Ação Libertadora Nacional

Grupo armado que lutava contra a ditadura militar instaurada no Brasil em 1964
(Redirecionado de ALN)
Disambig grey.svg Nota: Não confundir com Aliança Nacional Libertadora.
Ação Libertadora Nacional
ALN.jpg
Cartaz da Ação Libertadora Nacional
Datas das operações 1967 – 1974
Motivos Combate à ditadura militar
Área de atividade Brasil Brasil
Ideologia Extrema-esquerda
Principais ações Assaltos, atentados e sequestros
Ataques célebres Sequestro do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick
Status extinta

A Ação Libertadora Nacional (ALN) foi uma organização de luta armada de esquerda no Brasil que enfrentou a ditadura militar brasileira instaurada em 1964. Formada no ano de 1967, a organização era fruto de uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro e foi a principal organização da esquerda armada no Brasil, destacando-se pela quantidade de membros que conseguiu incorporar.[1] Durante seus anos de atuação, a ALN realizou notórias ações de cunho radical, incluindo assaltos a bancos com o intuito de financiar a guerrilha e sequestros de figuras públicas que tinham como objetivo a troca com militantes presos.[1]

HistóriaEditar

Contexto políticoEditar

Após o Golpe de Estado no Brasil em 1964, a instalação da ditadura fechou os espaços democráticos de manifestação e frustrou a expectativa de uma transformação pacífica da sociedade brasileira, levando à radicalização das posições de muitos militantes de esquerda.[2] Em maio daquele ano, Carlos Marighella foi baleado e preso por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) dentro de um cinema no Rio de Janeiro. Por decisão judicial, foi libertado no ano seguinte e resolveu se engajar na luta armada contra a ditadura.[3] Em sua publicação chamada A Crise Brasileira, Marighella analisa a conjuntura nacional a partir da luta de classes e critica a linha pacífica do PCB que então apostava na resistência por meio de greves gerais.[4][5]

FormaçãoEditar

No dia primeiro de dezembro de 1966, Marighella redigiu uma carta renunciando à Comissão Executiva Nacional do PCB onde ele argumenta que "é preferível renunciar a um convívio formal a ter de ficar em choque com a própria consciência".[6] Por essas divergências políticas, liderou junto com Joaquim Câmara Ferreira a formação da "Dissidência de São Paulo", uma ala do PCB que defendia a luta armada.[7] Após a Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) realizada em Havana em 1967, os dissidentes foram definitivamente expulsos do PCB, resultando na criação da Aliança Libertadora Nacional.[2][8]

AtuaçãoEditar

Desde a sua formação, a ALN passou a realizar diversas ações armadas com vistas à expropriação de armas e dinheiro cujo objetivo era estruturar a guerrilha. Durante essa fase foram localizados manifestos e panfletos elaborados pelo grupo que tinham o objetivo de explicar para a população o sentido das operações militares. A maioria desses panfletos foi espalhada nos próprios lugares onde aconteciam as ações. Em um desses panfletos, a ALN explica em agosto de 1969 a necessidade das ações para criar infraestrutura e rejeita o conceito leninista do centralismo democrático, uma vez que a organização se definiu como "Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução."[9] O sentido político de tal procedimento era justificar que os roubos não eram comuns e possuíam um objetivo político claro, pois ao justificarem tais atos os militantes buscavam construir uma narrativa na qual denunciavam as atrocidades cometidas pela ditadura e argumentavam a escolha pela luta armada.[1] Essa tática fica evidenciada a partir do manifesto de 1968 chamado "Ao povo brasileiro".

A guerrilha ataca todos aqueles que oprimem ou colaboram com a opressão da ditadura. Expropria os grandes capitalistas, ataca a polícia levando suas armas, justiça agentes e espiões da polícia, sequestra personalidades para trocar por revolucionários presos. A guerrilha tira do inimigo tudo aquilo que é útil para a luta do nosso povo.
 
Manifesto "Ao povo brasileiro"[1] .

