a capital do Império Bizantino. Os residentes deste mosteiro são geralmente chamados de Estuditas (Stoudites). Mesmo estando em ruínas por quase meio milênio, as leis e costumes de Estúdio foram tomadas como modelo pelos monges de Monte Atos e por muitos outros mosteiros no mundo ortodoxo e, ainda hoje, eles são influentes.

Gravura do Mosteiro de Estúdio, circa 1877, antes dos danos provocados pelo sismo de 1894 e do incêndio de 1920

As ruínas do mosteiro estão situadas não muito distante do Propôntida, numa seção da cidade chamada Psamácia (atual distrito de Fatih, em Istambul). O mosteiro foi fundado em 462 pelo cônsul Estúdio, um patrício romano que havia se estabelecido em Constantinopla, e foi consagrado a São João Batista. Seus primeiros monges vieram do Mosteiro de Acoemetas.

Atualmente as ruínas são conhecidas localmente como Mesquita İmrahor (em turco: İmrahor Camii).

HistóriaEditar

Os estuditas deram a primeira prova de sua devoção à fé ortodoxa durante o cisma acaciano, provocado pelo patriarca de Constantinopla Acácio (484–519). Eles também permaneceram fiéis durante o atribulado período do iconoclasma, nos séculos VIII e IX. Os monges chegaram a ser expulsos do mosteiro e da cidade pelo imperador bizantino Constantino V Coprônimo (r. 741–775), mas logo voltaram.

 
Imagem do mosteiro.
Menológio de Basílio II Bulgaróctono, século XI

Hegúmeno ("abade") Sabas defendeu com firmeza a doutrina ortodoxa contra os iconoclastas no Sétimo Concílio Ecumênico realizado em Niceia em 787 Seu sucessor, Teodoro, o Estudita, a quem o mosteiro deve muito de sua fama, patrocinou o estudo acadêmico e espiritual no mosteiro. Também durante sua administração os monges foram provocados e expulsos diversas vezes e, algumas vezes, condenados à morte.

O pupilo de Teodoro, Naucrácio (Naukratios), restabeleceu a disciplina após o final do iconoclasma. Hegúmeno Nicolau (848-845 e 855-858) se recusou a reconhecer o patriarca Fócio e, por isso, foi confinado em seu próprio mosteiro. Ele foi sucedido por cinco outros abades que reconheceram o patriarca e foi nesta época que o ápice do mosteiro chegou ao fim.

Em 1204, o mosteiro foi destruído pela Quarta Cruzada e não foi totalmente restaurado até pelo menos 1290. Os peregrinos russos Antônio (ca. 1200) e Estêvão (ca. 1350) ficaram maravilhados com o tamanho do lugar. Acredita-se que o claustro chegou a abrigar até 700 monges por vez.

Grande parte do mosteiro foi novamente destruída pelos turcos otomanos na Queda de Constantinopla em 1453.

Atividades artísticasEditar

Na metade do século XI, durante a administração do hegúmeno Simeão, um monge chamado Nicetas Estetato, um discípulo de Simão, o Novo Teólogo, criticou alguns costumes da Igreja Latina em dois livros que ele escreveu sobre o uso de pão ázimo, o descanso aos domingos e o casamento clerical. Em 1054, ele abjurou suas convicções na presença do imperador, do patriarca e de legados papais, além de atirar seu próprio livro no fogo. Não existem evidências convincentes de que ele tenha retomado a sua disputa posteriormente.

Em relação à vida intelectual no mosteiro, ele é especialmente celebrado por sua famosa escola de caligrafia, que fora fundada por Teodoro. A arte da iluminura também era muito pratica, com muitas obras brilhantes tendo saído do scriptorium do mosteiro e agora preservadas em Veneza, no Vaticano e em Moscou (como o Saltério de Chludov).

 
Uma das fachadas das ruínas atualmente

Nos séculos VIII e XI, o mosteiro foi o centro da poesia religiosa bizantina, com diversos hinos ainda em uso pela Igreja Ortodoxa. Além de Teodoro e de Nicetas, diversos outros teólogos estuditas são conhecidos. Três monges ascenderam ao trono patriarcal de ConstantinoplaAntônio III Estudita (r. 974–979), Sérgio II Estudita (r. 1001–1019) e Aléxio I Estudita (r. 1025–1043) — e três outros foram imperadores — Miguel V, o Calafate (r. 1041–1042), Isaac I Comneno (r. 1057–1059) e Miguel VII Ducas (r. 1071–1078).

Condições atuaisEditar

A única parte do mosteiro que chegou ao século XX foi a Catedral de São João Batista, provavelmente a mais antiga igreja de Istambul, uma basílica do século V que foi convertida pelo cavalariço de Bajazeto II na Mesquita do Mestre dos Estábulos (em turco: İmrahor Camii). A antiga estrutura sofreu graves danos nos grandes incêndios de 1782 e 1920, e também no terremoto de 1894.

Logo após o terremoto, um grupo de acadêmicos bizantinistas russos, liderados por Fyodor Uspensky, inauguraram o Instituto Arqueológico Russo nas instalações do mosteiro, mas ele foi suprimido durante a Revolução Russa. Nas décadas seguintes, as ruínas do mosteiro foram pilhadas pelos habitantes das redondezas em busca de material de construção para reparar suas residências.

Ligações externasEditar

 
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