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Raul Pires Ferreira Chaves (1889-1967), foi um Engenheiro Civil e Inventor português diplomado pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa. Viveu e exerceu a sua actividade profissional em Portugal, em Cabo Verde e na Guiné Portuguesa (actual Guiné-Bissau).

Inventou e patenteou o “Sistema e material MURUS[1], precursor dos actuais sistemas de construção com blocos modulares e que foi também um contributo para a evolução do conceito de pré-fabricação. Com este material construiu muitas das obras por si projectadas.

Foi Director das Obras Públicas de Cabo Verde onde realizou diversos trabalhos que melhoraram a habitabilidade e contribuíram para o desenvolvimento do arquipélago, como a descoberta e captação de água doce em nascentes submarinas na Ilha do Sal.

Na Guiné Portuguesa (actual Guiné-Bissau), onde foi Presidente da Associação Industrial, Comercial e Agrícola[2][3], é ainda recordado pela sugestiva alcunha de “Engenheiro Baga-baga”[4]. Foi também Director das Obras Públicas da Guiné.

Índice

BiografiaEditar

Raúl Pires Ferreira Chaves nasce em Portugal na cidade de Faro, em 27 de Maio de 1889. Filho de Joaquim Manuel Ferreira Chaves e Maria Antónia Pires Ferreira Chaves. Casado com Elvira da Conceição Ribeiro Ferreira Chaves. Teve quatro filhos[5].

Irmão de Maria Alexandrina Pires Ferreira Chaves, de Olímpio Ferreira Chaves e de João Carlos Pires Ferreira Chaves.

Diplomado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico.

Em 1915 desloca-se para Cabo Verde com a sua mulher. Ali permaneceu até 1926. Durante esse período nasceram, na Ilha do Maio e na Ilha de Santo Antão, os seus três primeiros filhos.

Em 1936, após um período passado na Guiné e em Portugal, regressa aquele arquipélago, agora como Director das Obras Públicas. Teve a seu cargo a construção de edifícios e infraestruturas diversas, necessária ao povoamento daquele território.

Debateu-se com grande escassez de meios humanos e materiais. Acumulando funções, foi professor no Liceu de São Vicente na cidade do Mindelo.[6]

A escassez de água doce era o maior dos problemas de algumas ilhas daquele arquipélago. Na Ilha do Sal localizou nascentes submarinas de água doce e conseguiu efectuar a sua captação. A maior abundância deste elemento, possibilitou o enorme aumento demográfico registado nas décadas seguintes naquela ilha (ver Sal (concelho de Cabo Verde)).

Inventou e patenteou, em 1936, um revolucionário sistema de construção de alvenarias autoportantes com blocos modulares – o “Sistema e material MURUS”. Este invento foi desenvolvido durante um período (de 1932 a 1936) em que permaneceu em Lisboa.

Permitindo construir com grande qualidade e em muito menos tempo do que pelos processos até aí disponíveis, a invenção do “Sistema e material MURUS” ajudou a reduzir a enorme dependência do exterior que caracterizava a “indústria da construção” nas antigas colónias portuguesas, em especial, na Guiné e em Cabo Verde.

Também reduzia os custos de edificação, porque sendo locais a produção dos blocos e a obtenção de parte da matéria-prima, o custo relativo ao transporte dos materiais de construção era substancialmente menor. Era também uma enorme vantagem dispensar a utilização de ferramentas convencionais e mão de obra especializada: inicialmente efectuou uma demonstração do sistema com uma equipa formada exclusivamente por mulheres sem experiência neste tipo de trabalho, que, sob a sua orientação, construíram um pequeno edifício.

Com o “Sistema e material MURUS” executou então, em Cabo Verde, a construção de diversos edifícios e monumentos cuja arquitectura, por sinal bastante informada do ponto de vista estético, também estava a seu cargo, dada a inexistência de arquitectos naquelas ilhas; actuou também à escala do urbanismo.

