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Primeiro Concílio de Latrão
Data 1123
Aceite por Catolicismo
Concílio anterior Quarto Concílio de Constantinopla
Concílio seguinte Segundo Concílio de Latrão
Convocado por Papa Calisto II
Presidido por Papa Calisto II
Afluência 300-1000
Tópicos de discussão Questão das investiduras
Documentos Vinte e dois cânones, direitos dos papas para a investidura de bispos, condenação da simonia, "Trégua de Deus"
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O Primeiro Concílio de Latrão, de 1123, foi um concílio ecumênico da Igreja Católica. Foi convocado pelo papa Calisto II em dezembro de 1122, imediatamente após a concordata de Worms. Os objetivos do concílio eram diversos, mas principalmente acabar com a prática de conferir benefícios a pessoas leigas, eliminar a influência secular nas eleições de bispos e abades, separar claramente os assuntos espirituais dos temporais, restabelecer o princípio de que a autoridade sobre os assuntos espirituais reside unicamente na Igreja, e finalmente, abolir completamente a influência dos imperadores romano-germânicos nas eleições papais.

O concílio contou com a presença de 300 bispos e mais de 600 abades, todos reunidos em Roma em março de 1123, o que é um tamanho considerável em comparação com os concílios realizados até então. Calisto presidiu aos trabalhos pessoalmente, durante os quais as decisões da concordata de Worms foram lidas e ratificadas assim como diversas outras decisões foram tomadas.

Índice

Contexto até o concílioEditar

O primeiro concílio de Latrão foi convocado pelo papa Calisto II, cujo reinado começou em 1 de fevereiro de 1119. Marcou o fim o da Questão das Investiduras que tinha começado antes, no tempo do papa Gregório VII e continuou controverso e sob disputa por quase um século.

Privilegium e o conflito com o Papa PascoalEditar

Guido, como Calisto era conhecido antes de sua elevação[1], era filho de Guilherme I, Conde da Borgonha[1] e era relacionado por parentesco com quase todas as casas reais da Europa. Foi nomeado legado papal em França pelo papa Pascoal II, que tinha cedido às pressões militares de Henrique V do Sacro Império Romano-Germânico e tinha sido forçado a concordar com termos extremamente desfavoráveis à Igreja (que deveria desistir de todas as suas posses e reinos recebidos do império e do reino da Itália desde o tempo de Carlos Magno). Em compensação, o imperador desistiria de suas pretensões na questão das investiduras.[1].

Estas concessões não trouxeram a tão esperada paz e provocaram uma enorme revolta, pois ninguém desejava voltar ao tempo em que era o imperador quem escolhia o papa[1]. A maior resistência foi em França, liderada justamente pelo legado Guido[1]. Este tinha participado do sínodo laterano onde foi proclamado o que ficou chamado de "Privilegium" de 1111 e, retornando à França, convocou uma assembleia dos bispos de França e da Borgonha na cidade de Vienne. Aí a prática da investidura laica do clero (pela qual reis e imperadores podiam nomear bispos ou mesmo o papa) foi denunciada como sendo herética[1]. Uma sentença de excomunhão foi proclamada contra Henrique V, que tinha arrancado à força do papa as concessões do Privilegium, que também foi condenado por ser contra os interesses da Igreja[1]. Os decretos da assembleia de Vienne foram enviados ao papa Pascoal II para que fossem confirmados, o que ele fez em 20 de outubro de 1112[1].

Papa Gelásio II e o antipapa Gregório VIIIEditar

Guido foi em seguida elevado à posição de cardeal por Pascoal[2][3][4][5][6], que apesar disso parece não ter ficado muito contente com o ataque frontal e audacioso de Guido ao imperador[2][3][4][5][6]. Com a morte de Pascoal, em janeiro de 1118, Gelásio II foi eleito Papa[2][3][4][5][6], sendo imediatamente preso pelos aliados italianos de Henrique V. Com o apoio da população conseguiu fugir para a Gaeta, onde foi coroado[2][3][4][5][6]. Henrique demandou que ele confirmasse o "Privilegium", mas não recebeu nenhuma resposta que o satisfizesse. Henrique então nomeou Burdino, o antigo arcebispo de Braga, como seu próprio papa sob o nome de Gregório VIII. Burdino tinha antes sido o enviado do papa Pascoal para conversar com Henrique V quando este invadiu a Itália. Traindo a causa papal, juntou-se ao imperador e recebeu-o em Roma em março de 1117, coroando-o solenemente imperador. Por isso, Burdinho fora excomungado e deposto de seu arcebispado.

Gelásio foi forçado a fugir novamente e refugiou-se na Abadia de Cluny, onde morreu em 1119[2][3][4][5][6]. Quatro dias depois da morte de Gelásio e por obra principalmente do cardeal Cuno, Guido foi eleito papa e assumiu o nome de Calisto II. Foi coroado em Vienne em 9 de fevereiro de 1119[2][3][4][5][6].

Papa Calisto II e o concílio de LatrãoEditar

Por causa de sua conexão próxima com as casas reais da Alemanha, França, Inglaterra e Dinamarca, o papado de Calisto foi recebido com muita celebração por toda a Europa. Havia a real esperança de que a Questão das Investiduras pudesse ser resolvida de uma vez por todas[2][3][4][5][6]. Neste sentido, o imperador chegou até a receber uma missão diplomática de Henrique V em Estrasburgo. Porém, logo ficou claro que o imperador não iria ceder o seu suposto direito antigo de nomear o papa e os bispos dentro do seu império. Ainda assim, possivelmente como forma de demonstrar uma aproximação (ou por uma necessidade política real), Henrique retirou seu apoio ao antipapa Gregório VIII.

