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Fragata francêsa Poursuivante disparando uma salva de tiro de enfiada sobre o navio de linha britânico Hercule.

Em guerra naval, tiro de enfiada (em inglês raking fire)[1] é o disparo dirigido paralelo ao eixo longo de um navio inimigo. Ou seja, alvejando as naus ao comprido.[2] Embora cada tiro seja dirigido contra o perfil de um alvo menor ao invés de se atirar no costado do navio e, portanto, mais propenso a errar o navio alvo tanto para um lado quanto para o outro, um único tiro de canhão que atinge o alvo irá passar por uma parte maior do navio, aumentando assim os danos ao casco, as velas, e a tripulação. Um tiro de popa causa mais danos do que um tiro de proa porque os tiros não são desviados pela proa curva (e reforçada).

Nas batalhas entre navios à vela, onde a maioria dos canhões se encontram ao longo do costado do navio, uma das maiores preocupações era evitar receber tiros de enfiada.[3] Assim, como as áreas da proa e da popa de um navio eram altamente vulneráveis​​, a tática de tiro de enfiada era o desejo furtivo de cada capitão em batalha.[4]

TrafalgarEditar

 
Nesta figura, o navio que está no topo está cruzando o "T" do navio que está no fundo e disparando um tiro de enfiada em sua proa.

A eficácia desta tática foi demonstrada na Batalha de Trafalgar. O HMS Victory do Almirante Nelson, conduzindo a coluna de barlavento da frota britânica, quebrou a linha francesa bem na popa do Bucentaure e logo a frente do do Redoutable. O Victory disparou em sua popa menos protegida e ele sofreu baixas de 197 mortos e 85 feridos (incluindo o capitão Megendie);

O almirante Villeneuve teve sorte de sobreviver, e embora ele não tenha sido capturado por três horas, o tiro pôs o Bucentaure fora da luta.

Batalha de San DomingoEditar

 
Ação do Sir J.T. Duckworth's em San Domingo, 7-8 de Fev. 1806, Thomas Whitcombe, 1817, National Maritime Museum

A Batalha de San Domingo, em 1806, foi uma batalha naval das guerras Napoleónicas. Nela se ilustra a situação na qual o navio que procura acertar um tiro de enfiada pode ser logo após alvo da mesma tática. Nesta batalha, o navio Alexandre danificado, de repente saiu fora de sua linha em uma tentativa de cruzar entre o Spencer e o Northumberland para disparar fogo de enfiada em ambos. O Capitão Robert Stopford do Spencer se antecipou e respondeu rapidamente, virando em arco atras do Alexandre e disparando ele, uma salva de enfiada.[5]

USS Constitution x HMS GuerriereEditar

 
Constitution atira no casco incendiado da Guerriere, já bastante avariado.

Durante a guerra anglo-americana de 1812, a fragata americana USS Constitution entrou em combate com a fragata britânica HMS Guerriere. Após ter acertado o mastro da mezena, o navio britânico foi danificado. A fragata Constitution veio em torno da proa do Guerriere e acertou um pesado fogo de enfiada a curta distância, usando grapeshot, que acertou o pátio principal. A fragata britânica respondeu ao fogo, mas o lado britânico sofreu um número bem maior de baixas (78 baixas britânicas contra 14 baixas americanas).[6][7] Apesar do fogo da Guerriere ter sido pesado e a curta distância, as laterais do Constitution eram reforçadas com ferro, o que lhe rendeu somente 7 mortos e 7 feridos.[8] Por fim a fragata foi incendiada e afundada pelo USS Constitution.

A captura do USS ChesapeakeEditar

 
USS Chesapeake abordado e capturado pelo HMS Shannon.

A captura do USS Chesapeake, ou a Batalha de Boston Harbor, foi travada em 01 de junho de 1813, entre o HMS Shannon e o USS Chesapeake, como parte da guerra de 1812. Após ter o timão atingido e ter seu timoneiro morto por um canhão de 9 libras o USS Chesapeake se encontrou preso contra a Shannon e incapaz de manobras de distância. Sua popa então tornou-se exposta e foi varrida pelo tiro de enfiada britânico. Após a confusão que se seguiu, o USS Chesapeake foi abordado e tomado.

Referências

  1. Darley, William M. (editor-chefe); Spencer, Shawn A. (editor tradutor); Severo, Miguel (editor tradutor). «Dicionário de terminologia militar Inglês-Português» (PDF). Consultado em 24 de novembro de 2011. Arquivado do original (PDF) em 11 de dezembro de 2009 
  2. Light, Kenneth Henry Lionel (10 de outubro de 2005). «Trafalgar». Instituto Histórico de Petrópolis. Consultado em 24 de novembro de 2011 
  3. «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa». Consultado em 24 de novembro de 2011. Arquivado do original em 3 de março de 2007 
  4. Balkoski, Joseph (1981). «Fighting Sail - Sea Combat in the Age of canvas and Shot 1775-1815». New York: Simulations Publications. Strategy & Tactics (em inglês) (85): 4-7. ISSN 0049-2310 
  5. Woodman, Richard (contrib.) (1998). The Victory of Seapower. Winning the Napoleonic War 1806-1814 (em inglês). Great Britain: Chatham Publishing. p. 22-23. 192 páginas. ISBN 1-84067-359-1 
  6. Taylor, R. «Naval Battle: the Constitution vs. the Guerriere 1812». Consultado em 24 de novembro de 2011 
  7. «Ships and Tactics». Consultado em 24 de novembro de 2011 
  8. Handy, Amy (1996). The Golden Age of Sail (em inglês). New York: Todtry. p. 78-79. 80 páginas. ISBN 1-880908-89-1