A destacar: Serviços de Estatística da Colónia de Cabo Verde na Cidade da Praia, o “Pavilhão dos serviços públicos do Aeródromo Internacional da Ilha do Sal” (actualmente Aeroporto Internacional Amílcar Cabral), o Farol de Fiúra[7] (na Ponta Norte da mesma ilha), um Obelisco de grandes dimensões, o Cruzeiro da Independência e o plano de urbanização da Praça 5 de Outubro na Cidade da Praia inteiramente constituído por moradias-tipo. Estes projectos são interessantes exemplos de adequação e coerência entre a concepção do objecto e o processo de construção utilizado.

Com o mesmo material também projectou e construiu infra-estruturas como poços, aquedutos, canais de irrigação, cisternas e até pontes.

Processou o Estado Português por ter preterido o “Sistema e material MURUS” num concurso para uma empreitada de obras públicas, em Cabo Verde, em favor de soluções mais dispendiosas.

Na Guiné Portuguêsa (actual Guiné-Bissau), entre 1926 e 1932, foi Director das Obras Públicas.

Regressou à Guiné na década de 1940. Instalou uma fábrica que produziu o “Sistema e material MURUS” em maior escala.

Foi Presidente da Associação Industrial, Comercial e Agrícola da Guiné.

Sob a sua presidência, e iniciativa, esta associação lança concurso, com apoio do Sindicato Nacional dos Arquitectos, para a aquisição do projecto de arquitectura da sua nova sede. A "Câmara de Comércio de Bissau", inaugurada em 1958, tornou-se a mais qualificada realização arquitectónica[8] da cidade de Bissau[3]. O projecto esteve em exposição em Lisboa nas Exposições Gerais de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Actualmente serve de sede ao PAIGC.

É ainda hoje recordado na Guiné-Bissau, pela sugestiva alcunha de “Engenheiro Baga-baga”[4].

Raúl Pires Ferreira Chaves serviu de inspiração para o protagonista - "Doutor Virgolino" - do livro de contos para crianças “Animais, esses desconhecidos”[9], de 1965, de Maria Helena da Costa Dias, ilustrado por Tóssan, baseado em episódios verídicos da sua vida.

É também possível encontrar, nos jornais de Portugal e das antigas colónias, numerosas referências à sua pessoa e ao seu trabalho.

Regressou a Lisboa no início de década de 1960.

Faleceu em Agosto de 1967.

RealizaçõesEditar

Invenção do sistema de construção de alvenarias autoportantes com blocos modulares: “Sistema e material MURUS”, que patenteou em 1936. Precursor dos actuais sistemas de construção com blocos modulares e também um contributo para a evolução do conceito de pré-fabricação.

CargosEditar

  • Professor do Liceu Infante Dom Henrique, no Mindelo.
  • Director das Obras Públicas da Guiné Portuguesa.
  • Director das Obras Públicas de Cabo Verde.
  • Presidente da Associação Industrial, Comercial e Agrícola da Guiné.

