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Physys
Romano equivalente Natura

Phýsis (em grego Φύσις, "Natureza") também chamada de Prôtogéneia (em grego Πρωτογένεια, "Primordial"), na mitologia grega, era a divindade primordial da natureza e um dos primeiros seres a surgir no princípio dos tempos. Na mitologia romana é chamada de Natura. Atribuem-lhe ambos os sexos, e geralmente era identificada com Gaia (a Mãe-Terra), com Eros (Amor ou Procriação), com Fanes (Luz) ou Tésis (a Criação).[1]

O termo é central para a filosofia grega e, como consequência, para a filosofia ocidental como um todo, incluindo-se seus usos teológicos e científicos. No uso pré-socrático, a physis foi contrastada com νόμος nomos, "lei, convenção humana". Desde Aristóteles, no entanto, o físico (o assunto da física, propriamente τὰ φυσικά "coisas naturais") tem sido tipicamente justaposto ao metafísico.[2]

Conceito geral na Grécia AntigaEditar

Portanto, a palavra grega Physis pode ser traduzida por natureza, mas seu significado é mais amplo. Refere-se também à realidade, não aquela pronta e acabada, mas a que se encontra em movimento e transformação, a que nasce e se desenvolve, o fundo eterno, perene, imortal e imperecível de onde tudo brota e para onde tudo retorna. Nesse sentido, a palavra significa gênese, origem, manifestação. Saber o que é Physis, assim, levanta a questão da origem de todas as coisas, a sua essência, que constituem a realidade, que se manifesta no Movimento. Nas palavras do professor Miguel Spinelli: "tudo o que nasce está destinado a ser o que deve ser e não outra coisa. Esse nascer destinado, pelo qual o que nasce se submete a um processo de realização, é a phýsis, e, como tal, a archê. (...) tanto a phýsis quanto a archê não são expressões do anárquico (...), tampouco do ocasional... O que esses termos conjuntamente designam é o que ocorre sempre ou de ordinário (...), mas com uma eficácia tal que "dispara" sempre (como se fosse um gatilho biológico) o que é melhor dentre todo o possível" (SPINELLI, Miguel. Questões Fundamentais da Filosofia Grega. São Paulo: Loyola, 2006, pp.36-37). A phýsis expressa um princípio de movimento relativo ao fazer-se das coisas nas quais mudam as aparências, enquanto que cada (ser ou coisa) permanece sempre sendo ela mesma.

Esse movimento seria a contínua transformação dos seres, mudando de qualidade (por exemplo, o novo envelhece; o quente esfria; o frio esquenta; o seco fica úmido; o úmido seca; o dia se torna noite; a noite se torna dia; a primavera cede lugar ao verão, que cede lugar ao outono, que cede lugar ao inverno; a árvore vem da semente e produz sementes, etc.) e mudando de quantidade (o pequeno cresce e fica grande; o grande diminui e fica pequeno; um rio aumenta de volume na cheia e diminui na seca, etc). Portanto o mundo (Physis) está em mudança contínua, e nem por isso perde sua forma, sua ordem e sua estabilidade.

Uso pré-socráticoEditar

A palavra φύσις é um substantivo verbal baseado em φύειν "crescer, aparecer" (cognato com o verbo "ser"). No grego homérico, é usado literalmente quanto ao modo de crescimento de uma espécie específica de planta.[4]

Os filósofos pré-socráticos tinham como principal preocupação a explicação dos aspectos referentes a cosmologia. Tiveram um papel importante, na medida em que marcam toda uma fase de pensamento voltada para a explicação racional dos fenômenos que constituíam as inquietações dos homens daquela época. Começando com Heráclito, a physis, de acordo com sua etimologia de "crescer, tornar-se", é sempre usada no sentido do desenvolvimento "natural", embora o foco possa estar na origem ou no processo, ou no resultado final do processo. Existem evidências de que, no século VI a. C., começando com a escola jônica, a palavra também poderia ser usada no sentido abrangente, como se referindo a "todas as coisas", como se fosse "Natureza" no sentido de "Universo".[5]

Na tradição sofista, o termo opunha-se a nomos (νόμος), "lei" ou "costume ", no debate sobre quais partes da existência humana são naturais e quais são devidas a convenções.[6] O contraste entre physis e nomos pode ser aplicado a qualquer assunto, bem como o contraste moderno de "natureza versus criação".

