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Simão de Trento
Nascimento 1472
Morte 21 de Março de 1475

Simão de Trento (Trento, circa 1472 – Trento, 21 de Março de 1475) foi uma criança de dois anos e meio que viveu na cidade de Trento, cujo desaparecimento e assassínio foram atribuídos aos líderes da comunidade judaica da cidade.

BiografiaEditar

O desaparecimento do pequeno Simão tornou-se o motivo de grande preocupação na cidade de Trento e de difamação da pequena comunidade judaica da cidade. Dias antes de Simão desaparecer, o Beato Bernardo da Feltre, pregador franciscano itinerante que por ali passou, previu um doloroso acontecimento na cidade de Trento, que cairia sobre a comunidade judaica.[1] Simão desapareceu durante a páscoa judaica de 1475, sendo encontrado numa vala de água que passava por baixo da casa de Samuel,o líder da comunidade, com o corpo repleto de marcas alegadamente resultantes de tortura. De acordo com os relatos da época, os judeus teriam usado o sangue de Simão na cozedura das suas matzás da páscoa judaica.

 
Gravura do século XV (1493) mostrando os judeus assassinando a criança Simão. Os remendos amarelos redondos são emblemas que os Judeus eram forçados a usar. Nomes de protagonistas como Tobias e Angelus são rotulados.

Os líderes da comunidade judaica foram presos e dezessete deles confessaram sob tortura, prática judicial comum naquele tempo e considerada essencial para as investigações. [2] A tortura mais comum era a strappada, em que as mãos da vítima eram atadas atrás das costas por uma corda comprida; o acusado era então levantado do chão por uma polia. Um homem considerado possível suspeito, Zanesus, "o Suiço", não judeu, foi interrogado mas não torturado. [3] Os suplícios continuaram até que as confissões se ajustassem ao pretendido pelos acusadores; um dos réus, Lazarus, após torturas contínuas, declarouː "Digam-me o que devo dizer e eu o direi" [4]

Quinze dos judeus, incluindo Samuel, o chefe da comunidade, foram sentenciados à morte na fogueira.[5] [6] Johannes Hinderbach, o bispo de Trento, foi mais tarde suspeito de se ter apropriado dos bens confiscados aos judeus.[7] O papa Sisto IV tentou em vão proteger os judeus, e nomeou um frade dominicano, Battista dei Giudici, como comissário encarregado de investigar os fatos e realizar novo julgamento. O comissário encontrou em Trento uma atmosfera tão hostil que para prosseguir o seu trabalho, fugiu para Rovereto, na República de Veneza.

O Papa ordenou a Hinderbach que não tomasse mais medidas contra os judeus de Trento, e colocasse as mulheres judias presas, as crianças, e os sobreviventes do processo, em "um lugar confortável e seguro" ; era agora o bispo que estava a ser investigado,[8] mas este desobedeceu ao Papa. Em Roma, Hinderbach, um homem muito poderoso, moveu as suas influências, e defendeu a sua posiçãoː o assassínio ritual tinha de facto acontecido, e a criança devia ser canonizada.[9] [10] Então Sisto IV nomeou uma comissão de cardeais, que deveria decidir sobre o evento. Em 20 de Junho de 1478, o papa Sisto IV finalmente livrou Hinderbach de todas as suspeitas, pois a comissão de cardeais, que examinara todos os registros pertinentes, concluiu que o julgamento fora conduzido de acordo com os procedimentos legais.[11]

Simão tornou-se um símbolo de veneração para a igreja católica local, e seu caso era muito parecido com outros da Europa, como o de André de Rinn. Mais de cem milagres foram atribuídos directamente ao "Pequeno São Simão" no ano imediatamente após o seu desaparecimento e o seu culto estendeu-se a toda a Itália e Alemanha. O garoto foi proclamado Beato da Igreja em 1588 pelo Papa Sixto V, considerado mártir e patrono das vítimas de sequestros e da tortura.

Em 1965, no seguimento do Concílio Vaticano Segundo, a Igreja começou a reinvestigar a história de São Simão e abriu de novo o processo, encabeçado pelo Monsenhor Roger. O culto de São Simão não foi reprimido, mas suprimido pelo Papa Paulo VI [5][12] e o relicário erigido em sua honra foi guardado. Seu culto foi removido do calendário canônico, mas não do martirológio católico. Há ainda fieis que o cultuam na cidade.

Em 2001 as autoridade locais da província de Trento organizaram um sermão ecuménico com católicos e judeus no local exacto onde se situava antigamente a sinagoga em Palazzo Salvadori, numa espécie de reconciliação entre a cidade e a comunidade judaica, uma vez que a cidade de Trento havia sido excomungada pela comunidade judaica desde o século XVI.

Apesar da maior parte dos historiadores acordarem na improbabilidade de Simão ter sido assassinado por Judeus, o livro "A páscoa de sangue" (Pasqua di Sangue) do historiador judeu Ariel Toaff relata vários casos semelhantes, tidos como "vingança" da comunidade judaica Ashkenazi por conta dos pogroms (perseguições) ocorridos na Europa contra a comunidade judaica. O livro foi fortemente criticado por dar crédito histórico a testemunhos obtidos sob tortura e foi retirado da circulação e reeditado pelo seu autor. [13][14]

Ver tambémEditar

Referências

  1. Hsia, R.Po-chia (1992). Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial, Yale University, 1992. [S.l.]: Yale University. 25 páginas 
  2. Hsia, Ronnie Po-chia (1992). Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial. [S.l.]: Yale University. pp. 2, 34 
  3. Hsia, R.Po-chia (1992). Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial. [S.l.]: Yale University. pp. 35–38 
  4. Hsia, R.Po-chia (1992). Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial Yale University 1992. [S.l.]: Yale University. 49 páginas 
  5. a b Falk, Avner (1996). A Psychoanalytic History of the Jews. [S.l.]: Associated University Presses, Inc. 499 páginas 
  6. «Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial». Good Reads. Consultado em 1 de Maio de 2019 
  7. http://www.jewishencyclopedia.com/articles/13752-simon-simedl-simoncino-of-trent
  8. Hsia, R. Po-chia (1992). Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial. [S.l.]: Yale University. 117 páginas 
  9. Hsia, R.Po-chia (1992). Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial. [S.l.]: Yale University. 125 páginas 
  10. http://www.treccani.it/enciclopedia/johannes-hinderbach_(Dizionario-Biografico)
  11. Hsia, R.Po-chia (1992). Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial. [S.l.]: Yale University. 127 páginas 
  12. «Simon of Trent». CatholicSaints.Info. Consultado em 9 de Agosto de 2018 
  13. Palmieri-Billig, Lisa (7 de Fevereiro de 2007). «Historian gives credence to blood libel». The Jerusalem Post 
  14. Schwartz, Adi (24 de Fevereiro de 2008). «Bar-Ilan Scholar Recants Controversial Blood Libel Theory». Haaretz 

BibliografiaEditar

  • Hsia, Ronnie Po-chia , Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial, Yale University, 1992