Trabalhos publicadosEditar

Notas e referênciasEditar

Notas


  1. Diário de Notícias Sábado, 10 de Junho de 1939 (p. 1)
  2. «Catalèg des les biblioteque». Consultado em 13 de maio de 2010  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)[ligação inativa]
  3. a b Ana Vaz Milheiro, Eduardo Costa Dias. «Arquitectura em Bissau e os Gabinetes de Urbanização colonial (1944-1974)» (PDF). PDF. Consultado em 13 de maio de 2010  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  4. a b Em alusão a uma espécie autóctone de activas térmitas, que constrói os notáveis “morros baga-baga”, conhecidos pela sua quase indestrutibilidade. Durante a guerra, chegavam a servir de abrigo ao fogo dos morteiros.
  5. Dado que o seu filho Alexandre Ribeiro Ferreira Chaves (n.1915) foi também engenheiro, poderá encontrar-se em alguns documentos a designação de Engº Ferreira Chaves (Pai). A sua filha Maria Helena Ribeiro Ferreira Chaves da Costa Dias (n.1917) foi uma investigadora da Literatura Portuguesa e o seu filho Jorge Ribeiro Ferreira Chaves (n.1920), arquitecto.
  6. Professores do Liceu Infante D. Henrique, Mindelo: 1930-1931 Foto no Magazine Cultural Na Esquina do Tempo
  7. Acta da sessão do Conselho Técnico de Obras Públicas da Colónia de Cabo Verde de 28 de Dezembro de 1938
  8. Projecto dos arquitectos Jorge Ferreira Chaves e Álvaro Valladas Petersen
  9. Dias, Maria Helena da Costa (1965). Animais, esses desconhecidos. [S.l.]: Portugália. 200 páginas 
Livros
  • MORAIS, João Sousa – Mindelo: Património Urbano e Arquitectónico / Assentamento Urbano e os seus protagonistas. Casal de Cambra: Caleidoscópio, Julho 2010. (p. 121)
  • Linhas Gerais da História do Desenvolvimento da Cidade do Mindelo. Cabo Verde, Praia: Edição do Fundo de Desenvolvimento Nacional – Ministério da Economia e das Finanças, publicação do Ministério da Habitação e Obras Públicas, 1980. (p. 78)
Jornais
  • MIRANDA, Augusto (1938). «Santo Antão : Entrevista com o sr. engenheiro R. Pires Ferreira Chaves sobre a calamidade da ilha» (Jornal). Notícias de Cabo Verde : Orgão regionalista independente. - Ano 8, nº 179. 3 páginas. Consultado em 13 de maio de 2010  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)
  • “Notícias de Cabo Verde” 25 de Março de 1937
  • “Notícias de Cabo Verde” 1 de Julho de 1937
  • “Notícias de Cabo Verde” 1 de Fevereiro de 1938 (p. 1)
  • “Notícias de Cabo Verde” 30 de Abril de 1938
  • “Notícias de Cabo Verde” 25 de Março de 1941 (p. 2)
  • “A Verdade” de 31 de Outubro de 1936 (p. 1)
  • "Humanidade" de 26 de Fevereiro de 1938
  • “Diário de Notícias” Sábado, 10 de Junho de 1939 (p. 1)
  • “1º de Janeiro” de 12 de Fevereiro de 1940 (p. 1)
  • “Novidades” de 18 de Fevereiro de 1941 (pp. 2, 6)
  • “Jornal do Comércio” de 8 de Janeiro de 1942 (p. 1)
Revistas
  • Revista “TÉCNICA” de Novembro de 1939 (p. 467)
  • Revista "A ARQUITECTURA PORTUGUESA CERÂMICA E EDIFICAÇÃO, REUNIDAS" de Julho de 1939 (p. 19)
  • "REVISTA PORTUGUESA DE COMUNICAÇÕES" de Dezembro de 1936 (p. 175)
Outros
  • Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa‎ - (P. 324); Sociedade de Geografia de Lisboa; 1928.
  • Boletim da Agência Geral das Colónias‎ - Portugal: Agência Geral das Colónias; 1932. (P. 300). "Raul Pires Ferreira Chaves — Lisboa — Maquette da cidade e porto de Bissau (Guiné) — Medalha de Ouro.(...)"
  • Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil, 1907-1979‎ - (P. 210); Instituto do Arquivo Histórico Nacional (Praia, Cape Verde)
  • CHAVES, Raul Pires Ferreira. (Presidente da Direcção da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné). Carta endereçada ao Presidente do Sindicato Nacional dos Arquitectos, Lisboa, 11 de Novembro de 1949 [1 página]. Espólio: Biblioteca da SRS/Ordem dos Arquitectos [Manuscritos Avulsos].
  • FERNANDES, I. Peres. (Secretário do Sindicato Nacional dos Arquitectos). Carta endereçada ao Presidente da Direcção da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné, Lisboa, 4 de Março de 1950 [1 página]. Espólio: Biblioteca da SRS/Ordem dos Arquitectos [Manuscritos Avulsos].
  • Catálogo da “X Exposição geral de Artes Plásticas 1956 – Dez anos de exposição Geral de Artes Plásticas 1945-1956”; Obra 124 - Projecto para a nova sede da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné, a construir em Bissau.

Ligações externasEditar