Barragem do Calueque

A Barragem do Calueque, por vezes referida como Açude do Calueque, é um barragem construída no leito do rio Cunene, destinada à regularização fluvial e à captação de água para regadio e abastecimento público. A estrutura situa-se nas imediações de Calueque, no município de Ombadja, Província do Cunene, fronteira Angola-Namíbia, a 192 km a noroeste de Ondjiva.[1] Foi construída entre 1972 e 1974, e está ser reabilitada e ampliada[2] após ter sido danificada na Guerra Civil Angolana.[3]

Barragem do Calueque
Localização
Localização Moxico, Angola Editar isso no Wikidata
Coordenadas 17°16'55.4"S, 14°32'27.18"E, 10°39'54"S, 21°53'26"E
Tipo povoamento humano, barragem

DescriçãoEditar

A construção do açude da Barragem do Calueque iniciou-se em 1972, estando 70% das obras previstas concluídas quando foram abandonadas devido à proclamação da independência de Angola e à guerra civil que se lhe seguiu e que culminou com a invasão do exército sul-africano durante a luta de ocupação do território namibiano.[3] Em 27 de Junho de 1988 as comportas e parte da estrutura do açude foram severamente danificadas devido a um ataque militar perpetrado no contexto da Guerra Civil Angolana.[4]

A Barragem do Calueque é um açude em betão, complementado por um dique em terra, situado na parte mais a jusante do Cunene Médio, a cerca de 540 km a jusante da Barragem do Gove e 40 km a montante da Barragem do Ruacaná.[4] O projecto previa a constituição de uma albufeira com uma capacidade de 475 milhões de m3 e de uma rede de canais e adutoras capaz de regar cerca de 100 000 ha de terrenos agrícolas.

A barragem tem como objectivos[4]: (1) promover a regularização fluvial do Cunene, permitindo a optimização da produção da central hidroeléctrica associada à Barragem do Ruacaná; (2) armazenar água para transferência para o norte da República da Namíbia, onde alimente um vasto esquema de irrigação e abastecimento para consumo humano e abeberamento de animais denominado Calueque-Oshakati Water Scheme, centrado na Barragem de Olushandja;[5] e (3) armazenar água para uso doméstico e desenvolvimento local, incluindo a criação de um perímetro de rega que se prevê possa abranger 90 000 ha de terrenos agrícolas em território angolano.

O funcionamento do Calueque-Oshakati Water Scheme (Sistema de Abastecimento de Água de Calueque-Oshakati), que tem como principal reservatório a albufeira da Barragem de Olushandja, assenta num conjunto de acordos sobre a partilha das águas do Rio Cunene cuja génese data do período colonial.[6][7] O actual acordo entre a República Popular de Angola e a República da Namíbia permite uma captação máxima de 6 m3/s para uso na região da Ovambolândia, no norte da Namíbia. A rede de canais e adutoras tem cerca de 300 km e abastece de água a cidade de Oshakati, na Ovamboland, localizada cerca de 140 km a sueste.

Dado que a obra inicialmente projectada não chegou a ser concluída e que parte da estrutura foi destruída durante a guerra civil, a barragem está apenas parcialmente funcional, armazenando um volume muito menor do que o inicialmente previsto, razão pela qual está em curso uma empreitada de reparação e ampliação.

A empreitada de ampliação vai apetrechar a barragem com duas centrais hídricas, um novo canal e 21 pivôs de irrigação. A vertente de hidráulica agrícola vai permitir a regularização do caudal do Rio Cunene e a irrigação agrícola na zona fronteiriça com a República da Namíbia, numa área que se estima atinja 90 mil hectares de campos agrícolas. Está planeada a extensão das suas funções com a construção de dois geradores hidroeléctricos.[4] A República da Namíbia vai continuar a receber água através da barragem.[3]