Nas Leis de PlatãoEditar

No livro 10 das Leis, Platão critica aqueles que escrevem obras peri physeōs ("Sobre a Natureza", uma das designações mais comuns entre os livros dos filósofos pré-socráticos). A crítica é que esses autores tendem a se concentrar em uma explicação puramente "naturalista" do mundo, ignorando o papel da "intenção" ou technē e o que tornaria, assim, propenso ao erro de "ateísmo ingênuo". Platão acusa até Hesíodo disso, pela razão de que os deuses em Hesíodo "crescem" a partir de entidades primordiais após o estabelecimento do universo físico.[7]

"Pois aqueles que usam o termo pretendem dizer que a natureza é o primeiro poder criativo; mas se a alma se torna o elemento primordial, e não o fogo ou o ar, então no sentido mais verdadeiro e além de outras coisas, a alma pode ser dita que existe por natureza; e isso seria verdade se você provasse que a alma é mais velha que o corpo, mas não o contrário". - Leis de Platão, livro 10 (892c) - tradução de Benjamin Jowett

AristótelesEditar

Aristóteles buscou a definição de "physis" para provar que havia mais de uma definição para "physis" e mais de uma maneira de interpretar a natureza. "Embora Aristóteles retenha o sentido antigo de "physis" como crescimento, ele insiste que uma definição adequada de "physis" requer as diferentes perspectivas das quatro causas (aitia): material, eficiente, formal e final".[8] Aristóteles acreditava que a própria natureza continha sua própria fonte de matéria (material), poder/movimento (eficiência), forma e fim (final). Uma característica única da definição de "physis" de Aristóteles era sua relação entre arte e natureza. A relação entre "physis" (natureza) e techne (arte) era importante para Aristóteles. "A distinção crítica entre arte e natureza diz respeito a suas diferentes causas eficientes: a natureza é sua própria fonte de movimento, enquanto a techne sempre exige uma fonte de movimento fora de si".[8] O que Aristóteles estava tentando trazer à luz era que a arte não contém em si mesma sua forma ou fonte de movimento. Considere o processo de uma bolota se tornar um carvalho. Este é um processo natural que tem sua própria força motriz por trás. Não há força externa que empurre essa bolota para seu estado final; ao invés, ela está se desenvolvendo progressivamente em direção a um fim específico (telos).

Uso bíblicoEditar

Embora φύσις tenha sido frequentemente usado na filosofia helenística, ela é um termo que aparece apenas 14 vezes no Novo Testamento (10 dos escritos de Paulo).[9] Seu significado varia ao longo dos escritos de Paulo.[10] Um uso refere-se à ordem estabelecida ou natural das coisas, como em Romanos 2:14, onde Paulo escreve "Pois quando os gentios, que não têm a lei (nomos), por natureza fazem o que a lei exige, eles são uma lei para si mesmos, mesmo que eles não tenham a lei".[11][12] Outro uso de φύσις no sentido de "ordem natural" é Romanos 1:26, onde ele escreve "os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e foram consumidos com paixão um pelo outro".[13][14] Em 1 Coríntios 11:14, Paulo pergunta: "A própria natureza não ensina a você que se um homem usa cabelos longos, isso é uma desgraça para ele?"[15][16]

Esse uso de φύσις como referência a uma "ordem natural" em Romanos 1:26 e 1 Coríntios 11:14 pode ter sido influenciado pelo estoicismo.[17] Os filósofos gregos, incluindo Aristóteles e os estoicos, são creditados com a distinção entre leis feitas pelo homem e uma lei natural de validade universal,[18] mas Gerhard Kittel afirma que os filósofos estoicos não foram capazes de combinar os conceitos de νόμος (lei) e φύσις (natureza) para produzir o conceito de "lei natural" no sentido tornado possível pela teologia judaico-cristã.[19]

Como parte da teologia paulina da salvação pela graça, Paulo escreve em Efésios 2:3 que "todos nós já vivemos nas paixões da nossa carne, realizando os desejos do corpo e da mente, e por natureza éramos filhos da ira, como o resto da humanidade. No versículo seguinte, ele escreve: "Pela graça você foi salvo".[20][21]

Uso na teologia patrísticaEditar

Os teólogos do início do período cristão diferiram no uso desse termo. Nos círculos antioquenos, conotava a humanidade ou divindade de Cristo concebida como um conjunto concreto de características ou atributos. No pensamento alexandrino, significava um indivíduo concreto ou independente existente e aproximava-se da hipóstase sem ser sinônimo.[22] Embora se refira à mesma coisa que ousia, é mais empírica e descritiva, focando na função, enquanto a ousia é metafísica e se concentra mais na realidade.[23] Embora encontrado no contexto do debate trinitário, é principalmente importante na cristologia de Cirilo de Alexandria.[23]

Uso modernoEditar

O adjetivo grego physikos é representado de várias formas no inglês moderno: como a física "o estudo da natureza", como físico (via latim médio physicalis), referindo-se tanto à física (ao estudo da natureza, ao universo material) quanto ao corpo humano.[24] O termo fisiologia (physiologia) foi cunhando no século XVI (Jean Fernel). O termo physique (físico), para "a constituição corporal de uma pessoa", é um empréstimo do francês do século XIX.

