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Portugal Futurista, 1917, capa
Portugal Futurista, 1917, contracapa

Portugal Futurista foi uma revista portuguesa de que só saiu um número, em novembro de 1917. Tendo como director o futurista algarvio Carlos Filipe Porfírio (1895-1970), a revista pretendia ser a voz impressa do Futurismo em Portugal[1].

O primeiro e único número da revista foi apreendido pela polícia pouco depois de posto à venda, na sequência de uma denúncia da "linguagem despejada" do texto "Saltimbancos", de Almada Negreiros. Segundo Fernando Pessoa, a apreensão deu-se quando a revista, tendo escapado por uma "sorte inexplicável" à censura prévia que vigorava em tempo de guerra, se encontrava já nas montras das livrarias.[2] A polícia, condescendente, consentiu que "os rapazes salvassem o maior número de exemplares que pudessem".[3]

A revista, que se vangloriava de uma hipotética tiragem de dez mil exemplares, era dirigida oficialmente por um aluno de belas-artes, Carlos Filipe Porfírio, mas quem nos bastidores terá realmente comandado as operações foi o pintor Guilherme de Santa-Rita. Uma grande fotografia sua acompanha um texto em que Bettencourt Rebello fala da "sensibilidade mediúnica" de Santa-Rita e afirma que ele era "o artista que o génio da época produziu" e "em Portugal, a mais completa síntese desta época de estranhas manifestações, que Picasso surpreendeu no seu alvorecer". A revista apresenta também quatro reproduções de obras de Santa-Rita Pintor.

Outro artigo, em francês, de Raul Leal, trata de uma das obras de Santa-Rita reproduzidas, considerando-a «la suprème réalisation du futurisme».

Na revista aparece também uma montagem de traduções de textos de Marinetti, Boccioni, Carrà, Russolo e Severini de 1910.

O «Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX» de Almada Negreiros termina da seguinte forma:

«O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.»

De autores portugueses, a revista tem dois textos de Bettencourt Rebello, um sobre dobre Santa-Rita e outro sobre o futurismo; uma prosa ("Saltimbancos"), três poemas ("Mima-Fataxa", "Sinfonia Cosmopolita" e "Apologia do Triângulo Feminino"), o artigo "Bailados Russos em Lisboa" e o citado "Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX", todos de Almada Negreiros; dois poemas de Fernando Pessoa ("Episódios" e "Ficções de Interlúdio") e o texto "Ultimatum" de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa); poemas de Sá-Carneiro ("Três Poemas"); e o artigo "L’abstractionisme futuriste" de Raul Leal.

De autores estrangeiros, a revista inclui, além do "Manifeste des Peintres Futuristes" (uma colagem de textos dos pintores italianos acima citados), poemas em francês de Guillaume Apollinaire e Blaise Cendrars, o manifesto futurista Le Music-Hall de Marinetti (Milão, 29 de setembro de 1913, republicado no Daily Mail de 21 de novembro de 1913) e, em português, o "Manifesto futurista da Luxúria" de Valentine de Saint-Point.

A peça mais famosa desta revista é, contudo, o Ultimatum, de Álvaro de Campos, que poderá também ter incomodado as autoridades. Fernando Pessoa escreveu a propósito da obra do seu próprio heterónimo:

«É difícil imaginar como qualquer ministério, estando o país em guerra, poderia consentir na publicação de Ultimatum, que, original e magnífico como é, embora não germanófilo (pois é anti tudo, aliados e alemães), contém insultos contundentes contra os aliados, e bem assim contra Portugal e o Brasil, os próprios países aos quais, sem dúvida, Portugal Futurista se destinava.»[4]

Referências

  1. Portugal Futurista no site do Centro de Investigação para Tecnologias Interactivas da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
  2. Fernando Pessoa , Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Lisboa: Ática, 1966, pp. 407-409)
  3. João Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, 4.ª ed., 1981, p. 451.
  4. Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Ática, 1996, p. 409.

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