SequestrosEditar

Dos quatro sequestros de diplomatas realizados na história do país, a ALN participou da execução de dois. O primeiro, junto com o MR-8, foi o do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, que conseguiu a libertação de 15 presos políticos, além de conquistar grande destaque na imprensa, divulgando a sigla da organização e a ideia da luta armada. O segundo sequestro foi o do embaixador alemão Ehrefried Von Holleben, que libertou 44 presos políticos.[8]

RepressãoEditar

Marighella foi morto em uma tocaia montada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos principais torturadores da ditadura, no dia 4 de novembro de 1969, em São Paulo, na alameda Casa Branca.[10] Joaquim Câmara Ferreira (o "Velho" ou "Toledo"), jornalista e ex-membro do PCB desde a década de quarenta, dirigiu a ALN a partir daí até a sua morte, em 23 de outubro de 1970, quando foi delatado por José Silva Tavares, o "Severino", que teria sido torturado após ser preso. Joaquim Câmara foi torturado até a morte pelo Delegado Fleury e membros de sua equipe.[11]

Em 1970, Eduardo Collen Leite (codinome Bacuri), um importante membro da ALN, foi preso pela equipe do delegado Fleury e morreu após 109 dias de confinamento.[12] Em 1971, um grupo de dissidentes que havia efetuado treinamento de guerrilha em Cuba criou o Movimento de Libertação Popular (Molipo). A maior parte de seus militantes da linha de frente foi morta até 1974 e depois disso a ALN apenas sobreviveu ao cerco montado pela repressão. O ultimo comandante militar da ALN, após a morte de Marighella foi Carlos Eugênio Paz, conhecido por Clemente nos tempos de guerrilha. Por ser o homem mais procurado pela repressão, exilou-se na França em 1973 e viveu por lá até 1981. Foi também um dos poucos integrantes da luta armada que sobreviveu sem nunca ter sido preso ou torturado. Foi um dos últimos brasileiros anistiados, em maio de 1982. Até outubro de 2009, havia publicado os livros "Nas trilhas da ALN" e "Viagem à Luta Armada" e faleceu em 29 de junho de 2019.

As dissidências da ALNEditar

Em 1971 surgem duas dissidências da ALN que teriam vida efêmera e contingentes reduzidos: o Movimento de Libertação Popular (Molipo)[13] e a Tendência Leninista (TL). O Molipo, por sua vez, foi extinto com a prisão, torturas ou ainda com a execução sumária da maioria de seus membros, entre os quais destacaram-se líderes estudantis paulistas como Antonio Benetazzo, José Roberto Arantes de Almeida e Jeová Assis Gomes.

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b c d Camacho, Carlos Eduardo Malaguti (22 de outubro de 2018). «Às armas! A trajetória da Ação Libertadora Nacional (1968-1974)». Perseu: História, Memória e Política. Consultado em 12 de fevereiro de 2021 
  2. a b «Adusp - Revista n° 51 - outubro de 2011». www.adusp.org.br. Revista Adusp. 22 de outubro de 2011. Consultado em 12 de fevereiro de 2021 
  3. «Carlos Marighella». Memórias da ditadura. Consultado em 12 de fevereiro de 2021 
  4. Betto, Frei (2006). «Batismo de sangue : guerrilha e morte de Carlos Marighella». Rocco. OCLC 124027261. Consultado em 12 de fevereiro de 2021 
  5. «A Crise Brasileira». www.marxists.org. Consultado em 12 de fevereiro de 2021 
  6. «Carta à Comissão Executiva do Partido Comunista Brasileiro». www.marxists.org. Consultado em 12 de fevereiro de 2021 
  7. «"Vocês estão matando um brasileiro!", gritava Virgílio Gomes da Silva há 50 anos». Brasil de Fato. Consultado em 12 de fevereiro de 2021 
  8. a b Alzira Alves de Abreu. «Ação Libertadora Nacional {ALN)». CPDOC - FGV, Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil. Consultado em 27 de agosto de 2018 
  9. «Sobre a Organização dos Revoluci». www.marxists.org. Consultado em 12 de fevereiro de 2021 
  10. Mauro Malin. «Carlos Marighella». CPDOC - FGV, Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil. Consultado em 27 de agosto de 2018 
  11. «Espiões monitoravam brigas». Correio Braziliense, Política, p. 5. 9 de abril de 2012. Consultado em 27 de agosto de 2018 
  12. Juliana Dal Piva (21 de janeiro de 2016). «109 dias de tortura». Consultado em 27 de agosto de 2018 
  13. MIRANDA, Nilmário e TIBÚRCIO, Carlos. Dos filhos deste solo. São Paulo: Fundação Perseu Abramo e Boitempo, 1999. Página 26. ISBN 85-85934-37-9

Ligações externasEditar