Na medicina, o sufixo -physis ocorre em compostos como sínfise, epífise e alguns outros, no sentido de "um crescimento". A physis também se refere à "placa de crescimento", ou local de crescimento no final dos ossos longos.

Ver tambémEditar

Referências

  1. «PHUSIS : Greek protogenos goddess of nature ; mythology : PHYSIS, NATURA». www.theoi.com. Consultado em 27 de dezembro de 2015 
  2. Discutidos nas obras de Aristóteles assim intituladas, Física e Metafísica. "Physis, translated since the Third Century B.C. usually as "nature" and less frequently as "essence", means one thing for the presocratic philosophers and quite another thing for Plato." Welch, Kathleen Ethel. "Keywords from Classical Rhetoric: The Example of Physis." Rhetoric Society Quarterly 17.2 (1987): 193-204. Print. The Pontifical Academy of Sciences. Evolving Concepts of Nature. Proceedings of the Plenary Session, 24–28 October 2014, Acta 23, Vatican City, 2015. link.
  3. BRUNSCHWIG, J.; GEOFFREY, L. Diccionario Akal de El saber griego. Traducción: Marco García Quintela. Vol. 26. Ediciones AKAL, 2000, p. 709, 780p.
  4. Odisseia 10.302-3: ὣς ἄρα φωνήσας πόρε φάρμακον ἀργεϊφόντης ἐκ γαίης ἐρύσας, καί μοι φύσιν αὐτοῦ ἔδειξε. (Assim dizendo, Argeifontes [=Hermes] deu-me a erva, tirando-a do solo, e mostrou-me sua natureza.) Odisseia (ed. A.T. Murray).
  5. Gerard Naddaf, The Greek Concept of Nature, SUNY Press, 2005, p. 3. Guthrie, W. K. C., Presocratic Tradition from Parmenides to Democritus (volume 2 of his History of Greek Philosophy), Cambridge UP, 1965.[falta página]
  6. Dunkie, Roger (1986). «Philosophical background of the 5th Century B.C.». The Classical Origins of Western Culture: The Core Studies 1 Study Guide. Col: Brooklyn College Core Curriculum Series. [S.l.: s.n.] 
  7. Gerard Naddaf, The Greek Concept of Nature (2005), 1f.
  8. a b Atwill, Janet. "The Interstices of Nature, Spontaneity, and Chance." Rhetoric Reclaimed: Aristotle and the Liberal Arts Tradition. Ithaca, NY: Cornell UP, 1998. N. Print.
  9. Balz, Horst Robert. Exegetical dictionary of the New Testament. [S.l.: s.n.] ISBN 9780802828033 
  10. Verbrugge, Verlyn D. (2000). New International Dictionary of New Testament Theology. [S.l.: s.n.] 
  11. Romans 2:14:ESV
  12. Danker, Frederick W. (2014). A Greek-English lexicon of the New Testament and other early Christian literature. [S.l.: s.n.] 
  13. Romans 1:26-1:27:ESV
  14. Danker, Frederick W. (2014). A Greek-English lexicon of the New Testament and other early Christian literature. [S.l.: s.n.] 
  15. 1 Corinthians 11:13:ESV
  16. Balz, Horst Robert. Exegetical dictionary of the New Testament. [S.l.: s.n.] ISBN 9780802828033 
  17. Balz, Horst Robert. Exegetical dictionary of the New Testament. [S.l.: s.n.] ISBN 9780802828033 
  18. Roberts, John (2007). Oxford Dictionary of the Classical World. [S.l.: s.n.] 
  19. Kittel, Gerhard. Theological Dictionary of the New Testament. [S.l.: s.n.] 
  20. Ephesians 2:3-2:4:ESV
  21. Verbrugge, Verlyn D. (2000). New International Dictionary of New Testament Theology. [S.l.: s.n.] 
  22. Kelly, J.N.D. Early Christian Doctrines A&C Black(1965) p.318
  23. a b Prestige, G.L. God in Patristic Thought, SPCK (1964), p.234
  24. «Physical». Online Etymology Dictionary