Calueque durante a Guerra Civil AngolanaEditar

No período conturbado que se seguiu à independência de Angola, a existência da barragem e a importância da sua água para parte importante da população do norte da Namíbia, território ao tempo designado por Sudoeste Africano e sob administração da República da África do Sul, conferiu à área considerável importância estratégica, em particular para os sul-africanos. A protecção da barragem e do pessoal técnico que nela trabalhava, e se sentia ameaçado por guerrilheiros das várias facções angolanas, serviu de pretexto para que em 1975, antes da proclamação da independência de Angola, a Àfrica do Sul estacionasse uma força militar nas proximidades da barragem, efectivamente ocupando militarmente a região em torno de Calueque.[8] Pouco depois da chegada das primeiras tropas, e no contexto mais vasto da Guerra Fria e do apoio ocidental às forças que se opunham ao MPLA, foi desencadeada a Operação Savana, com a invasão do sul de Angola e a intervenção militar sul-africana directa no conflito angolano.

Durante toda a fase inicial da Guerra Civil Angolana a região de Calueque permaneceu ocupada por forças sul-africanas, numa ocupação contínua que apenas foi contestada em 1988. Naquele ano, durante a Batalha de Cuito Cuanavale, forças angolanas, apoiadas por militares cubanos, abriram uma segunda frente contra as tropas sul-africanas e da UNITA no sudoeste de Angola e lançaram uma ofensiva terrestre massiva na direcção de Calueque. A área a norte da baragem foi cenário de combates sangrentos, numa luta que provaria ser um ponto de viragem no conflito.

A 27 de Junho daquele ano de 1988, as forças sul-africanas retiraram através da barragem em direcção à fronteira do Sudoeste Africano e nesse mesmo dia 4 aviões Mig 23 cubanos atacaram a barragem. O primeiro grupo de aviões bombardeou a ponte e as comportas, matando um soldado. Outro grupo de aviões bombardeou a estação elevatória e a central eléctrica que a alimentava, enquanto numa terceira passagem foi destruída a adutora que liga a barragem à Ovambolândia. Uma das últimas bombas atingiu o local onde se encontravam onze soldados sul-africanos, que tinham abandonado a sua viatura blindada Buffel para observar os eventos, provocando-lhes a morte.[9] A barragem e as adutoras ficaram severamente danificadas, tornando-as inoperativas.[10] Os estragos feitos ainda não foram totalmente reparados.[11]

Ligações externasEditar

Notas

  1. Hogan, C. Michael (2012). Saundry, P.; Cleveland, C., eds. «Kunene River». Encyclopedia of Earth. Washington DC: National Council for Science and the Environment. Consultado em 14 de maio de 2012 
  2. A empreitada, da responsabilidade do Gabinete de Regularização da Bacia Hidrográfica do rio Cunene, está orçada em 225 milhões de dólares e vai ter a duração de 25 meses, esperando-se a conclusão em 2014.
  3. a b c «Jornal de Angola, edição de 3 de Abril, 2012» .
  4. a b c d «Sistema integrado do Rio Kunene» .
  5. «Sistemas de Transferência em Massa» .
  6. «Acordos Bilaterais» .
  7. «Agreement between the government of the Republic of South Africa and the government of Portugal in regard to the first phase of development of the water resources of the Cunene river basin» (Nota de imprensa). Département de l'administration et des finances (Portugal). 21 de janeiro de 1969. Consultado em 2 de maio de 2012 
  8. Hamann, Hilton (2001). Days of the Generals. [S.l.]: New Holland Publishers. p. 21. ISBN 978-1-86872-340-9. Consultado em 15 de outubro de 2007 
  9. «Fotografias das consequências do bombardeamento» .
  10. George, Edward (2005). The Cuban Intervention in Angola, 1965-1991: From Che Guevara to Cuito Cuanavale. [S.l.]: Routledge. p. 245. ISBN 0-415-35015-8 
  11. «No plans to repair Calueque wall». The Namibian. 16 de julho de 2007