Em 8 de junho de 1119, Calisto realizou um sínodo em Toulouse para proclamar as reformas disciplinares em que vinha trabalhando para conseguir dentro da Igreja da França. Em outubro do mesmo ano, abriu também um concílio em Reims que contou com a presença de Luís VI de França e da maior parte dos seus barões e mais de quatrocentos bispos e abades[2][3][4][5][6]. O papa também iria encontrar-se com Henrique V em Mousson, que apareceu ali com um exército de mais de trinta mil homens. Calisto, vendo a postura pouco amistosa de Henrique, voltou para Reims rapidamente e ali continuou o concílio, tratando de assuntos como a simonia e o concubinato do clero.

Estava claro agora que Henrique não tinha intenção de reconciliação e que nenhum compromisso com ele seria atingido. O concílio em Reims considerou a situação e acabou decidindo pela excomunhão tanto de Henrique V quanto de Gregório VIII em 30 de outubro de 1119.

Calisto estava agora determinado a voltar para Roma, que estava ocupada pelas tropas do imperador e pelo antipapa Gregório VIII. Uma revolta da população forçou o antipapa a fugir e, depois de muitas intrigas políticas e militares em Roma e nos estados italianos, Gregório acabou deposto formalmente e Calisto foi aceite como o papa legítimo em 1121. Recuperando o seu poder em Itália, Calisto retomou então a sua disputa com Henrique V sobre a questão das investiduras. O imperador já vinha sendo alvo de pressão de muitos dos seus barões na Germânia por causa deste conflito com o papa, alguns inclusive entrando em rebelião aberta. Henrique foi forçado pelas circunstâncias a buscar alguma forma de acordo com Calisto e as negociações iniciais foram realizadas em Wurzburg, em outubro de 1121. Lambert, o cardeal de Ostia, foi enviado para convocar um sínodo em Worms, que começaria em 8 de setembro de 1122. Já em 23 de setembro, a Concordata de Worms ou Pacto Calixtino, foi firmado. Por seu lado, o imperador desistiu da investidura e concedeu a liberdade na eleição das sedes episcopais.

As eleições dos bispos poderiam sim ser testemunhadas pelo imperador ou seus representantes. Calisto obteve o direito de nomear os bispos por toda a Germânia, mas ainda não conseguira o mesmo na Borgonha e na Itália[7][8][9][10][11][12].

O primeiro concílio de Latrão foi convocado para confirmar a concordata de Worms, mas também decidiu questões sobre a simonia, o concubinato do clero, roubos na Igreja, documentos eclesiásticos fraudulentos e também reafirmou as indulgências aos cruzados[2][3][4][5][6].

Anos finais de CalistoEditar

Nos anos finais de sua vida, Calisto II tentou assegurar o status da Igreja como tinha sido no final do reino do papa Gregório II. Reorganizou as igrejas à volta de Roma, canonizou Conrado de Constança, condenou os ensinamentos de Pedro de Bruys, confirmou o bispo Thurston de York contra a vontade de Henrique I de Inglaterra e reafirmou a liberdade da sé de Iorque frente à de Cantuária. Morreu em 13 de dezembro de 1124 e foi sucedido pelo papa Honório II. A concordata de Worms e o primeiro concílio de Latrão mudaram para sempre a crença no direito divino dos reis de nomear os papas e os bispos, e reformularam a natureza da relação entre a Igreja e o Estado para sempre.[13][14][15][16][17][18][19][20]

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b c d e f g h Hardouin VI, 2, 1916.
  2. a b c d e f g h i Synod of Vienne, veja Mansi, XXI, 175
  3. a b c d e f g h i Synod of Vienne: Hardouin, VI, 2, 1752
  4. a b c d e f g h i Synod of Reims, Mansi, XXI, 187
  5. a b c d e f g h i Synod of Reims: Hefele, Conciliengesch., V, 344
  6. a b c d e f g h i Synod of Reims: HALLER, Die Verhandlungen zu Mouzon (1119)
  7. Concordat of Worms, veja Mansi, XXI, 273, 287
  8. Concordat of Worms: JAFFE, Bibl. Rer. Germ., V, 383
  9. Concordat of Worms: MUNCH, Vollstandige Sammlung aller Concordate, I (Leipzig, 1830)
  10. Concordat of Worms: NUSSI, Conventiones de Rebus Eccles. (Mainz, 1870)
  11. Concordat of Worms: BERNHEIM, Zur Geschichte des Wormser Konkordates (Leipzig, 1878)
  12. BRESLAU, Die kaiserliche Ausfertigung des Wormser Konkordates in Mitteil. des Instituts fur Oesterreich. Gesch., 1885
  13. Biographies by Pandulphus Aletrinus, Aragonius and Bernardus Guidonis (Muratori, Script. Rer. Ital. III, 1, 418
  14. Watterich, “Vitae Rom. Pontif. II, 115, Migne, P. L., CLXIII, 1071
  15. Migne, P. L., CLXIII, 1073–1383
  16. Hardouin Concilia (VI, 2, 1949–1976
  17. D’ Achery Spicilegium, Paris 1723, II, 964; III, 478, 479
  18. Robert, Bullaire du pape Calixte II (Paris, 1891)
  19. MAURER, Papst Calixtus II, in 2 parts (Munich, 1886, 1889)
  20. MacCaffrey, J. (1908). Pope Callistus II. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company.

Ligações externasEditar

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